A injustiça provoca em mim um gatilho emocional visceral.
Sinto me desvalorizado por ela. Que não me dá o respeito e reconhecimento que mereço apenas por existir. E mexe com os mecanismos de adaptação que desenvolvi para ser quem sou hoje.
O que acontece é um autêntico sequestro da amígdala do meu sistema límbico: sinto-me injustiçado e é automaticamente ativado o sistema de resposta de luta ou fuga. Fico assoberbado com a descarga de adrenalina, ritmo cardíaco elevado e a hiperventilar. Sinto-me zangado e frustrado e entro num ciclo de repetição mental sobre o que espoletou tudo isto.
Em certos dias, alguns segundos depois, o meu córtex pré-frontal entra em ação. Consigo ter meta-cognição sobre o que estou a sentir e a tentar racionalizar o que sinto. Nestas alturas, consigo acalmar-me e colocar o que aconteceu em perspetiva. Noutras nem por isso e sou capaz de ficar a ruminar durante vários dias sobre o assunto, voltando a sentir réplicas da descompensação inicial.
O que sempre achei curioso é que, apesar de existirem vários graus de injustiça, a minha resposta biológica e ruminação é sempre igual. Como se estivesse a ser perseguido por um predador faminto. Claro que quando são questões mais simples, o córtex pré-frontal trata do assunto, partindo do princípio que tenho conseguido dormir e descansar, comer bem e feito exercício.
Uma das arenas mais periclitantes é a profissional. As hierarquias de poder e chefia dão azo a muitas injustiças. Porque muitas chamadas de atenção e críticas são apenas formas imaturas de lidar com alguma frustração pessoal ou dificuldade na regulação emocional. O ego também assume um papel interessante, quer no choque com outras pessoas, quer com a noção de valorização sócio-profissional. Acho que é isto que exacerba o sentimento de injustiça: o perceber que terá sido algo completamente externo a quem sou e o que fiz que levou a um comportamento injusto. Uma bela pescadinha de rabo na boca que, em contexto laboral, é muito difícil de gerir quando é perpetuado por quem tem a faca e o queijo na mão. No fundo, perpetua-se o sentimento de impotência perante a situação até se atingir algum tipo de rutura. Mas o exercício do pequeno poder não me deixa de fascinar.
Em minha casa acho que é mais fácil de gerir porque não partimos de uma estrutura hierárquica. Partimos de uma visão de corresponsabilização horizontal (eu e a Sofia) para com os nossos filhos. E nesta abertura permitimo-nos a ter as mesmas reações injustas e imponderadas que outros têm connosco, mas acontecem menos. Porque a dinâmica do poder tenta ser substituída pela consciência e empatia entre todos. E quando nos salta a tampa e temos uma atitude ou comportamento menos digno, somos sempre chamados à atenção sem medo de represálias. E nessa confrontação está o espaço para crescer e evoluir enquanto pessoas. Devíamos olhar para os contextos laborais da mesma forma.
Demoro dias para parar de ruminar. Às vezes, meses depois, lá me lembro do comportamento injusto e volto a sentir na víscera resquícios do desconforto inicial. Vou respirando e trazendo a atenção para o que sinto no corpo e, aos poucos, vou largando a ruminação. É preciso saber colocar limites na maior parte dos casos e deixar claro que sentimos que estão a ser ultrapassados. Evitar as confrontações leva uma estagnação que acaba em putrefação. E porque a nossa complacência é uma forma de escravidão devemos usar a nossa voz como ferramenta de liberdade.
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