Skip to content
  • Início
  • Sobre Mim
  • Substack

Copyright A Balbúrdia 2026 | Theme by ThemeinProgress | Proudly powered by WordPress

A Balbúrdia
  • Início
  • Sobre Mim
  • Substack
Originais do Substack Article

Ainda tenho medo do escuro.

On Fevereiro 16, 2024porJoão Azevedo

Acolher fobias é uma forma de amor.

Olá,

Eu ainda tenho medo do escuro. O nome técnico é nictofobia.

Continuo a sentir um desconforto imenso quando não consigo ver quase nada, cego pela escuridão. E vejo ainda menos que o comum mortal, com a minha ambliopia, hipermetropia e astigmatismo. Desde pequeno que é assim: a cegueira e o medo do escuro. Tenho memórias de ser criança – seis ou sete anos – e acordar na minha cama. Sentir o peso da noite no meu quarto, o silêncio ensurdecedor. A minha batida cardíaca aumentava exponencialmente e sentia o coração no cimo do tórax, como se estivesse a bater ao lado, ou em cima, da minha maçã de Adão. A palmas das mãos começavam a suar e a minha respiração ficava mais intensa, a roçar o desesperado. Nisto, magicava mentalmente os perigos e monstruosidades que me aguardavam na penumbra da noite. Ia reunindo pedaços pequenos de coragem até conseguir ter força para me levantar e ir a correr para a cama dos meus pais. Nessa curta viagem, sentia-me perseguido pelo mal personificado e só estaria a salvo quando saltasse para o meio dos meus pais, protegido pelo corpo de ambos. Nesse momento, sentia-me seguro, calmo e em paz. Adormecia.

Com a melhor das intenções, fui ouvindo dos meus pais e família que o escuro não tem nada de mal, que não valia a pena ter medo, que lá em casa só vivíamos nós. Pois, certo. Mas os medos são incontroláveis e irracionais. Eu precisava de me sentir validado nos meus medos. Acolhido, porque é normal uma criança ter medo, do que quer que seja. Mas acabei por me sentir insuficiente por não conseguir lidar com eles. Daí a importância na forma como comunicamos com as crianças: as palavras e crenças que lhes transmitimos podem ter consequências menos boas.

Mesmo crescido continuei com este medo terrível do escuro. Nos acampamentos com os escuteiros, em festivais de verão. Estar só e no escuro sempre foi aterrador para mim. Escusado será dizer que recusei a totalidade dos convites de passeios noturnos na Serra de Sintra. E atenção, tenho plena consciência que, à partida, não existem monstros e entidades aterradoras à espera de me magoar ou matar e que este medo é um mecanismo evolutivo. Fomos biologicamente desenhados para temer o escuro pois dentro dele poderão estar predadores. E hoje em dia consigo suportar o escuro. Consigo ser funcional e racionalizar a fisiologia do desconforto de estar no escuro. Que remédio, quando muitas vezes preciso de me deslocar no escuro, seja para ir à casa de banho, ou para ajudar algum dos meus filhos que me chamam a meio da noite.

Lá em casa, resolvi ser honesto sobre isto, principalmente quando ouço o A a dizer que tem muito medo do escuro. Sei que é um medo normal nas crianças e eu respondo-lhe que também tinha muito medo, e ainda tenho algum. Tento acolher, abraçar e validar o que ele sente em relação ao medo. A biologia dele também o faz temer e paralisar com o escuro. O córtex pré-frontal ainda não tem a maturidade necessária para ele poder intelectualizar que, se calhar, algumas das reações fisiológicas poderão ser exageradas.

No último fim de semana vi com o A o filme Orion e o Escuro, na Netflix. Bom, o A já o tinha visto mas só fiquei interessado em ver depois de perceber que tinha sido escrito pelo Charlie Kaufman (que escreveu um dos meus filmes preferidos, O Despertar da Mente). Ora toca de organizar sessão de cinema lá em casa, pipocas e tudo, e ver o filme. Nos próximos parágrafos vou falar um pouco sobre o filme e revelar alguns aspetos narrativos. Se não querem que vos revele nada de importante, saltem esta parte ou deixem-na em pausa até verem.

SPOILER ALERT

O filme tem uma abordagem muito interessante quando personifica a escuridão da noite numa personagem chamada Escuro. Orion, um rapaz cheio de medos e fobias diversas, mas principalmente com o escuro, todas as noites maldiz o escuro. Verbaliza a frustração com o seu medo. Até que o Escuro, triste e magoado, resolve interagir com Orion e provar-lhe o contrário, que não há razões para ter medo do Escuro, que ele é importante. E que a escuridão também tem sentimentos e o nosso medo dela é, de certa forma, discriminatório. A história desenrola-se com as insinuações típicas do Kaufman, no seu estilo narrativo muito próprio que estampa muito de si em cada linha do guião: narrativas construídas em tempo real, sobre si mesmas e mudanças abruptas na linearidade – aos 18 minutos é que percebemos que a narrativa é, afinal, uma história de adormecer, por exemplo.

Apesar de se munir de algumas receitas narrativas já conhecidas e até pedir emprestado alguns conceitos (as emoções do Divertidamente podem ser facilmente comparadas com os elementos da noite deste filme), achei o filme bem conseguido do ponto de vista pedagógico. Ele acaba por antropomorfizar um medo e, no processo, cria uma empatia com algo desconfortável. E ensina uma lição importante de se aprender e relembrar com qualquer idade: só porque desconhecemos, não devemos temer.

FIM DE SPOILER

O desconhecido é aterrador e, diria até, um dos receios mais comuns da humanidade. E os receios, nas sociedades ocidentais dos nossos dias, são terreno fácil para a manipulação, que se alimenta destas inseguranças para levar as suas agendas avante. Penso na quantidade de vezes que não agi com medo de algo: de rejeição, humilhação, da incerteza, da perda. Continuamos a ser uma espécie capaz de se habituar ao desconforto e preferir a segurança do que conhecemos a enfrentar o desconhecido. Quantas vidas não cumpriram com o seu potencial por causa de medos?

Quando mostrei a primeira versão desta crónica à Sofia, ela escreveu-me:

-Sabes porque é que não devemos ridicularizar medos? Porque em adultos, quando a nossa intuição diz que estamos perante um perigo, ignoramos essa intuição “porque é ridículo”.

Nunca é ridículo ouvirmos o nosso corpo e intuir sobre a informação que perceciona. Podemos sentir medo e ele ser infundado. Ou podemos temer algo verdadeiro e bem real. Em ambos os casos devemos refletir sobre o que estamos a sentir e agir em conformidade.

O medo, sendo uma emoção, deve ser acolhido. Eu sei que muitas vezes ficamos incomodados com os desconfortos do nossos filhos e despejamos palavras para racionalizar e amenizar o melhor que conseguimos. Mas é importante darmos espaço e colo para as emoções. Validar o que sentem, de modo a poderem processar, integrar e, quiçá, chegarem a adultos com medo e mecanismos para lidarem com ele de forma saudável. E é bom encontrarmos conteúdos infantis com capacidade de nos fazer refletir e que incentivam a fazermos diferente.

Abraço-vos,

João

P.S. Esta semana já têm uma recomendação de filme para verem – tenham ou não crianças.

Gostava de vos deixar um artigo do Ryan Holiday que me chegou através da newsletter dele. Está publicado no The Free Press através de acesso pago, mas ele disponibilizou-o no corpo no e-mail. Eu criei um documento de texto com a transcrição para que possam ler. Fala sobre proteger as nossas famílias dos algoritmos e da abordagem dele. Deu-me que pensar e gostava de partilhar convosco.

Esta crónica foi escrita a ouvir o mais recente disco do Sven Wunder, Late Again. Um jazz atmosférico que assenta muito bem no ritmo das minhas manhãs.

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

#weeknotes 1

De Cabeça Leve Num Mundo Pesado.

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Arquivo

  • Abril 2026
  • Março 2026
  • Fevereiro 2026
  • Janeiro 2026
  • Dezembro 2025
  • Novembro 2025
  • Outubro 2025
  • Setembro 2025
  • Agosto 2025
  • Julho 2025
  • Junho 2025
  • Maio 2025
  • Abril 2025
  • Março 2025
  • Fevereiro 2025
  • Janeiro 2025
  • Dezembro 2024
  • Novembro 2024
  • Outubro 2024
  • Setembro 2024
  • Agosto 2024
  • Julho 2024
  • Junho 2024
  • Maio 2024
  • Abril 2024
  • Março 2024
  • Fevereiro 2024
  • Janeiro 2024
  • Dezembro 2023
  • Novembro 2023

Calendar

Abril 2026
S T Q Q S S D
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
« Mar    

Categorias

  • Assim não
  • Crónicas
  • Da Balbúrdia
  • Diário de um código
  • Notas da Semana
  • Originais do Substack

Copyright A Balbúrdia 2026 | Theme by ThemeinProgress | Proudly powered by WordPress