Ciclos
Olá,
Esta semana trás consigo alguns marcos importantes na vida da minha família. O mais velho fez sete anos. Há qualquer coisa de fantástico no número. Primeiro, a constatação de que o tempo passa demasiado rápido. Há sete anos estava eu, olhando-o pela primeira vez, a chorar convulsivamente completamente assoberbado pela emoção. Ainda hoje não consigo colocar em palavras o que senti naquela madrugada. Segundo, o número sete tem uma conotação simbólica, mitológica e arquetípica poderosa. Olho para os setes anos como um ciclo de vida. Agora começa um novo, numa nova fase. Tanto para mim, pai, como para ele, filho. Qualquer coisa de inefável assola-me quando penso no que se avizinha. A entrada para um novo ciclo escolar, a sede de aprendizagem, o entusiasmo puro. As dificuldades, contratempos. A paternidade acarreta muito cansaço e sofrimento, mas também nos presenteia com estes pedaços de beleza e vida que preenchem o nosso coração.
Não tenho quase memória da minha entrada na escola primária. Apenas um episódio, doloroso e traumatizante, que ainda hoje recordo com nitidez. Lembro-me nos primeiros dias estar a aprender a letra i. E de não estar a conseguir desenhar a letra – a escrita em cursivo foi difícil para mim naquela fase. Lembro-me da sensação de falhar, de insuficiência, de vergonha (por ser o único a não conseguir desenhar aquelas duas perninhas com a pintinha no topo). Foi aterrador, porque queria saber escrever aquela letra. Estava ansioso para poder entrar nessa elite alfabetizada que pode aceder ao enorme poder da palavra escrita. Mas ficou a memória de me sentir horrivelmente mal por não conseguir; o perigo da socialização para o objetivo passa muito por aqui.
Aprendi a escrever, claro está. Mas odiava. Ninguém percebia a minha letra e foi-me repetido demasiadas vezes que era trapalhão, preguiçoso, distraído. As palavras marcam e, tão novo, acabaram por me definir. Tornaram-se na minha identidade até se tornar mais confortável para mim desempenhar esse papel do que melhorar. A escrita, as letras, o Português, tornou-se uma cruz que carreguei durante demasiado tempo. Foram precisos dez anos de escolaridade para voltar a ter confiança em mim e nas minhas capacidades e descobrir a minha verdadeira paixão e vocação: a escrita e a leitura. Voltei a descobrir a língua portuguesa, a sua beleza, e o enorme prazer que sinto em produzir textos com os seus vocábulos; brincar com frases e orações e expressar aquilo que, não raras vezes, nem me apercebo que estou a sentir.
Sinto que a rede de apoio do meu filho mais velho é sólida. Como pais, estamos capacitados para o ajudar, para o acolher, para o incentivar. E com o entendimento de que a aprendizagem se faz a um ritmo próprio. As metas e objetivos não são um fim. São um processo. Espero que estas bases sólidas, que foram conquistadas neste primeiro ciclo de sete anos, se reflitam nos próximo sete. Não para produzir resultados, mas para que ele tenha a autoestima necessária para resolver os seus problemas e dificuldades. Que se sinta capaz de enfrentar os desafios. Que consiga ter, de facto, a sua verdadeira independência. Como pai, pouco mais me importa e questiono-me se haverá algo mais importante. Olho para estes últimos anos e fico perplexo. O meu filho cresceu e tornou-se naquilo que é hoje. E eu cresci com ele. Mudei com ele. Ambicionei ser melhor com ele. Superei-me com ele. Ainda tenho momentos menos bons, ainda falho. Vou continuar a falhar. Mas sou a soma do que faço e não são episódios que me definem. É o todo. Tenho muito orgulho em ser seu pai; às vezes esqueço-me disso, e fico a ruminar nas minhas insuficiências. Mas tenho orgulho nele, e em mim e nesta caminhada que vamos fazendo juntos. Que venham mais ciclos de sete anos para continuarmos a crescer um com o outro.
Até para a semana,
João
PARTILHAS
Esta semana descobri que a Mia se juntou à comunidade Substack. Tem sido uma voz importante nas questões da parentalidade e já aqui falei dela muitas vezes. Ela trás reflexões importantes e relembra-nos que as crianças têm o mesmo valor que nós e devem ser tratadas como tal. Bem-vinda, Mia!
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