Carta de um ex-ateu, atual agnóstico, a Deus.
Exmo. Deus,
Daqui João. Já várias vezes falei Contigo, quase sempre em momentos de aperto ou de crise existencial. Fui educado a questionar-Te e considerar a Tua existência um conto de fadas. Na adolescência, achei que Eras o supremo responsável pelo sofrimento no mundo e, para além de Te negar, critiquei-Te incessantemente. Usei crucifixos e pentagramas invertidos para mostrar o meu desagrado com a crença na Tua pessoa. Foram manias de jovem rebelde que – na eventualidade de realmente Existires – são desrespeitosas e indignas, seja para quem for. Perdoa-me. Também não respeitei as crenças dos outros: desconsiderei quem afirmava ter fé em Ti, ou noutro dos Deuses monoteístas, caso não sejam todos o mesmo. Escrevo-Te esta carta porque, em primeiro lugar, o Miguel Esteves Cardoso fez algo parecido numa crónica publicada no Como é Linda a Puta da Vida e inspirou-me. Em segundo, acho que tenho várias questões por resolver Contigo. E, por último, queria que no mesmo parágrafo com que Te trato com enorme deferência e decoro pudesse usar a palavra puta, mas escudar-me no facto de ser o título de um livro. Piada fácil, eu sei, mas é parte integrante de quem sou, como deves saber.
Primeiramente, foste um conto, uma história. Na família paterna, o Pai Natal não era a figura central do Natal; o menino Jesus é quem era a estrela das festividades. Por isso, como criança expedita que era, percebi rapidamente que o menino Jesus deveria ser um sócio nessa empresa global que trazia prendas às crianças na véspera de Natal. Fui indagando quem era esse personagem; queria perceber se as regras do bom comportamento, proporcionalmente ligadas ao merecimento de prendas, também se aplicavam. Infelizmente, aplicavam. Mas em vez de ser um velho de barbas e fato vermelho, era um menino que nasceu em Belém, filho de José e Maria, aquecido por burros e vacas, que recebeu prendas de reis magos. Mas também era filho de Deus. Só mais tarde fiquei confuso com a parte da Imaculada Concepção e os direitos parentais de José. A criança que fui aceita cegamente a existência de dois pais; se também dava prendas de forma mágica, qual é o stress de ter dois pais? Aqui começou a saga de respeitar todo o tipo de famílias e reconhecer-lhes o direito à existência. Dois pais, duas mães, famílias monoparentais. Nada traduz melhor os valores judaico-cristãos do que este tipo de famílias, portanto.
Depois, quis o destino, ou a Tua vontade, que eu estivesse num atelier de tempos livres da paróquia da Igreja da Praça de Londres, em Lisboa. Que chique. Apesar de ser um ATL laico, certo dia perguntaram quem é que pertencia à catequese. Ao ver grande parte dos meus compinchas a levantar a mão, também levantei, não fosse eu uma maria-vai-com-as-outras. Levaram-me para a Igreja, puseram-nos em fila indiana e um senhor com umas vestimentas pouco convencionais deu-nos uma bolacha insossa enquanto murmurava algo como “o corpo de Deus”. Gostei da ideia da bolacha gratuita, apesar da má qualidade e falta de açúcar. Mas não achei piada nenhuma à parte a seguir: ficar sentado numa sala a ouvir falar de religião. O tom soturno, a cadência e as histórias deixavam muito a desejar. Compreendi que se tratava da organização de pessoas que acreditava em Ti e, para uma criança de 8 ou 9 anos, não consigo imaginar nada mais aborrecido do que aquilo. O meu pai não gostou nada que isto tivesse acontecido: nunca foi à bola com padres. Ateu convicto, desconfiado desse ópio do povo, sempre preferiu as cerimónias laicas: os copos de água. Sou incapaz de o julgar. Cresci sem educação cristã. Só li partes da Bíblia já em adulto e ainda hoje há muitas referências e narrativas do calhamaço Cristão que não conheço. Deduzo que tenha sido a Tua vontade que assim fosse.

O conceito da Tua existência deu-me bastante jeito em momentos de aflição, como disse no arranque do texto. Quando o desespero se apoderava nos momentos mais intensos, dei por mim várias vezes a pedir-Te ajuda. Como se viesses, deus ex machina, resolver os meus problemas, ou presentear-me com soluções. Lembro-me de chorar, encolhido sobre mim, lamuriando uma qualquer angústia que precisava de solução, e pensar em Ti. De precisar que Existisses, de facto, e me ajudasses e apoiasses. Nunca ouvi resposta da Tua parte, pelo menos não no momento. Várias vezes na vida senti que tive sorte – uma estrelinha – que me empurrou na direção certa, ou evitou que tomasse determinada decisão merdosa. Como são situações boas e felizes, e como sou egoísta e tendencialmente desconfiado das coisas que não consigo comprovar, atribuí-as ao acaso. O destino ou sorte. A fortuna do latim, aquele conjunto de coisas que nos sucedem sem razão aparente mas intimamente ligadas às condições materiais do preciso momento onde estamos. Em apertos, acabo a falar Contigo, mas as coisas boas e maravilhosas não me fazem pensar em Ti. É injusto, eu sei, mas Fizeste-nos à tua semelhança e, ainda por cima, deste-nos livre arbítrio e foi assim que eu escolhi lidar com o que me acontece.
Quando a doença da minha mãe bateu à porta da nossa casa, demorei algum tempo a encaixar. Nunca encaixei, na verdade. Havia algum requinte de malvadez da Tua parte em presenteares a Dona Maria da Graça com um cancro no pulmão, principalmente depois de ela ter deixado de fumar. Repara que nem hesitei em culpar-Te pela doença dela. Não ignoro que as nossas ações e hábitos têm consequências, e que todos sabemos que fumar potencia enormemente o risco de cancro. Mas era minha mãe. Ela era (ainda é?) o colo, o chão, o miminho e o amor na nossa casa. Tantos membros da família mais dispensáveis e foste logo escolher a melhor de nós. Odiei-Te com todas as minhas forças, revoltado e zangado com a minha impotência perante o espetáculo que é o definhar de uma vida. E, lá está, não era qualquer vida: era a pessoa que mais amava na existência humana. Foi aí que entrei nas fases do luto Contigo.

Comecei por Te negar, veemente. Não era possível Existires ou Seres benevolente e omnipotente, atendendo ao que estava a acontecer. Já sabia do sangue derramado em Teu nome, as injustiças atrozes de desastres climáticos, o sofrimento humano, das crianças, em tantas partes do mundo e a profunda miséria de se viverem vidas indignas. Mas, foda-se, desta vez era a minha mãe. Não podias ser real: nada nem ninguém lhe quereria mal. Depois fui assoberbado com uma raiva sem paralelo, como se o meu ódio Te pudesse ferir ou fazer mudar de rumo. Gritei-Te impropérios, critiquei as Tuas falhas e insuficiências e ri-me, nervoso, do terrível cuidador que demonstravas ser. Eventualmente, comecei a negociar. A impotência perante uma inevitabilidade tem muito disto: ofereci-Te a minha devoção, crença e fé em troca de uma cura, uma remissão ou um engano no diagnóstico. Mas talvez Tenhas percebido, oh Omnipotência, que eram balelas. Estas coisas são muito preto no branco: ou se têm ou não. Não se fingem perante o Todo-Poderoso e mantêm a esperança e o desejo que ele não perceba ou descubra. Eventualmente cheguei à depressão. Aquela angústia que se acumula e escurece o nosso interior, como um buraco negro que absorve toda a luz depois de colapsar sobre si mesmo. Não sei se isto é mesmo assim, nunca dominei o estudo da Física, Tu saberás melhor. Existem gradações de preto que só conhecemos em certas funduras dentro de nós. Assistir, sem poder fazer nada, ao definhar de quem gostamos tende a empurrar-nos para abismos. Acabei a aceitar, a contra gosto, e talvez seja este o busílis da questão. Aceitar sem compreender pressupõe fé, que já Viste que nunca abundou por estes lados. Foi uma aceitação cega, inconformada, de que nada poderia fazer contra a inevitabilidade. Que não há controle nem domínio sobre as nossas vidas. Somos feitos da matéria que se revela na forma como reagimos ao que nos acontece. Escolhemos a opção para a qual o conjunto de acontecimentos e escolhas passadas nos empurraram e lidamos com as ferramentas que esse somatório nos proporcionou. Levanta-se a questão filosófica do livre arbítrio que supostamente nos deste e que é altamente condicional. Somos livres de escolher, sim, mas o leque de possibilidades é moldado pelo meio envolvente feito de escolhas passadas. Que liberdade é esta, então? São outros quinhentos, mas escreverei sobre eles noutra altura.
Aceitei o meu fado, portanto, sem nunca Te compreender. Uma aceitação resignada e rancorosa. Uma estranha forma de vida, dizia a Amália. Refugiei-me no laicismo e na secularização: a ciência tornou-se na lente pela qual tentei ver o mundo. Procurei comprovar as teorias e demonstrar as minhas certezas e fazer-Te ver que não és necessário na cosmologia que vou construindo para mim. Mas sabes que Te estou a enganar e, pior, estou a enganar-me a mim. Porque não consigo conceber o milagre da existência e dos momentos de pura felicidade que já vivi, nem imaginar o mundo, as suas origens e propósitos, sem conceber a existência de algo superior. Algo maior. Chamemos-lhe uma entidade, um Deus, um Todo, uma bola de energia que flutua à volta de tudo o que existe. A força de que Yoda fala na Guerra das Estrelas. Não sei que nome lhe dar, nem como descrever. Talvez seja este mais um dos limites da existência terrena: somos incapazes de conceber existências em planos superiores. Aliás, adjetivamos quando, possivelmente, haverá uma palavra ou um conceito que remete para um signo que nós ainda não compreendemos. Que nunca compreenderemos. Mas ainda Te chamo. De profundis clamavi ad te, Domine; das profundezas Te chamo Senhor e, ainda hoje, só quando me encontro envolto na escuridão é que Te procuro.
Ainda hoje sinto um sentimento de profunda injustiça em ter perdido a mãe tão cedo. Sinto inveja das minhas irmãs mais velhas que usufruíram o dobro do tempo. Tenho pena que ela não tenha conhecido os meus filhos. E sinto falta do colo, do abraço, do cheiro, do mimo. Encontrei-o noutras pessoas, de formas diferentes, mas nunca mais tive aquele acolhimento. Isso, moldou-me. A falta de colo molda as pessoas e deixa marcas. Talvez por isso nunca tenha conseguido não dar colo aos meus filhos quando pediram – porque acolher um filho é encharcá-lo em amor. Só nos últimos meses é que comecei a sentir que lhe estou a fazer o devido luto. Porque a imaturidade, na altura em que a perdi, não me permitiu processar esse amor que ficou por expressar de uma forma saudável. E só há pouco tempo percebi que, no fundo, sou apenas um menino pequeno que sente falta do colo da mãe. Talvez tenha sido esse colo que procurei em Ti e nunca encontrei. Talvez Sejas como as outras pessoas da minha vida que me deram amor e acolhimento mas de outras formas. Nunca vão rivalizar com esse colo idílico que me foi tirado tão precocemente. Porque era conforto perante a incerteza, era amor na insegurança e era força para enfrentar o necessário. No fundo, fiquei mais de uma década sem estas coisas e nessa deriva chamei-Te. Procurei-Te nos recantos de textos religiosos e filosóficos. Nos astros. Mas o colo dos livros, das palavras sagradas, não era o mesmo. Demorei a perceber que esse colo nunca mais voltava. A perceber como viver sem ele.
Como pai de duas crianças com mentes jovens e em formação, já fui questionado se acredito em Deus, em Cristo, em Ti. Respondo que não, não acredito em Deus, nem em Cristo, como os cristãos. Acredito em algo que não sei que nome lhe dar nem como conceber. Penso: ah, sou um agnóstico! Mas deixo a questão em aberto: explico-lhes que somos livres de acreditar no que quisermos. E acho que as histórias que contamos a nós mesmos, as crenças que formam as nossas opiniões e valores, é que importam. Porque somos nós quem as escolhemos. Porque podemos ser expostos a doutrinas que podem deixar de ressoar connosco e podemos mudar de opinião. As nossas crenças também são mutáveis, consoante a idade, o momento e onde estamos. A minha ligação com o divino é um bocado como as estações do ano: vão mudando as energias e em cada uma delas sou uma pessoa diferente que soma as experiências das outras estações pelas quais vai passando. Ainda há muito que me incomoda nas questões da fé, principalmente nas suas formas organizadas e de devoção irresponsável à Tua figura. Já ouvi da boca de várias pessoas que desejaram tanto mal a certa pessoa que Te pediram que as levasses Contigo, dando a entender que as preces foram atendidas. Umas com pesar, um certo arrependimento e culpa pelo feito. Outras vangloriando-se, como se o poder divino se tivesse curvado aos seus desígnios. És uma espécie de desculpa para muita da ação humana e essa desresponsabilização irrita-me solenemente. Mas talvez a humanidade esteja perdida e a passar pelas várias fases do luto Contigo, tal como eu passei. Talvez estejam à procura de um colo e acolhimento que tarda em chegar. Demasiadas pessoas nunca o tiveram; levaram vidas de sofrimento atroz, injusto, inimaginável. Nessa procura de colo muito única, vamos traçando linhas e limites dentro dos nossos valores. Há quem queira pisar outros para se sentir poderoso e espera, disto, um acolhimento. Há quem aceite a indignidade da vida como escolha Tua e respeitam-na. Vivem o melhor que sabem com o que têm. Há todo um espectro de existências de alguma forma ligadas a Ti. Conectadas.
Já Te devia ter escrito antes. Afinal, quase todas as minhas questões Contigo são, primeiramente, questões comigo. Escrever ajuda-me, sempre ajudou. Põe-me as ideias no lugar. Mas acho que não encerrámos nenhum capítulo; quanto mais, começámos um diálogo que, cheira-me, vai perdurar até ao fim dos meus dias. Aí, nessa altura que desejo bem distante, espero perceber-Te melhor, ao olhar para o outro lado do muro da vida. E, do fundo do coração, espero encontrar quem fui perdendo e ter, como apregoas, a eternidade para pôr a conversa em dia com quem me vai fazendo falta.
Vamos falando,
João
O “Siddhartha” é dos meus livros preferidos. Já o li três vezes. Finalmente li “Narciso e Goldmund” e fiquei com a sensação que faltava qualquer coisa. Foi pertinente, foi interessante. Mas não é dos que mais tenha gostado de ler. Em muitos momentos foi denso, repetitivo. Noutros, surpreendentemente profundo. Mas a escrita do Hermann Hesse continua a ser qualquer coisa de diferente. Essa, manteve-se ao longo das páginas. Estava à espera de outra coisa e agora hesito em procurar o “Lobo das Estepes” dele. Eu percebo que ao longo do livro é-nos relatado o paradoxo entre a racionalidade e o sentimento, entre a lógica e a arte, entre o pensar e o sentir. Ambos competem pela verdade. Talvez não fosse o momento para ler este livro e eu precisasse de algo diferente. Não odiei ler o livro, mas esperava mais.
.
Já escrevi aqui várias vezes sobre a . Foi, e é, uma referência na parentalidade que tento praticar. Acho-a um ser humano sensível e de uma inteligência emocional (e não só) enormes. Escreveu um texto muito pertinente nos dias de hoje. Tocou-me. Porque fez pontes no meu peito entre a parentalidade e o mundo que estamos a ver todos os dias: a violência e misoginia normalizadas, o bullying físico e virtual, a desumanização e desresponsabilização social a que assistimos. E contribuímos, seja pela nossa inércia, apatia ou ignorância. É um texto forte para quem é pai ou cuidador, mas que vale mesmo muito a pena ser lido.
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Obrigado pelo texto. Eu também oscilo entre fases de maior ou menor crença.
Sinto por vezes uma grande força. Mas há tanto sofrimento, inclusivamente no mundo natural, que duvido.
O meu pai tem a teoria que a crença em Deus serviu para dar esperança aos humanos em épocas onde havia enormes sofrimentos.
Sendo eu budista, aprecio bem as vantagens da frase de Milarepa: “a minha religião é não me enganar a mim mesmo”. O nosso cérebro pode enganar-nos de formas bem subtis.
Basta ver toda a atividade que passa pelo cérebro que não notamos conscientemente.
Mas talvez seja precisamente essa a resposta: físicos teóricos e biólogos têm a teoria do “quantum brain”, ou “quantum consciousness”, de que os neurónios do cérebro funcionam com base em fenómenos quânticos. O que será que isso quer dizer, perante certas interpretações da física quântica, de que tudo está interligado? Talvez seja isso a natureza de Deus? Talvez possamos atingir estados de coerência divina, mas isso de nada possa valher contra um furacão, porque a coerência não é suficiente?
Seja como for, acho importante questionar narrativas religiosas, sendo que temos uma enorme propensão para abusar delas e cometer atrocidades em Seu nome.
Olá João. Acho que o questionamento é a palavra-chave aqui. Na dúvida vou procurando não as respostas mas sim mais perguntas. Demorei bastante tempo até perceber isto. Um abraço
Gostei muito desta carta. Não sou religiosa mas a minha relação com a catequese (isto é, a única vez que lá pus os pés) também foi porque de repente estavam todos os meus colegas a ir e eu não queria ficar de fora. A minha mãe lá me levou mas bastou um dia para perceber que não queria mais. Achei uma seca. Mas não me lembro de muito mais. E nunca tive uma relação com Deus. Os meus pais não iam à Igreja e nunca os vi rezar (embora o meu pai diga que acredita em Deus). Sempre achei estranho existir um Deus e o mundo ser um caixote do lixo a arder. Mas acredito em algo superior, nomeadamente a natureza, que é tão perfeita, e se constrói e destrói à medida que é preciso.
Adorei o exemplo do caixote do lixo a arder. Esse Deus da Bíblia também nunca me convenceu, precisamente pela existência de tamanho sofrimento no mundo. A minha construção mental, ou a história que conto a mim mesmo, sobre o divino passa muito por um conceito de todo, cósmico, uma teia de energia (quase como uma rede de micélio). A natureza faz parte desta minha concepção, pela sua capacidade de criação, destruição e regeneração.
Essa ideia cósmica, como uma rede de micélio, parece-me mais perto daquilo em que também acredito
Sentem-se várias das emoções do texto quase a gritarem para fora do ecrã.
Felizmente não sei ainda o que é perder os pais (espero que ainda demore mais uns anos); a minha mãe sempre foi ligada à igreja, chegou a ser catequista, como é óbvio fiz o crisma e até cheguei a cantar no coro por uns anos (mas aí era música, por isso tudo certo 😄), fui oscilando na minha fé, não posso dizer que tenho uma religião em particular… acredito em algo, uma energia talvez.
Quando uma grande amiga da minha mãe morreu demasiado cedo com cancro, a fé da minha mãe mudou e ela afastou-se da igreja; um pouco como dizes, não conseguia perceber como Deus poderia levar aquela pessoa tão cedo e com tanta dor.
É difícil de aceitar.
Gosto muito do Siddhartha, já li várias vezes e o livrinho que tenho é bem antigo e de páginas gastas. Um dos poucos livros que a minha mãe comprou em solteira 🙂
Um belíssimo livro, mesmo. De tempos a tempos, leio-o novamente. Ainda bem que gostaste do texto!
Se um dia quiser apresentar a alguém um texto sobre aquilo que realmente é o questionamento da crença, os espaços ambíguos e cinzento que existem entre não acreditar em Deus, ou num Cristo, e não acreditar em nada, mostrarei o teu. Acho que uma das coisas mais importantes que a idade que me trouxe (e a alguma experiência, embora não tanta como a tua, que te trouxe essa sabedoria toda) foi deixar de ser algo snob e hipócrita no que diz respeito àqueles que categorizava como “crentes” e metia todos no mesmo saco. Deixar esse desprezo e, até certo ponto, esse manto de superioridade que eu atirava para cima das crenças e fés dos outros abriu espaço para perceber que tem tudo muito a ver com as perguntas do que com as respostas. E talvez haja alguma tranquilidade e paz que vem com isso. Acho que aceito um mundo onde Deus exista e essas dúvidas também. Elas tornam-nO mais humano (paradoxalmente) e falível, e portanto também mais próximo daquilo que, tendo de imaginar uma figura, imaginaria. Também não sou religiosa, embora tenha crescido a ir à catequese – no entanto (e aqui talvez também esteja o segredo), com uma catequista incrível, jovem, que conduzia lições onde todos questionavam e, até, onde havia espaço para não acreditar. Tal contribuiu para guardar com algum carinho essas memórias de dez anos de catequese, e encontrar algum conforto inegável, mesmo enquanto uma ateia/agnóstica (ainda a definir) nessas lembranças. A concepção da tua relação com Deus como uma eterna procura por colo e acolhimento emocionou-me muito. Faz tudo parecer muito mais bonito, simples, e orgânico afinal. Se tirarmos a igreja, as instituições, tudo o resto que tolda a visão, fica talvez só isso. Isso e aquela prece ainda meia infantil – como quando pedíamos algo debaixo dos cobertores, de lágrimas nos olhos, quando esgotadas todas as hipóteses só nos restava rezar, como alguém tinha dito que resultava, mesmo que nos sentissemos hipócritas por só nos lembramos Dele quando precisávamos -, de que talvez eles e Ele tenham razão, e ainda nos encontremos no lado de lá com os que já foram. Seria o melhor remédio contra o meu ateísmo/agnosticismo; deem-me essa certeza e eu aceito o que for preciso. Adorei o texto, João, está mesmo incrível. Muitos parabéns.
Hesitei muito se publicava ou não está crónica. As crenças têm uma dimensão única e subjetiva, não é? Revi-me na tuas palavras: também fui snob e com a mania que era superior e melhor que os crentes. Vestia-me a preceito achando-me o Anticristo pronto para apontar o dedo à fragilidade de quem acreditava. Crescer, independentemente da experiência, ensinou-me que todos padecemos dessa fragilidade, de uma forma ou outra. Tornado o episódio da bolacha sem sal no texto descrito, não tive experiência com catequese. Mas fico feliz que a tua tenha sido positiva. Eu cá continuarei com a ocasional prece infantil que tão bem descreveste. E com uma incapacidade crónica de aceitar o elogio que fazes e ficar, ao mesmo tempo, muito grato por ele.
Consigo imaginar que sim, que não tenha sido fácil decidir publicá-la. Mas fico muito feliz que o tenhas feito. Entendo totalmente o que dizes – embora não tenha chegado a envergar a figura do Anticristo (mas admiro a tua dedicação) e me tenha ficado por uma adolescência gótica e com um gostinho em nutrir um lado dark. Mas a conclusão a que acabámos por chegar é a mesma: todos temos essa fragilidade, só acabamos por convocar palavras e crenças diferentes. Apesar da minha experiência positiva – que sem dúvida agradeço, porque pelo menos não me traumatizou – o que ficou também foi essa prece a que recorro também quando me sinto mais pequenina, mais criança, como falámos. Quanto à incapacidade crónica de aceitar os elogios, vamos fazendo como com o resto, e tentando aos pouquinhos. Eu vou continuar a deixá-los e um dia talvez os aceites melhor 🙂