Reflexões de um Regresso.
Olá,
Escrevo-vos com um estado de espírito bem diferente dos últimos textos. A semana que passou foi extenuante: já não me lembrava do que era estar em modo praia e piscina com uma criança de dois anos movida a energia de fissão nuclear inesgotável. E uma de sete anos cuja paixão pela água é igual à minha: frenética e fisicamente exigente. Mas foram férias; um privilégio pelo qual estou imensamente grato e que permitiu espaço para a minha mente respirar. A quebra de rotina, os dias despreocupados, as leituras nas sestas e o final do dia revigoraram-me. Tive tempo para pensar, para idealizar, para definir intenções e pensar como agir para me alinhar com elas. Preciso muito deste espaço e leveza para perceber o que mudar nos meus padrões. Além disso, é nesta abertura que a minha cabeça fervilha com ideias, ambições e projetos. Faltava-me isto há demasiado tempo. Ainda carrego a exaustão dos primeiros meses do ano. Aos poucos, sinto-me a regressar à base – a homeostase que o nosso organismo tanto procura.
Venho com ideias para o meu celibato digital de Agosto. Novos caminhos e cara lavada para estas crónicas semanais que em Setembro fazem dois anos. Descoser-me-ei a seu tempo. Regresso com intenções para o que quero fazer como pai, companheiro, filho, amigo, colega. Como criativo e concidadão. A rotina rouba-me o espaço para pensar e refletir. A disputa pela minha atenção também; dividida entre ecrãs de vários tamanhos, responsabilidades, preocupações. Reparei que o tempo, vivido em consciência, contém inúmeros espaços para pensar, sentir e sonhar. Porque sonhar, na sua versão acordada e consciente, acaba por ser o que nos move.
O sonho comanda a vida – António Gedeão, Pedra Filosofal
Tem-me sabido pela vida enfiar a cabeça em livros. Nunca li tanto noutro momento da vida. Tenho sentido a necessidade, quase fisiológica, de procurar respostas às perguntas que me assolam. É a minha forma de me alienar, quiçá. Não encontro nenhuma resposta, apenas paz nas novas perguntas que vou formulando. Compreendo melhor a inquietação de que o José Mário Branco falava; está cá dentro, a tal coisa que está para acontecer, que devia perceber, que tenho que fazer, que devia resolver. Hoje percebo porque é que essa coisa é linda. Na aceitação da dúvida permanente, na ausência de certezas, encontrei a liberdade para pensar. De forma livre e diferente a cada dia que passa. E estes dias de descanso permitiram-me viver essa liberdade. Que privilégio.
Voltei e o mundo continua de pantanas. Talvez até pior do que quando parti: com novos focos de guerra, mais morte e sofrimento de inocentes a mando de mais uma classe privilegiada. Legitimada pela inércia e apatia generalizadas das massas. Eu sei, faço parte delas, também estou no conforto deste canto à beira-mar plantado, longe das bombas e das balas que abafam os gritos e os choros. Sou absorvido pelos ciclos laborais, escolares, familiares. Sou como todos os Portugueses: temos as nossas intolerâncias ignorantes, os nossos brandos costumes que embalam a reivindicação e a vontade de agir. Mas posso escolher começar de novo. Perceber que estamos num momento em que é preciso agir em conformidade com as nossas crenças. Aceitar que é preciso abdicar do nosso conforto para abrir espaço a ações consequentes. Coerentes com aquilo em que acreditamos. Criar espaço e tempo para dar às nossas comunidades e causas. Ter consciência do que consumimos, a quem escolhemos dar o nosso dinheiro, qual o preço que pagamos pelo caminho mais cómodo e mais fácil. Perceber que o mundo pelo qual lutamos é também o mundo que vamos deixar aos nossos filhos e que o que escolhemos fazer é exemplo para eles. Para outros. Para todos os que estiverem dispostos a ver. Não estou sozinho nesta crença.
O que parece incomodamente claro, desde já, é a força de certos processos, aparentemente incontroláveis, que tendem a destruir todas as esperanças de evolução constitucional nos novos países e a minar as instituições republicanas dos países mais velhos. Os exemplos são numerosos demais para permitirem uma enumeração mesmo sucinta, mas a intromissão do «governo invisível» de serviços secretos nos assuntos domésticos, nos sectores culturais, educacionais e económicos da vida, é um sinal por demais ominoso para passar despercebido. – Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, prefácio de Julho de 1967, página XXV.
Uma das primeiras conversas que tive neste regresso ao trabalho, foi precisamente sobre como há um desígnio que empurra a humanidade para viver num individualismo exacerbado. A Hannah Arendt é disto que fala: as estruturas de poder, de informação e de cultura estão organizadas dessa forma promíscua e funesta. A autora não teve a noção do impacto do que escreveu e a dimensão que viria a atingir cinquenta anos depois da sua morte; mas já se percebia, então, que havia uma intenção no controlo estrutural da sociedade. As consequências estão à vista. Basta de “não passarão”, já passaram, como escreveu . Constroem-se narrativas que em nada correspondem à verdade nesta Era da Mentira. Basta uma cidadania informada para desmontar falácias, inverdades e fábulas que apenas servem interesses. É preciso destrinçar o que nos rodeia, mas temo que tenhamos sido despojados das ferramentas necessárias, a começar pela capacidade de pensarmos pela própria cabeça.
Como escreveu, em 1979, Audre Lorde, “negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta” (como ela própria se descrevia), “the master’s tools will never dismantle the master’s house” (ou seja, “as ferramentas do mestre nunca irão desmantelar a sua própria casa”). Sendo assim, só existem duas opções: ou destruímos a casa, ou usamos novas ferramentas.” Ricardo Esteves Ribeiro, newsletter do Fumaça.
Às vezes sinto-me uma cassete estragada, a repetir reflexões ad nauseum. Mas sinto que cada reflexão, cada referência, acaba por contribuir para um melhor entendimento do que me rodeia e do que posso fazer. Não é só a profunda injustiça e desigualdade deste sistema social considerado um mal menor, nem a revolta perante a barbárie constante contra uma maioria de inocentes – mártires criados por cúpulas de poder no processo de manutenção e perpetuação do privilégio. É perceber que a civilização que os meus filhos vão herdar está longe do caminho para um mundo melhor. Será um mundo pior do que aquele me viu crescer. Com menos dinheiro, menos liberdade, mais medo, mais morte, mais violência. Que os valores que prezamos como importantes na nossa família – a vida digna, a honestidade e transparência, a igualdade – podem vir a colocar-nos em perigo. Tornar os meus filhos em alvos fáceis num mundo cada vez mais cão, cada vez mais aberto à evisceração da humanidade que a intolerância alimenta. Sou filho de um homem da velha guarda do Partido Comunista Português. Militei no Partido quando era mais novo. Hoje estou em total desacordo com o marxismo-leninismo, o centralismo “democrático” e recuso-me a ignorar a tragédia totalitária que todos os projetos comunistas provocaram. Cresci a ouvir as histórias da luta clandestina, da importância do secretismo e compreendo a importância do PCP na luta e resistência antifascista. Em adolescente, tomei por garantidas as liberdades conquistadas em Abril. Nunca tive medo de me posicionar politicamente, nunca temi represálias, sempre pude expressar-me sem pudor. Fazia-me espécie o medo incutido nas gerações mais velhas de falar abertamente de política, de ideias, com medo do rótulo. Como se a PIDE ainda estivesse ao virar da esquina, pronta a bater à porta e castigar os perigosos divergentes e pensadores livres. Sabia as origens do trauma. No ano passado, ao ler a biografia da Maria Teresa Horta que a Patrícia Reis escreveu, senti um aperto na garganta ao imaginar que a poetisa “ainda agora acorda sobressaltada, acreditando que lhe estão a bater à porta”:
Uma madrugada, pelas seis da manhã, ouviu pancadas na porta, um alarido imenso. Era a PIDE e queria entrar. O coração quase lhe saltou do peito e uma voz disse-lhe: «Polícia Internacional e de Defesa do Estado, abra a porta.» Teresa assim fez e de imediato se viu empurrada contra a parede, as mãos de um homem a apertarem-lhe a garganta. Patrícia Reis, A Desobediente, p. 151
Compreendia que quem viveu esse tempo ainda tinha a memória muscular do medo. Da cautela das ações porque as represálias ditatoriais doíam. Matavam. Mas nasci mais de onze anos depois da revolução dos cravos e estas perseguições pertenciam ao domínio da história, do passado distante que seguramente não regressaria. Tínhamos feito a revolução, celebrado e praticado a liberdade. Não voltaríamos atrás, pensava eu. Mas voltámos. Hoje, mais que nunca, é importante organizarmo-nos. Debatermos e conversarmos com as pessoas, tomar as rédeas da transformação que queremos ver no mundo. Venho de cabeça mais leve. Espero que ajude à mudança que quero ver em mim e, depois, no mundo.
Abraço-vos,
João
Ainda não sei lidar com isto: fui entrevistado pela para a newsletter em inglês dela, a Binge-Read. Para além disso tive direito a ilustrações todas catitas feitas a partir de algumas fotos que lhe mandei. Gostei muito de responder ao questionário que dá a conhecer o leitor que há em mim, bem como o aspirante a escritor que talvez um dia saia cá para fora. Não é algo a que esteja habituado, mas fiquei muito contente de ter tido esta oportunidade. O formato também ajuda: tive direito a uma introdução espetacular e a estrutura desta rubrica, a Shelfie, acaba por criar uma micro-narrativa que dá a conhecer os leitores.
Gosto muito da metáfora dos livros como uma garrafas de vinho. Vamos adquirindo exemplares e deixamo-los nas estantes até chegar a altura certa de os abrir. Há um livro para cada momento. O último que resolvi abrir foi o “Desobediência Civil” do Thoreau. Já cá estava há um par de anos, numa daquelas compras que senti que devia fazer. Sabia que a obra tinha sido seminal no pensamento do Martin Luther King e de Ghandhi. Fui inspirado por um episódio do Everyday Anarchism sobre esta obra e a análise que se seguiu da Hannah Arendt. Resolvi ler e pequeno tratado sobre a recusa de seguir as normas e leis de um estado com o qual não nos identificamos ou consideramos que não se coaduna com os nossos valores. Adorei. Primeiro, percebi a importância deste texto para o pensamento anarquista de recusa de um estado. Depois, relembrou-me da importância de colocar em causa as normas e vigências sociais e estatais, que demasiadas vezes são anacrónicas, injustas e imorais. É daqueles livros que deviam fazer parte do currículo escolar no secundário, porque estimulam o questionamento numa altura em que demasiadas respostas erradas escondem a falta de perguntas.
Vou terminar com o novo álbum da Garota Não. O já fez o obséquio de prosar sobre ele de forma irrepreensível. Pouco mais tenho a acrescentar a não ser que ouvir este álbum fez-me voltar a ter alguma esperança na canção de intervenção. O “2 de Abril” já anunciava a politização musical, mas este Ferry Gold vem colmatar o espaço vazio deixado pelo Zeca, pelo Sérgio Godinho, pelo José Mário Branco. É bom escutar a indignação e crítica social em boas canções, atuais, sobre os problemas que nos tocam. A cultura é precisa nestas alturas. O mundo precisa mesmo de mais poetas.
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Gostei muito desta reflexão; também tenho feito as minhas recentemente.
Sobre a entrevista para a Shelfie, obrigada mais uma vez por aceitares o desafio. E fico muito feliz que tenhas gostado das ilustrações! Se tiveres uma fotografia gira destas férias com a família, envia que eu ofereço mais uma!
Também tenho ouvido o álbum de A Garota Não. Ainda ontem ouvi o Ferry Gold duas vezes seguidas.
Obrigado Raquel, pelas palavras e oferta! Realmente, o disco da Garota Não está qualquer coisa.