A beleza que se encontra no que está partido.
Olá,
Tenho repescado rascunhos e ideias antigas para os últimos textos que aqui escrevi. A minha energia não está nos píncaros, o meu espaço mental anda pela hora da morte e tudo parece que me custa. É normal, eu sei. Estou a sair de vários meses complicados que me drenaram o ânimo. E estou a recuperar, lentamente, e adaptando-me a novas realidades. Esta crónica é a mais fresca dos últimos tempos.
O meu filho mais novo fez dois anos. Dou por mim a pensar como é possível que o tempo passe tão rápido; percebo agora a relatividade de tudo. Ainda há pouco menos de dois anos estávamos em pleno puerpério, exaustos, a adaptar-nos a novas rotinas com dois filhos, um deles recém-nascido, pleno de exigências. E nós a tentar os malabarismos possíveis para acolher este novo ser humano sem descurar o mais velho, que já cá estava, que aceitou muito bem a chegada do irmão, mas cuja natureza da partilha de espaço emocional dos pais também se fez sentir. O amor, de facto, não se divide: multiplica-se. Tem sido uma aventura construir esta família. Há uma sintonia predominante: queremos o melhor para todos, queremos todos ser amados e acolhidos e somos todos diferentes. É um bom exercício essa diferença: permite negociar espaços, tempos, atenção e atividades ao minuto. E leva-se para a vida, para o dia a dia. A paternidade pode ser um curso intensivo de gestão emocional, se estivermos abertos a essa possibilidade.
Pairam sobre nós sombras. O mundo não augura um futuro próspero, nem fácil. A humanidade vai-se perdendo na matança em Gaza, na intolerância para com os outros, no preconceito, na mentira dos políticos, no isolacionismo americano, no egoísmo dos lucros e mercados, na inércia europeia, no totalitarismo chinês, na usurpação em África. A lista é infindável. Em casa sentimos tudo isto, preocupados, apreensivos. Menos esperançosos, por vezes. Um namoro precisa de espaço para respirar, florescer. As rotinas, as crianças e o cansaço acumulado não tornam a tarefa fácil. Todos os casais passam por isto, esta extenuação. Mas tenho orgulho no casal que somos. Como insistimos em tentar olhar o mundo como algo que pode ser sempre melhor, apesar de tudo. Na forma como sabemos gerir as crises emocionais internas, do outro e das crias. Nem sempre da melhor forma, claro, às vezes aos trambolhões, com amuos, incompreensões e incapacidades crónicas de reconhecer a razão, de parte a parte. Mas com humor e amor vamos colando estas microfissuras e tornamo-nos naquelas porcelanas japonesas restauradas com ouro, Kintsugi.

O M. fez dois anos, mas nós fizemos dois anos como pais dele. Celebrámos não só o seu segundo retorno solar, mas também o segundo ano em que somos quatro na família. Em que as doidices dele, os urros de vocalista de banda de hardcore da margem sul, a vontade imensa de dançar e a paixão assolapada pelo irmão mais velho constroem os nossos dias. E que sorte temos em ter tanto amor na nossa casa. Vemos isso no carinho mútuo que vemos neles: nos abraços que dão antes de irem dormir, na segunda bolacha que é exigida para dar ao irmão mais velho, esteja onde estiver. No sorriso constante, feliz, seguro. Tenho aprendido muito com os meus dois filhos. Fazem-me querer ser melhor pessoa e espoletam o que há de melhor em mim. Hoje tenho mais consciência de quem sou graças a eles. A paternidade permite um olhar interno, uma reflexão, uma ponderação, sobre aquilo que fomos, somos e, acima de tudo, queremos ser.
Li há umas semanas um texto da sobre a história da família. Comentei, parafraseando, que a nossa família acarreta o passado dos nossos ascendentes. Carregamos as vivências, os traumas e as personalidades de quem nos precedeu. Lá em casa não somos exceção. Todos os dias lidamos com as particularidades de cada um, herdeiras de traumas geracionais, condicionantes de múltiplos passados que culminaram naquilo que somos em cada dia, cada brincadeira, cada desavença, cada refeição. Tenho orgulho no exemplo que eu e a Sofia tentamos ser para os nossos filhos. Da consciência que temos dos padrões que não queremos repetir, dos que queremos criar. Podíamos fazer mais, mas fazemos o que podemos e conseguimos a cada dia, em cada momento. Não há receitas, nem perfeições nem frases feitas sobre pedagogia. Há amor. Na presença, no respeito, no cuidado, no acolhimento. Há consciência de que, como pais, trazemos como bagagem emocional. Vamos resvalando, aqui e ali, mas navegamos seguindo a estrela que reflete as nossas intenções.
Abraço-vos,
João
Terminei o primeiro dos quatro livros do “Tales From The Earthsea” da Ursula K. Le Guin. Estou siderado como cheguei perto da quarta década de existência sem nunca ter lido nada dela. A construção do mundo está ombro a ombro com o universo de Tolkien. A narrativa muito bem conseguida, sempre com ritmo a cativar a atenção. Só lamento alguma da linguagem, que me parece demasiado arcaica para quem o inglês não é a língua nativa. Algumas das construções frásicas não fluem tão bem, na minha opinião. É certo que está coerente com o universo, mas por várias vezes tive alguma dificuldade em seguir linhas de raciocínio e reli alguns parágrafos. Talvez este fosse um livro que devesse ler traduzido para Português; continuo com a mania de que prefiro ler na língua original, não vão algumas particularidades perder-se na tradução. Vou deixar passar algumas semanas e volto à carga para o segundo livro. A história, até agora, está a valer mesmo a pena.
Corria o ano de 2021. Apareceu-me sem aviso: uma revista literária chamada Mamute. Alguém publicou algo sobre ela numa rede social. Segui a cadeia de ligações até chegar ao momento em que percebi que queria comprar, queria fazer parte, queria apoiar. Comprei. Fiquei a saber que outro tipo de revista é possível, que há espaço para não-ficção literária. Gostei muito dos textos na altura. Podia ir à prateleira buscar o meu exemplar e rever um dos autores, ou dos textos. Prefiro ser honesto e assumir que não me recordo de nada em específico. Mas que fiquei fã do todo. Uma revista que também era um híbrido de livro. A curadoria do Gonçalo Mira é meio (todo) o caminho andado. Na altura não comprei mais exemplares, não sei porquê. Passados uns meses, fiquei a saber que a revista tinha entrado num hiato indefinido. Li o publicação que anunciava o término da publicação, escrita pelo Gonçalo e tive pena. Não dele, mas da cultura, dos autores que iam ficar por publicar. Ficámos mais pobres, culturalmente. Recentemente, soube que a revista voltou. Com novo fôlego, com o Gonçalo, com a Susana Moreira Marques e com a chancela da Zigurate. Tinha tudo para correr bem. Voltei a seguir nova cadeia de ligações e encomendei. Não me arrependi. Já li metade e está simplesmente maravilhosa. Gosto do papel, do formato, dos autores. A curadoria é tudo, outra vez. Recomendo vivamente.
Estas crónicas serão sempre gratuitas. Se gostas de acompanhar o que escrevo e gostavas de me apoiar, podes:
Mandar-me uns trocos para o PayPal
Ajudar-me a vender livros e coisas cá de casa
Fazer uma contribuição única ou recorrente para um café
Para continuares a ler
No comments
Deixe um comentário Cancelar resposta
Arquivo
- Abril 2026
- Março 2026
- Fevereiro 2026
- Janeiro 2026
- Dezembro 2025
- Novembro 2025
- Outubro 2025
- Setembro 2025
- Agosto 2025
- Julho 2025
- Junho 2025
- Maio 2025
- Abril 2025
- Março 2025
- Fevereiro 2025
- Janeiro 2025
- Dezembro 2024
- Novembro 2024
- Outubro 2024
- Setembro 2024
- Agosto 2024
- Julho 2024
- Junho 2024
- Maio 2024
- Abril 2024
- Março 2024
- Fevereiro 2024
- Janeiro 2024
- Dezembro 2023
- Novembro 2023
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | ||
| 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 |
| 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 |
| 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 |
| 27 | 28 | 29 | 30 | |||



Como é bom chegar aqui, recém aderente à plataforma e dar de caras com um texto tão bem escrito! Ainda só tenho uma menina, e se partilho em parte essa perfeição do caos em família, nem quero imaginar a dobrar. Ou melhor, quero e muito. 🙂
Enquanto uns insistem em ler na língua original, outros insistem em escrever na língua inglesa, só por teimosia e nem tanto por jeito. Ahah!
Obrigado, Joanna. Ainda bem que gostaste do texto. E bem vinda!