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Memento Mori

On Maio 2, 2025porJoão Azevedo

A insustentável fealdade de envelhecer.

Olá,

Ainda não li “A Cicatriz” que, de acordo com o , algures no livro, escreve-se que “Há qualquer coisa bonita na pobreza”. Gostava de poder beber da fonte estilística da autora e afirmar que “Há qualquer de bonito na velhice”, mas estaria a mentir. A velhice – ou uma doença terminal – tem uma curva de progressão lenta a princípio. Vamos envelhecendo, vai-nos doendo qualquer coisa, vamos ficando esquecidos. Depois há um evento, ou um momento, em que a curva se acentua e vamos perdendo quase tudo: mobilidade, intelecto, memória e dignidade. Nisto, nunca consegui encontrar nada de belo.

Dizem que sentimos o final a aproximar-se. O meu pai utilizou a expressão antecâmara da morte: zangado, frustrado, triste e indignado. Nas palavras, no olhar, na expressão corporal. Por fim, a cabeça baixa-se e o olhar fixa o vazio: resignação. Escreveu Sartre que somos um todo-para-a-morte. Virgílio Ferreira, de quem o meu pai sempre gostou, escreve sobre isso na “Aparição”. Mas por mais que saibamos versos, ou tenhamos lido livros, a sombra da morte misturada com a perda de autonomia é devastadora. A vida é feita de azares e vamos tendo alguns ao longo da vida. Um dos últimos será este: a decadência de um final de vida. Custa ver mas não imagino o que será sentir.

Eu acho injusto. Em primeiro lugar porque perdi uma mãe com uma doença terminal aos vinte e um anos e foi aí que vi a vida de alguém que amo definhar. Extenuar-se. Ninguém merece a sevícia. Quase vinte anos depois, o cenário não é igual, mas há uma familiaridade que me deixa desconfortável. Como já soubesse ao que vou. Como se conhecesse demasiado bem o que se aproxima. É uma postura egoísta e egocêntrica ver ambas as situações do meu ponto de vista, eu sei. Mas é o que conheço e experiencio. A minha empatia continua imaculada: sofro horrores ao ver quem amo sofrer. Tenho um grande problema em lidar com o sofrimento alheio, principalmente das pessoas que amo. Acontece com os meus filhos, com a Sofia. Com o meu pai. Aconteceu com a minha mãe. Mas a análise que faço é sempre do meu prisma: não sou ator principal deste circo de horrores, mas estou na primeira fila. É uma experiência que deixa marcas indeléveis no espectador.

Sou relembrado que a vida vive-se agora, no momento. Deixar para depois é adiar sonhos que poderei nunca cumprir. Porque não chegarei lá ou porque se lá chegar não serei a mesma pessoa, nem terei as mesmas capacidades. É um cliché, mas é daqueles que se constatam facilmente. Talvez seja por isso que tenha tatuado memento mori num sítio visível: para me ir lembrando que vou morrer. Muitas vezes esquecemo-nos disto, porque a morte e a decadência foram higienizadas nos nossos dias: cobrimos rapidamente os mortos, velamos caixões fechados e enterramo-los, como tentamos fazer à mágoa da saudade. Nos centros de repouso sénior escondemos o definhar da humanidade. Nós não somos o que nos acontece; é como reagimos às coisas que nos acontecem que nos mostramos. Mas confrontados com uma existência que se torna, dia a dia, cada vez mais indigna, será mesmo verdade? Não reagimos todos da mesma maneira. Conheci quem enfrentasse este descalabro físico com humor. Outros com total desespero. Não posso julgar ninguém, falta-me o lugar de fala. Não tenho oito décadas no meu corpo, ou uma doença terminal, ou um declínio cognitivo acentuado.

Penso nos meus filhos que talvez encontrem este texto num futuro onde seja necessário equacionar a minha ida para um lar. Lembro-me de inúmeras conversas da minha mãe e do meu pai a dizerem-me que, quando chegasse a altura, queriam que eu não hesitasse e os colocasse lá. Que é um fardo que nunca iriam querer deixar sobre os ombros de um filho. Que a demência é uma prisão para um cuidador informal. Avisaram-me que quando chegar a essa altura, a opinião muda drasticamente. O declínio mental trás aquele egoísmo infantil que torna míope a visão das coisas. Não querem ser largados ao deus-dará. Não querem ser abandonados. Ninguém quer.

Cheguei a esse lugar da ficção que acontecia nas conversas em família: o meu pai precisa de apoio e cuidados continuados. Tem sido uma das fases mais duras dos últimos anos. O acidente, as urgências, o internamento, a perda de mobilidade, o envelhecer acentuado. Têm sido meses de angústia para ele, para mim, sem percebermos qual a melhor solução. Compreendi que nunca sabemos o melhor caminho a seguir: é um processo de tentativa e erro, misturado com muita esperança e desespero. Tive sorte: chegámos os dois à mesma conclusão e percebemos o que fazer. A contragosto de ambos. Mas gratos pelo privilégio de podermos equacionar soluções que a maioria das famílias não têm ao seu alcance.

Ao chegar a quatro décadas de existência, concordo com os meus pais. Também quero que os meus filhos, se chegarem a isso, me coloquem num lar, se possibilidades para isso houver. Não quero definhar às custas da carga física, psicológica e emocional de nenhum deles, nem das suas putativas famílias. Sei que vou ser um péssimo doente: rezingão, impaciente, egoísta e egocêntrico. Prefiro que guardem outros tipos de memória. Serve esta lição para me lembrar, também, que está nas minhas mãos o tipo de velhice que vou ter. A forma como trato da minha saúde hoje vai-se refletir daqui a algumas décadas. Não falo da longevidade, falo da qualidade. Mobilidade. Performance cognitiva. Resistência. Tudo isto são os pilares de um final de vida com maior qualidade. Mas precisamos de perceber isto enquanto ainda somos mais jovens. Implica, claro, sacrifícios. Em segurar o hedonista que temos dentro do peito e trazer ao de cima o estoico. Não é uma tarefa fácil, numa sociedade virada para os picos de dopamina que vêm de todos os lugares.

Abraço-vos, que ultimamente bem preciso,

João


  • Há anos que sabia que era o escritor preferido do meu pai. Acabei por nunca encontrar coragem para o ler, com medo de ser demasiado démodé. Mas inspirado pela crítica da reedição que li no Ipsilon, fui procurar nas prateleiras lá de casa a edição antiga e arrisquei. Percebi o Nobel da Literatura: há ali uma voz muito própria, muito literária, muito dura. Única. Não será o meu estilo em demasiados momentos, mas fiquei fã da crueza. Da humanidade exposta no seu pior, com a naturalidade que se enfrentar a imperfeição humana. Sente-se, também, ali uma época muito específica: publicada durante a Segunda Guerra, e escrita provavelmente nos seus inícios


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7 comments

  • Lídia M.T. Dias Maio 2, 2025 at 7:22 am - Responder

    João, estou sem palavras. Também já assisti a esse espetáculo na fila da frente e consigo sentir a dor de cada uma das tuas linhas. Um grande abraço.

    • João Azevedo Maio 2, 2025 at 8:29 am - Responder

      Obrigado, Lídia. Não é nada bonito de se ver, de facto. Um abraço.

  • Raquel Dias da Silva Maio 2, 2025 at 3:56 pm - Responder

    Não consigo sequer imaginar o que é sentir que estamos a perder alguém aos poucos. Os meus pais são super novos (o meu pai tem 57, a minha mãe 54) e até ver saudáveis qb; e quando os meus avós morreram eu ainda era muito pequenina. Já o meu João perdeu a mãe tinha 4 anos (um cancro da mama); ele tem muita mágoa mas o irmão, que na altura tinha 14, terá sofrido mais na altura (agora sofre ele por saber que não teve 14 anos para conhecer e amar a mãe). Um grande abraço! 🫂

    • João Azevedo Maio 2, 2025 at 5:28 pm - Responder

      Obrigado, Raquel.

  • FMR Maio 3, 2025 at 11:59 am - Responder

    os hospitais são memoriais para a nossa morte. chego à sala de espera com 36 anos e uma dorzita no olho que me assusta. nos olhos habita o meu maior medo. dizia que chego à sala de espera e vejo um homem com a boca arrumada a um canto, imóvel, cabelo todo branco e sentido de humor vigoroso. resta-nos a voz. uma mulher, ainda parece uma mulher, não tem um único cabelo e usa um guarda-chuva para a amparar da irremediável queda. aproximo-me deles e depois refugio-me no livrinho, sem conseguir ler o livrinho. é inglês, é foster wallace e a sala está cheia de histórias mais interessantes e indecifráveis. depois vou até à casa de banho e no urinol permaneceu o fio de sangue de alguém, faço mira. fugir da morte. fugir da dor, lembrar isto sempre que o meu filho pedir para ir brincar com ele. mas tenho algo, há sempre algo a terminar. um texto. convivo mal com o desleixo, talvez queira deixar tudo feito antes de morrer. fecho o livro, ponho os olhos no ecrã e abro este texto: memento mori.

  • Cátia Madeira Maio 4, 2025 at 3:01 pm - Responder

    Força para este momento, João. Também não quero ficar a cargo dos meus filhos, um dia que a velhice me apanhar a sério. Até porque se já sou dura de aturar, bem velha, nem quero imaginar 😅.
    Crescer é tramado, quando eramos pequenitos isto parecia muito mais fácil.

    • João Azevedo Maio 4, 2025 at 6:15 pm - Responder

      Fico-te grato, Cátia. É mesmo por aí: se já sou um pouco execrável agora, imagino em velho. Um abraço

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