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Mãe (de rapazes) me confesso

On Agosto 9, 2024porJoão Azevedo

Olá,

Esta semana marca o arranque de uma série de crónicas escritas por pessoas que admiro e partilham comigo o gosto pela escrita. Vêm escrever, como eu, sobre paternidade, a vida e afins. Desta forma, permitem-me não ter que escrever crónicas para publicação ao longo de Agosto e entrarei de férias mais descansado. Estou muito grato a todos e todas que participaram e aceitaram, sem hesitação alguma, o meu convite. Espero que gostem de os ler tanto como eu.

Conheço a Diana desde os meus nove anos, quase dez. Fomos colegas de escola durante cinco anos, tentámos escrever um livro (ou teria sido apenas conto?) que se passava numa aldeia chamada Botão. Eu saí desse barco e nunca mais soube nada dessa narrativa. Partilhamos o gosto por livros, comportamentos impulsivos e pela escrita. As vicissitudes da vida encarregaram-se de nos separar os caminhos durante algumas décadas mas voltámos a manter o contacto. Ela é autora de um livro infantil muito apreciado cá em casa, mãe de dois rapazes, e gosta, demasiado, de pinguins. Não hesitou por um segundo em escrever a crónica que lhe pedi, e só posso estar imensamente grato por isso.


Quando, há onze anos, soube que ia ser mãe de um rapaz, todos me disseram que educar rapazes é simples e muito natural e que teria a tarefa facilitada, visto que “os meninos são muito amigos e carinhosos com as suas mães”. Hoje tenho dois meninos, com pouco mais de dois anos de diferença, e já me sinto com alguma legitimidade para me debruçar sobre a temática.

Chegados a este ponto, parece-me essencial fazer a distinção entre três grandes desafios da maternidade, em especial, quando estão em causa dois filhos rapazes: a educação, o dia-a-dia e a relação “mãe-filhos”. E se, de facto, a minha relação com os meus mini-homens é fácil, e flui sem grandes adversidades, por vezes educá-los e (con)viver com eles mostra-se bem mais complexo. Eu sou uma mulher comum, que aprecia roupa, malas e sapatos. E que gosta de ter a casa organizada, bonita, com plantas viçosas e almofadas coloridas. Que lê romances históricos e não dispensa assistir a uma boa série a seguir ao jantar. Mas há onze anos que sou, também, aquela mulher que vive no meio de um caos, mais ou menos controlado… de roupa suja esquecida nos quartos, caixas de cereais vazias a jazer nos armários, restos de lama nos tapetes e bolas de futebol em todos os cantos da casa.

Sou, também, a mãe que precisa de saber a distinção entre chuteiras com e sem piton e quais as mais adequadas para relvado natural ou sintético. Transformei-me, igualmente, na mãe que apanha chuvadas de inverno e um calor insuportável no verão, enquanto aguarda pacientemente (ou não…) que os seus rapazes terminem os treinos de futebol diários. Passei de uma soccer mom forçada, para uma adepta ferrenha do clube onde os meus filhos jogam. E de conhecedora moderada de futebol, tornei-me especialista em “jogos de Stop” com nomes de clubes e jogadores. Sou, ainda, a mãe que entra numa loja de roupa e, ao invés de comprar aquele vestido que viu na montra, acaba por escolher dois pares de jeans e umas quantas t-shirts para os meninos, visto que, na semana transata, chegaram a casa com rasgões e nódoas assassinas.

group of men playing soccer

Se é um desafio, para uma “mulher comum”, esta rotina diária com duas crianças pré- adolescentes? É, pois. Mas, confesso, que tenho a vida algo facilitada porque partilho a maioria das tarefas com o meu marido. Porque ambos suportamos e vivenciamos, de igual forma, a azáfama do dia-a-dia. E a escolha das chuteiras é feita em conjunto. E o pai, além de Uber dos filhos, levando-os a quase todas as atividades extracurriculares e festas de aniversário, também lava e estende os equipamentos que serão usados no dia seguinte. A educação dos meus filhos é, na verdade, a minha grande preocupação e a maior “dor de cabeça”. Apesar de não ter experiência enquanto mãe de meninas, quase aposto que alguns dos desafios atuais são exatamente os mesmos e que partilhamos problemas e inquietudes.

Tento ser a mãe fixe que incentiva o convívio fora da escola, que sugere convites para jantar e dormidas de amigos ao fim de semana, mas que, quando chega a hora de estudar ou fazer os TPC, veste o papel de “bruxa má” e não facilita. Também sou a mãe que não atrapalha o acesso dos filhos às telecomunicações, mas bloqueia o telemóvel do mais velho por “tempo excessivo de ecrã”. Os desafios de educar crianças e pré-adolescentes, em pleno século XXI, são muitos. De facto, o acesso constante e simples às tecnologias traz vantagens indiscutíveis, facilita imenso a construção de trabalhos e o próprio estudo, possibilita que as crianças mantenham, permanentemente, o contacto com os seus amigos e familiares. Mas, por outro lado, torna-os desinteressados e abstraídos do mundo exterior, preguiçosos no que respeita a tarefas diárias básicas e pouco estimulados, por exemplo, no que toca a pegar num livro.

Nós, o pai e eu, temos tentado educá-los de forma equilibrada, sem proibições excessivas, mas com algum controlo, o que não é totalmente compreendido pelos nossos filhos. Se, por vezes, exagero? Se sinto remorsos? Se sinto que poderia tê-lo feito de outra forma? Constantemente… mas isso não são as contingências da maternidade? E de todo aquele que, de alguma forma, educa? Ser mãe de rapazes é um desafio constante. É adquirir hábitos e gostos que não seriam, de forma inata, os meus. É transformar-me, todos os dias, e várias vezes ao dia, em mãe, amiga, professora, educadora, treinadora… e vestir o papel de mãe fixe e bruxa má em poucos segundos. É acompanhá-los nas suas lutas diárias (tanto físicas, como psicológicas), tentar correr (também, literalmente) ao seu lado, sentindo-me exausta, mas realizada, quando chegamos à meta. É viver o dia-a-dia de forma intensa e nunca ter dias entediantes. Mas é, também, receber abraços meiguinhos e elogios inusitados. E sentir um orgulho imenso após mais um obstáculo ultrapassado, chorando de alegria com cada taça e medalha conquistada.

Quando, há onze anos, soube que ia ser mãe de um rapaz, estava longe de imaginar o que aí vinha, o quão feliz a minha vida seria e o quão realizada, enquanto mulher e mãe, me iria sentir.

Diana Ferreira de Almeida

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