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Crónicas . Da Balbúrdia Article

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On Novembro 21, 2025porJoão Azevedo

Olá,

Não me lembro se alguma vez me senti inteiro. O que é ser-se inteiro? É uma boa questão. É difícil descrever uma sensação que penso nunca ter sentido. Não se trata apenas de sentir-me satisfeito ou completo com a vida que levo, embora também envolva isso. É mais sobre sentir que vivo aquém daquilo que poderia ser. Como se projetasse no futuro essa ideia e me custasse agarrá-la. Ou, pior, como se a agarrasse em alguns momentos, mas acabasse por sentir que me escapava, como areia quando apertamos a mão e a deixamos afrouxar.

Vivi a maior parte da minha vida sem sentir nada disto, mas sabendo que talvez fosse mais do que uma ideia abstrata que a minha mente conjeturou. Passei por momentos cuja intensidade e prazer foram de tal ordem que senti que havia uma estrelinha que me guiava. Que existia outra dimensão da existência, onde havia potencial para ser mais, sentir mais. Daí o uso do adjetivo “inteiro” no início desta crónica. Como se estas coisas que me vão acontecendo, boas e más, me permitissem vislumbrar algo diferente, algo maior. Como se estivesse a viver sem algo, como se a plenitude da minha existência precisasse de algo para se concretizar.

Claro que ponho a hipótese de isto ser apenas fruto da minha imaginação, e que estou a confundir a — muito humana — insatisfação crónica com aquilo que temos. Aquele instinto animal de acumulação, para nos prepararmos para tempos piores, que nos faz querer sempre mais. Talvez o que sinto seja simplesmente isto, esta animalidade, e eu queria achá-la algo mais especial. Também é muito humano sentirmos que somos únicos e especiais nas nossas experiências e percepções. Mas é muito visceral o que sinto. Pode ser fruto de condicionamento ou de uma crença inconsciente, mas há uma enorme parte de mim que sempre sentiu faltar-lhe algo. E isto não é necessariamente mau. Funciona como uma bússola para certos rumos que decidi tomar. Sempre senti que a relação que queria ter na minha vida era com a Sofia, por exemplo. Como se algo não estivesse certo na arquitetura do mundo sem que estivéssemos juntos, sem que partilhássemos uma vida. Mas não me completa, no sentido platónico do termo. Não é a relação que tenho que define o que sou e sinto, mas a forma que ela assume em dado momento.

Os meus filhos fazem todo o sentido na minha existência. Quando os conheci, em momentos separados por cinco anos, senti coisas dentro de mim que desconhecia e nem sabia serem possíveis de existir. Passei a saber o que é sentir-me pai, apesar de nem sempre me ter sentido pai. Ainda hoje, nem sempre me sinto pai. Mas escolho sê-lo, à minha maneira.

Photo by Miguel Sousa on Unsplash

Faço quarenta anos no domingo. A última década foi cheia de acontecimentos cuja intensidade reforçou ainda mais a minha crença neste copo meio vazio. Nos últimos anos, pedi ajuda profissional e trilhei um caminho que me permitiu lançar luz sobre algumas sombras. Olhá-las com tempo — durante anos — e tentar perceber como se formaram e de que forma influenciaram a minha vida. Passei grande parte da minha vida a pensar que as minhas sombras, a escuridão que habita no meu peito, eram algo que deveria amputar ou tentar curar, como fazemos com um cancro. Um dos problemas das sombras é que, para além de evitarmos olhar para elas, muitas vezes envergonham-nos. Fazem-nos sentir mal por existirem, como se houvesse algo de errado connosco.

Sentir que não era inteiro poderia estar na origem desta terrível sensação, mas hoje, depois de olhar para quem sou por muito tempo e fitar cada sombra nos olhos, percebi o quão errado foi varrê-las para debaixo do tapete. Passei a querer integrar as sombras. À medida que fui tendo sucesso com algumas — são muitas — fui ganhando coragem para olhar outras. E neste processo, comecei a sentir-me mais eu, mais completo. Mais inteiro?

Chego aos quarenta com outro entendimento: possivelmente nunca me sentirei verdadeiramente inteiro, mas, ao invés de me resignar, escolho procurar plenitude nas minhas intenções. Porque tudo é impermanente, incluindo a natureza das coisas. Há uma finitude na forma como nos relacionamos com as pessoas e o mundo. As relações terminam, mudam, ganham outros contornos, outras especificidades. O mundo também, e, consequentemente, a forma como o olhamos muda. Este é o meu último texto com trinta e nove anos e sorrio ao ler cada parágrafo. Porque ele encerra uma parte da minha existência e inicia outra. Talvez esteja menos ingénuo. Ou mais cínico. Ou ambos, ao mesmo tempo. Integro as contradições do meu pensamento e das minhas ações da melhor forma que posso: o que muda, quiçá, é aceitá-las.

Ainda vejo um outro mundo à distância de o querer, mas longe o suficiente para não o agarrar. O exercício da minha liberdade começa na intenção de caminhar para o que vejo, e não esperar perdê-lo num horizonte. É precisamente isto que guardo como intenção para os meus quarenta.

Abraço-vos,
João


  • Foi-me recomendado ler o “Normal People” da Sally Rooney por uma antiga colega de faculdade. Foi depois de uma troca de recomendações literárias e foi este o livro que ela escolheu como representante do seu gosto literário recente. Isto foi algures em Setembro e, na altura, arranjei-o baratinho na Vinted, em inglês. A minha melhor amiga quando passou lá por casa comentou que já tinha tentado ler e que não gostou “da cena dela”. Isto assusta e desmotiva, claro. Comecei a ficar com a sensação que me tinham recomendado um “romancezeco” e procrastinei a leitura. Só peguei nele na semana passada, mas li-o de rajada em poucos dias. Se me perguntarem sobre o que é o livro, terei que responder que é uma história de amor. Mas é muito mais que isso. É sobre a complexidade das relações, das teias que se montam à volta delas. No espetro que há da comunicação de um casal, da pressão social sobre as relações e o peso da classe social no nossos relacionamentos. É um tratado sobre relações na era moderna com que me identifiquei muito. Escrito por uma mulher da minha geração, com uma prosa muito própria, tocou em tantos pormenores da complexidade humana, sem pudor na sexualidade, com descrições vívidas e intensas. Podemos discernir uma relação amorosa da sua componente sexual e da forma como ela define a intimidade de um casal? De que forma nos podemos perder em palavras e manchar a comunicação entre um casal? Quão das nossas relações é fruto do condicionamento social e das estruturas de opressão vigentes? Um livro que termina com estas perguntas todas é, para mim, um óptimo livro.

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Tags: 2025, 40, aniversário, crescer, ser inteiro

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