Olá,
Há uns anos li algures uma declaração do pugilista Mike Tyson que, parafraseando, dizia que as pessoas hoje em dia sentem-se no direito de dizer o que lhes apetece nas redes sociais porque sabem que não vão levar um murro como resposta. Concordo muito com esta máxima que define bem o síndrome dos guerreiros do teclado que, protegidos por ecrãs e anonimato, se sentem no direito de dizer o que seja. Também noto que, talvez por existir o escape virtual, as pessoas evitam os confrontos cara a cara. Há cada vez mais paninhos quentes a serem utilizados nas nossas interações pessoais e é essa hipocrisia que tem vingado na dinâmica relacional. Seja em ambiente familiar, social ou laboral, já assisti a inúmeros exemplos disto posto em prática. Talvez as pessoas se tenham desabituado ao confronto de ideias, aos reparos, correções e conversas que são mais difíceis. Não sei se é a dessensibilização consequente da comunicação online, mas sinto que há uma dificuldade generalizada em assumir confrontos verbais e debate de ideias. Escondemo-nos atrás de supostas injúrias e sensibilidades que nada são mais que interpretações geradas por nós.
Nos últimos anos, consequência de desconstruções feitas em terapia, maior maturidade e um caminho no desenvolvimento pessoal, tenho sido capaz de enfrentar conversas difíceis. De não confundir respeito com subserviência, nem lealdade com submissão. É importante delinear os nossos limites pessoais em todas as circunstâncias e fazer valer a nossa voz na defesa dessas linhas vermelhas. Seja com figuras de autoridade, de superioridade hierárquica, ou com quem nos é mais chegado, é importante sermos assertivos na nossa comunicação. Mas, regra geral, esta assertividade é recebida como desrespeito ou ataque pessoal. É a tal falta de hábito de recebermos pedidos que vão contra a nossa conceção da realidade e/ou situação. Demonstrar por A mais B que certas ações têm um impacto em nós, descrever a emoção que sentimos e exigir que se pare é um direito fundamental. É honesto, transparente e civilizado. Mas muitas vezes os recetores destas mensagens sentem-se injuriados porque é o seu comportamento – as suas ações – que estão a ser postas em causa. Muitos não admitem ser contrariados. Muitas vezes sem perceber quais as verdadeiras consequências para as pessoas direta ou indiretamente afetadas. É normal que assim seja, não podemos calcular mentalmente todos os cenários possíveis e encadeamento de consequências de cada ação que tomamos. Mas podemos, e devemos, estar recetivos a perceber o outro lado. Primeiramente, a ouvir. Depois refletir e reconhecer que é impossível agirmos corretamente em todas as situações e que há determinadas ações, palavras ou comportamentos que podem ser tirados de contexto, inapropriados ou, até mesmo, consequentes.
Não gostamos de ser confrontados e muito menos que nos seja apontado um dedo com uma falha, uma insuficiência. A nossa resposta condicionada é imediata: é como se estivéssemos a ser julgados sob pena de sermos postos fora da tribo e morrer isolados na tundra. Sentimos que a nossa conceção de nós mesmos, da nossa idoneidade, é questionada e ficamos melindrados. É necessária maturidade para podermos parar, respirar e, de forma consciente, acolher o que nos está a ser dito ou demonstrado como um processo comunicacional. Se fugirmos à tentação de pessoalizar este tipo de comunicação, conseguimos de forma consciente dialogar e trocar impressões sobre as nossas ações e sensibilidades. Claro que é fulcral que nas nossas ações tenhamos em consideração os outros e que a empatia seja o catalisador das nossas decisões. Porque é importante perceber de que forma os outros são afetados por nós e, para isso, precisamos de nos colocar na pele deles, acolher e legitimar o que eles estão a sentir.
Ser pai é uma provação tremenda ao nosso ego. Muitas vezes exercemos autoridade sob a tutela da responsabilidade parental, mas o que estamos a fazer é um abuso de poder da nossa superioridade hierárquica – e física – em relação a seres humanos que dependem de nós. Precisamos de trazer consciência – e igual valor – às relações com os nossos filhos, companheiros, familiares, amigos, colegas. Não podemos deixar que os nossos mecanismos para lidar com os nossos traumas e imaturidade emocional resvalem para os processos de comunicação. A parentalidade, dependendo de como escolhemos vivê-la, pode dar-nos ferramentas importantes na forma como comunicamos com os outros.
Confundimos demasiadas vezes assertividade com falta de respeito e isso é apenas reflexo de uma profunda insegurança e condicionamento emocional. É reflexo de vários processos do nosso crescimento e da forma como fomos ensinados a lidar com a crítica e o julgamento. Talvez seja consequência dos valores maniqueístas judaico-cristãos que tanto moldam o mundo ocidental, mas não há dúvida que carregamos esses traumas geracionais. Também me sinto melindrado e muitas vezes incapaz de lidar com chamadas de atenção sobre determinadas coisas, em determinados momentos. Mas tenho feito um esforço consciente por tentar, nestas alturas, perceber o que me está a ser dito e digerir de forma calma. Mais tarde, quase sempre, acabo por reconhecer o erro quando chego a essa conclusão. É preciso o tal processo empático, mas chego lá. Infelizmente, conheço poucas pessoas capazes de reconhecer o erro, a falha. Poucas pessoas com a coragem suficiente de assumir erros ou comportamentos menos dignos. Sentem-se no direito de agir como não agissem ou culpabilização fatores externos, continuamente, pelas suas ações. Esquecem-se que é impossível manter esse comportamento no longo prazo porque a credibilidade esfuma-se.
Desconfio de quem nunca erra e que se desresponsabiliza constantemente. Torna-se difícil aprender nestas premissas. São estas as pessoas que, quando confrontadas, confundem assertividade com falta de respeito porque não estão habituadas a ser contrariadas; e que privilégio é poderem dar-se a esse luxo. Não obstante, o mundo precisa que se debatam ideias e se contrariem pessoas. Espero moldar este exemplo para os meus filhos, permitindo-me ser contrariado e reconhecer os meus erros. De que outra forma poderei aprender e crescer?
Abraço-vos,
João
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A Comunicação Não-Violenta deveria ser ensinada cedo nas escolas. Vivemos num mundo ignorante das suas próprias inúmeras potencialidades e problemas; cegos pelo consumismo e pelas ideias fixas que herdámos dos mecanismos de compensação dos nossos antepassados. Obrigado pelas tuas ideias! Abraço
Sem dúvida que a CNV devia ser ensinada nas escolas. Li há uns anos o livro do Marshall Rosenberg e senti que aquele tipo de comunicação poderia resolver vários problemas no mundo. É um pilar muito importante na Parentalidade Consciente e mindful, porque a comunicação é a base de qualquer tipo de relação. Fico contente que tenhas gostado! Abraço