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Arroz doce, honestidades sem segredos e igual valor.

On Janeiro 12, 2024porJoão Azevedo

Olá,

No último dia do ano decidi fazer a receita de arroz doce do nosso robot de cozinha. Precisava de um sous chef tão guloso quanto eu e convoquei o meu filho mais velho para a tarefa. Percebendo que se tratava de uma sobremesa e envolvia açúcar, foi uma negociação fácil. Não é preciso grande ciência com esta receita: é seguir as indicações, quantidades e pesos e, etapa a etapa, vamos completando a missão. Quando chegámos à parte de adicionar açúcar eu disse: “vamos pôr uma colher extra, não digas nada à mãe”. O tom foi de brincadeira e cumplicidade, ambos rimos e lá seguimos com o nosso esquema guloso. O arroz doce foi feito, posto na travessa a arrefecer e fiquei com um sentimento de missão cumprida (fui abandonado pouco depois da etapa do açúcar quando se percebeu que teríamos que ficar 40 minutos a olhar para o robot a mexer os ingredientes). Curiosidade extra: quando provou, não gostou da textura.

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white ceramic bowl on white table

Foi um momento bonito de conexão, de partilha, de cumplicidade. Nem sempre o consigo convencer a ajudar-me na cozinha, mas quando alinha acabamos sempre por passar um bom bocado. Pouco tempo depois, na primeira interceção que teve com a Mãe, prontamente delatou-me: “Mãe, o pai pôs mais açúcar no arroz doce e disse para não dizer nada à mãe. Mas nesta casa não há segredos!”. Disse isto tudo a rir-se, divertido, confortável por poder dizer o que pensa e corrigir um comportamento menos correto da minha parte. A mim caiu-me a ficha. Fiz algo que acho condenável sem ter qualquer noção que o tinha feito: pedi um segredo sobre algo.

Vamos por partes, como diria Jack, o Estripador. Eu e a Sofia tentamos explicar o direito à privacidade desde muito cedo. Ensinamos que cada um de nós tem a soberania para escolher o que partilha, revela e pensa. Reconhecemos o direito a ter o mais precioso reduto de liberdade respeitado: a nossa mente. Fomentamos uma transparência radical e honestidade em relação aos atos que praticamos. E, com muita dificuldade da minha parte, confesso, tentamos implementar no nosso dia-a-dia o igual-valor entre todos nós. Temos todos o mesmo direito ao reconhecimento das nossas necessidades, pensamentos e emoções e acolhemos de forma igual a sua expressão, independentemente da idade. Nem sempre é fácil aplicar: vivemos numa sociedade que tende a hierarquizar tudo e tornar as crianças seres inferiores, com menos validade e peso intelectual. Curiosamente, é através deste desnível no trato com as crianças que encontramos o espaço para se tentar, erradamente, justificar a palmada ocasional, a punição, o castigo. Quando foi a última vez que achámos natural praticar qualquer uma destas ações com uma pessoa adulta? Obviamente que não estamos a falar de anarco-sindicalismo aplicado ao lar e impomos limites educacionais e formativos para salvaguardar a integridade física e emocional dos nossos filhos. Há uma diferença entre desresponsabilização e respeito pela integridade. O que isto significa, na prática: escutar os relatos de como o dia correu às crianças da mesma forma que ouvimos os nossos companheiros, amigos e familiares. Ouvir e acolher a expressão das suas emoções, o que sentem e como sentem. As histórias e eventos que acharam interessantes. De forma igual. Tal como faríamos com um adulto.

Definindo e reforçando o direito à privacidade – não insistindo quando não querem falar sobre algo, por exemplo – defendemos a máxima de não guardar segredos entre nós. Assim há total transparência na relações entre os vários membros do núcleo familiar. Salvaguardamos, claro, os assuntos e temáticas que possam requerer uma maior maturidade para outros estágios de desenvolvimento. Uma vez mais, isto não é uma fórmula rígida: se há algo que nos preocupa enquanto encarregados de educação vamos perscrutando ao longo de várias tentativas a opinião da criança e o que sente em relação a determinados assuntos. Tentando, respeitosamente, acolher, compreender e, se for preciso, ajudar com qualquer questão que surja. Como faríamos com qualquer adulto que quiséssemos ajudar mas estivesse relutante em falar sobre o assunto. Igual valor.

yellow family sign

Vi este conceito definido e explicado pela primeira vez no livro da Mikaela Övén, o Educar com Mindfulness. Não me era totalmente nova esta ideia mas foi um daqueles momentos em que alguém conseguiu encapsular um conceito apreendido por intuição numa definição que ressoou comigo. A Mia explica muito bem como este conceito é importante no desenvolvimento de capacidades relacionais da criança e como este tipo de respeito deveria ser a norma no mundo em que vivemos. Queremos uma criança cujas interações enquanto adulta seja pautadas pelo respeito mútuo, consciência das suas capacidades e valor próprio. Este trabalho consegue-se sobretudo nos anos formativos e é cimentado até à idade adulta. Muitas vezes é preciso – no meu caso foi – uma desconstrução de padrões e valores educacionais encastrados na personalidade dos pais ou cuidadores. Porque este tipo de abordagem não é comum. Precisa de esforço, trabalho e consistência num mundo que prefere imediatismos e pensos rápidos para as situações.

De forma inocente e imponderada, pedi ao meu filho um segredo sobre algo. E fui prontamente corrigido. Pois já tem a noção de que é errado. Porque o pressuposto é perigoso – a normalização dos segredos pode vir a ter graves consequências no futuro, principalmente em ter abertura e à vontade para pedir ajuda ou intervenção sobre algo que percecionamos como errado. Pedimos aos avós, tios, primos e amigos que não o fizessem, desde pequenos. Porque é importante que o porto de abrigo e amor que tentamos construir na nossa casa acolha sempre qualquer aflição. Que nunca ninguém torne segredo algo que os torna desconfortáveis. Que sempre se comuniquem as emoções e necessidades, seja desconfortável ou difícil. A honestidade existe quando há conforto e confiança. É preciso saber que podemos falar de tudo sem medo de julgamentos, críticas e, mais importância, castigos. Óbvio que temos de evidenciar que existem consequências para os nossos atos, mas normalmente quando fazemos algo errado, as consequências acontecem naturalmente e não precisamos de reforçar a ideia com mais sofrimento e/ou opressão. Nestes casos, a punição, parece-me uma redundância.

Já menti algumas vezes. A mim mesmo, aos meus pais, amigos, família. Sempre que o fiz foi com medo de não ser aceite, de ser julgado ou de sentir que o meu comportamento não seria suficiente – ou correto – para ser aceite. Então criei uma narrativa que não corresponde à realidade. O medo da rejeição é visceral no ser humano: leva-nos a tomar decisões menos acertadas. Sempre que menti, fiquei a perder. Troquei a minha integridade emocional por algo. Nós mentimos – consciente ou inconscientemente – como uma forma de fé numa história. Ela pode corresponder à verdade/realidade ou não. Quando temos consciência que não corresponde, mentimos deliberadamente. Quando estamos completamente alheados da realidade e cremos numa narrativa que é falsa, mentimos sem ter a noção que mentimos. E o mundo vai vivendo neste díptico, pontualmente assaltado por laivos de honestidade. Yuvel Harari assenta muito do seu trabalho e teoria de evolução social humana na capacidade de elaborar, contar e acreditar em histórias. Na mais recente conversa com o Lex Friedman, ele volta a afirmar que a humanidade é a única espécie capaz de criar conflito – e confronto – por causa de histórias. Mas também nos distinguimos de outras espécies de Homem (neandertais, sapiens) precisamente pela nossa capacidade de criar comunidades numa grande escala. Milhares – centenas de milhares – de indivíduos conectados e socializados a colaborar, entre povoações distantes. Esta organização social, bem como a própria cultura, assentam no contar de histórias. Nesta experiência narrativa partilhada, criámos o que hoje conhecemos como Humanidade. As leis são histórias, as religiões são compêndios de histórias, a ciência teoriza histórias e criamos histórias para a provar. O dinheiro é uma história: todos acreditamos que determinada moeda tem determinado valor para adquirir determinado bem. Por isso é-nos fácil mentir: dada a nossa facilidade em contar histórias e acreditar nelas, tentamos partilhar a nossa vivência através da construção de narrativas. Algumas delas podem ser fabulações deliberadas que talvez sirvam um propósito: um possível benefício, uma perceção de melhoria na experiência de viver. Outras são conceções mentais que não correspondem à realidade mas que, pesando a nossa socialização e passado emocional, nos parecem tão criveis que as tomamos como verdadeiras. É assim que iludimos e vivemos iludidos. Permitam-me uma controvérsia: a fé é o perfeito exemplo disto. Tomamos uma crença, uma perceção, um conceito – que não temos como o provar – como verdadeiro. Cremos na narrativa. Não estou a criticar a crença religiosa. Apesar de não ter fé professada em nenhuma das grandes religiões monoteístas ocidentais, sou uma pessoa religiosa no sentido etimológico da palavra: procuro uma ligação com o divino, sinto que há algo superior e que nos interliga a tudo no Universo. Mas não consigo definir, quantificar, especificar. Esta é a história que conto a mim mesmo, que neste momento creio e, não tendo como a provar, sei que pode ser mentira.

Todos mentimos, com maior ou menor naturalidade, conscientes ou inconscientes do facto. Contamos histórias para nos ajudar a comunicar e fazer sentido do que nos rodeia. Há algum relativismo nesta linha de raciocínio, mas interessa-me aqui perceber porque menti sobre o açúcar e porque quero defender a transparência radical em casa. Tudo se resume à necessidade de querer proteger os meus filhos. Porque criando um espaço onde há respeito pelos erros e aceitação total de quem são, talvez não sintam a necessidade de criar histórias. Para, desta forma, protegê-los de comportamentos e atitudes de quem os rodeia, para que possam discernir o que deve ou não deve ser contado e partilhado. Simplificando: se alguém lhes fizer mal quero que sintam que podem sempre falar comigo ou com a Sofia. E isto não se consegue a conversar. Só modelando com o exemplo. Volto sempre ao raciocínio base: não modelamos os nossos filhos. Modelamos quem somos para ser o exemplo para os nossos filhos. Eles aprendem com o que fazemos, e não o que dizemos. E acho que podemos extrapolar para todas as camadas sociais, culturais e políticas e afirmar que as pessoas aprendem, verdadeiramente, com os exemplos. Seja em casa, escolas, empresas, políticas, etc. Por tudo isto, não me senti confortável com a sensação de ter mentido porque quero tentar ser, sempre que possível, um porto de abrigo. E isto, só se consegue com o exemplo, acolhimento e honestidade.

Até para a semana!

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