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Não sei bem o que escrever

On Março 15, 2024porJoão Azevedo

…

Olá,

Comecei a escrever esta crónica no dia a seguir às eleições. Foi uma noite complicada lá em casa. O M fartou-se de chorar de forma inexplicável e, duas horas depois de um pranto inconsolável, lá consegui descobrir uma forma de o acalmar. Deitei-o em cima da minha barriga com a cabeça pendurada sobre o meu ombro e fui-lhe dando palmadinhas nas costas. Adormeceu. Ainda tentei mudar a posição ou passá-lo à mãe, mas em vão. Acordava sempre, novamente a chorar. Eu já não estava no meu melhor: tive, ao longo do dia, uma tosse e um cansaço no corpo que me indicavam que o sistema imunitário estava frágil. Desisti, resignei-me e reclinei-me num cadeirão lá de casa na posição de conforto do rapaz e lá dormimos cerca de uma hora. Quando acordou, novamente desconfortável, a mãe conseguiu adormecê-lo e lá ficaram. Fiquei cheio de dores de costas depois desta aventura mas, pouco tempo depois, também consegui adormecer. Exaurido e apreensivo, a olhar para o futuro de frente, mas com receio do que aí vem.

As últimas horas do dia 10 foram intensas. Às 20h, vimos as projeções na televisão que confirmaram o que já calculávamos: o fascismo como terceira força política. Mas acho que mantemos sempre a esperança de que não seja verdade, que as coisas não são tão más como pensamos. Ficámos tão desiludidos que o A percebeu que algo se passava. Explicámos que os pais estavam tristes com o resultado. Mas eu e a Sofia estávamos com um aperto no estômago, já a somatizar o aperto do cinto que se adivinha para a próxima legislatura. A sentir o retrocesso civilizacional que é apregoado pelos intolerantes. Falámos em emigrar. Eu pensei em fortalecer as nossas comunidades e redes de apoio; acho que todos vamos precisar. A ironia deste receio no quinquagésimo aniversário da queda da ditadura. Mas foi bom ouvir um histórico de Abril, quando questionado se tinha receio, responder que tinha vivido numa ditadura e sido torturado pela polícia política pelo que nada disto o apoquentava. Às vezes é mesmo preciso colocar as coisas numa perspetiva diferente. Mas, enquanto olho para os meus dois filhos, penso que ficámos mais longe de cumprir Abril. E eu tenho medo.

a person standing in front of a giant spider

Tenho medo de ver direitos que prezo como fundamentais serem retirados; como se a conquista de liberdades individuais tivesse prazo de validade. Como se as liberdades de decidir sobre o nosso corpo e como nos expressamos fossem passíveis de serem revogadas. Tenho medo de ver o discurso de ódio normalizado ao ponto de a discriminação deixar de ser uma ofensa e passar a ser uma opinião. Tenho medo que os processos de desumanização a que assistimos em direto na Faixa de Gaza cheguem aqui. Que se volte a pensar que há quem seja superior e inferior. Que há quem não deva viver e a vida só é sagrada dentro de um útero.

Mas viver com medo não é viver de todo. Um dos legados que gostava de deixar aos meus filhos é a forma como escolhemos enfrentar as adversidades. Que as dificuldades sejam catalisadores de mudança, inspiração para uma vida melhor. Que não se deixem vencer pela apatia e resignação. Uma vez mais, para isto acontecer, nós, pais e cuidadores, temos que ser o exemplo. Olhar para um mundo mais feio e pensar como podemos voltar a colocar-lhe alguma beleza. Deixarmos os sítios que habitamos melhor do que os encontrámos. Mais que nunca, é preciso viver de acordo com os nossos valores. Estarmos alinhados, nas nossas ações e palavras, com aquilo que sentimos como certo. E olhar para as nossas comunidades, sejam elas o que forem. De amigos, família, outros pais. Vizinhos, crentes da mesma fé, associações, partidos políticos. Redes de apoio, de partilha, de convivência, que nos nutram e combatam o isolamento que nos é imposto pela sociedade. Ninguém larga a mão de ninguém.

Porque é no apoio mútuo que quero construir a minha visão de sociedade e que quero mostrar aos meus filhos. E, por isso, vamos continuar a fazer o mesmo, sem medo. Participar em círculos de mulheres, de homens, tentar organizar convívios com famílias que partilhem os mesmos valores; reciclar, reutilizar, partilhar, unir recursos para que cuidar seja mais leve no maior número possível de casas. Respeitar a natureza, a sua finitude e a sua generosidade. Ter noção do privilégio que é ter casa, comida, roupa e energia num país em paz. Incluir e aceitar pessoas diferentes de nós, de todos os géneros, credos e raças e ser empáticos com a falta de privilégio que é sermos diferentes. Ter, no fundo, respeito universal independentemente de quem seja. Sem medos. Sendo exemplo.

Até para a semana,

João

P.S. Estive para não incluir este segmento final na crónica de hoje. Senti que talvez não fizesse sentido recomendar o que quer que seja. Mas lembrei-me de uma partilha que a Liliana me fez. É sobre um podcast do jornal Público lançado em Janeiro deste ano e que fala sobre masculinidades e a sua respetiva desconstrução. Tem o sugestivo título de “Um Homem Não Chora” e é da autoria da Maria Ana Barroso. Ouvi o primeiro episódio com o Diogo Infante. Foi bom ouvir alguém que admiro muito falar sobre estas questões de uma forma tão madura, verdadeira e transparente. As nossas fragilidades fazem parte dos homens e, em momento algum, devemos ter receio de as assumir. Mas a sociedade condena expressões da masculinidade fora da normatividade. Precisamos de pensar, juntos, em soluções para incluir e integrar o que é diferente. Ide ouvir.

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

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