Olá,
Estou a escrever este início de crónica sentado numa mesa num centro comercial. Jantei cedo e tenho o tabuleiro com o prato e os talheres sujos na mesa. Estou de auscultadores a datilografar estas alinhas enquanto faço tempo para ir assistir a uma conversa da tour IVM do Pedro e da Mia. É raro escrever a esta hora – costumo estar a tratar de tarefas da casa ou a fazer com os miúdos. Desde que comecei a escrever estas crónicas semanais, encontrei um espaço matinal nos transportes que apanho para a cidade para escrever.
Estás últimas semanas têm sido desafiantes, em vários níveis. Sinto que preciso de tempo e espaço para mim. Sinto que a Sofia também precisa de tempo e espaço para ela. Há um grau de exaustão que só descobri quando nasceram os meus filhos. Os poucos anos que já levo como pai têm-me ensinado que é preciso parar e respirar. É preciso existir para além da paternidade e que, só assim, garantimos ter os recursos necessários para estarmos o melhor possível com quem precisa de nós. Sabe-me bem estar aqui sentado a escrever, com tempo para mim, apesar de ser no final de uma semana cansativa. Mas este tempo acarreta culpa e um sentimento de insuficiência. Tenho medo de cair no padrão daqueles que se ausentam de casa apenas para chegar quando todos já dormem; conheci, e conheço, demasiados exemplos de pessoas que se escudam em volumes enormes de trabalho para justificar a sua ausência em casa. Não quero cometer o mesmo erro.
O autocuidado é uma linha ténue. Não se trata de cuidar de nós próprios para podermos cuidar dos outros. Esta linha de pensamento, por mais poética que seja, relega-nos para segundo plano. Camufla um padrão autodestrutivo. Não há altruísmo quando negligenciamos o que precisamos – e somos – em prol dos outros. Devemos cuidar de nós, por nós, para nós. Consequentemente, estaremos em melhor forma para lidar com o mundo e, quiçá, cuidar dos outros. Outra linha ténue: se só olharmos para nós, descuramos uma parte essencial de sermos humanos que é cuidar dos outros. Rapidamente podemos passar a ser egoístas e egocêntricos.
Equilíbrios. Devemos cuidar de nós por nós, mas também cuidar dos outros sem ignorar as nossas necessidades, emoções, limites e intenções. Mas os equilíbrios implicam escolhas, prioridades, decisões, alinhadas com os valores e intenções de cada momento. Uma flexibilidade que, confesso, às vezes me parece impossível. Para o fazermos com sucesso, precisamos de consciência. Mais uma linha ténue: termos consciência de viver em consciência para estar conscientes de possíveis inconsciências. Ufa! – para não dizer outra coisa. As influências, pressões e sugestões – sejam elas endógenas ou exógenas – tornam tudo isto um processo complicado e trabalhoso.
O equilíbrio envolve esforço. Tenho percebido que uma vida feita sem o esforço da autoanálise e reflexão – que muitas vezes é desconfortável e difícil – é uma vida em piloto automático. Deixamo-nos guiar pela intuição – esse conjunto de comportamentos e respostas apreendidas ao longo da nossa vida – e vamos lidando com a coisa ao sabor do vento. Nem sempre os ventos são bons e navegar em tempestades pode afundar navios.
Tenho trabalhado em terapia o sentimento de culpa e insuficiência quando sinto que não sou um pai competente, ou um companheiro ideal. Em verdade, quando me sinto aquém das minhas capacidades. As coisas que me acontecem, os contextos onde estou inserido e o conjunto de eventos que me rodeiam, afetam-me o humor, a forma como reajo e o estado de espírito. Há aqui muito para desconstruir, bem sei. A começar pela aceitação de que não posso estar sempre bem, nem fazer sempre as coisas bem. A culpa vem: diz-me que tenho que fazer melhor, mais, de outra forma. Mas também tenho o direito a ser insuficiente, imperfeito. Tenho o direito de falhar e não ser definido pelo erro. Releio as duas últimas frases e soam-me a conversa de preparação pré-jogo de uma final desportiva. Não me soa natural. Talvez seja o meu condicionamento a falar mais alto. Outra coisa que preciso desconstruir. Talvez outra linha ténue: na aceitação das minhas falhas e insuficiências tenho medo de me pautar por elas. Não me quero resignar e ser definido por estes comportamentos. Quero ser mais: melhor pai, melhor amigo, melhor filho, melhor companheiro. Melhor. Releio novamente: quero ser melhor porque acho que essa métrica – seja lá o que melhor signifique – me deixará mais feliz. Mais coisas para desconstruir. Para perceber. Querer ser melhor pode ser uma forma de não nos aceitarmos como somos. Depende da métrica, claro. E do porquê querermos ser melhores: para a nossa autoestima ou para a estima de outros.
Os equilíbrios são difíceis, as linhas ténues têm pouca visibilidade e procuro ser feliz com comportamentos adaptativos que nem sempre são os mais saudáveis. Esta podia ser a história da minha vida mas não passa disso: uma história. Contamos histórias sobre o que achamos das coisas, dos outros, de nós próprios. Muitas dessas narrativas vêm com inúmeros condicionamentos externos, muitos deles adquiridos nos nossos anos formativos e marcaram-nos de forma indelével. Agora, como adultos, pais ou não, temos que lidar com eles. A história que contamos a nós mesmos sobre nós tem uma relevância enorme. Ela começa com a história que ouvimos dos nossos pais, cuidadores, familiares sobre quem somos, o que somos. Quando fui pai pela primeira vez tive, intuitivamente, esta noção: a forma como eu falo e vejo o meu filho é o que ele vai interpretar como sendo a sua história. Daí ser importante aceitar, plenamente e sem condições, o que ele expressa, sente e diz. Acima de tudo, acolher o que ele aspira a ser, mesmo que mude a cada dia. Sou responsável pela integridade física, psicológica e emocional de cada um dos meus filhos. Posso discordar, ter outras preferências; mas a mim compete-me exercer a minha responsabilidade na educação deles com base em valores estruturais da nossa família como o respeito, empatia e autenticidade. Não tenho o direito de impor gostos, aspirações, desejos. O que desejo, mesmo, é que qualquer um dos meus filhos conte a sua própria história, com as suas aspirações e particularidades. E que essa narrativa seja limitada ou condicionada o menos possível. Para que possam sentir que são livres e aceites tal como são, sem condições.
Abraço-vos,
João
PARTILHAS
A Anna Machin é uma antropóloga que se dedica a estudar a paternidade sob a lente da ciências sociais. Escreveu um livro chamado “Life Of Dad” que tenho muita curiosidade em ler e está na minha wishlist. Neste podcast ela fala sobre o livro e o que tem vindo a estudar, que é o impacto da paternidade nos homens, as mudanças físicas e emocionais a que são sujeitos e os papéis que podem, e devem, desempenhar. Achei uma conversa fascinante e acho que todos os homens e mulheres, sejam pais ou não, a deviam ouvir. Contribui imensamente para a desconstrução da masculinidade.
Descobri este Substack num outro que reuniu uma série de (boas) recomendações de Substacks. Fez algo maravilhoso, em cada recomendação assinalou o texto que mais o impactou – agindo como sommelier da literatura digital. A autora fala sobre o trauma de vivermos sob o Capitalismo (deixem-se de ideologias, leiam com mente aberta) e deixa algumas boas sugestões de mecanismos para lidarmos com a pressão de chegar ao fim do mês.
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