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On Agosto 2, 2024porJoão Azevedo

Olá,

Como já deves saber, nas próximas semanas estarei longe das plataformas digitais. Nas próximas quatro publicações terão o prazer de ler pessoas de quem gosto, com outras perspetivas da maternidade e paternidade.

Hoje, gostava de vos deixar com algo diferente para o arranque de Agosto. Uma espécie de curadoria em forma de reflexão de coisas que gosto de fazer offline. Dou-lhes valor e têm impacto na minha vida. Faço questão de as partilhar convosco porque, se me fazem tão bem, seguramente mal não vos farão.

BIBLIOTECAS

Há qualquer coisa de mágico numa biblioteca. É um serviço público para o bem público, que serve realmente as pessoas. É altruísta, não visa lucro e a sua existência democratiza o acesso à leitura. Torna, de facto, universal o acesso à informação. Nelas encontramos livros de todos os tipos, géneros e feitios. Jornais diários, semanários, revistas. Computadores com acesso à internet onde podemos mergulhar na infinitude da informação partilhada pela restante humanidade. Uma biblioteca é uma coisa pública e, por isso mesmo, deve ser protegida e estimada por todos nós. Têm estado com pouca utilização nos últimos anos e, como pais, cabe-nos fomentar o uso dos seus recursos. Corremos o risco de as ver serem despromovidas de bem essencial a supérfluo num futuro orçamento de estado. Nesta era do imediatismo e do consumo desenfreado, descobri a beleza de aguardar pelo intercâmbio de livros entre bibliotecas para satisfazer um pedido específico. Consulto o catálogo do concelho pela obra que quero, e faço o requerimento na minha biblioteca local. Dias depois, recebo um telefonema que me anuncia a chegada da obra pretendida. É só lá ir buscar e usufruir de 15 dias para o ler. Posso renovar o prazo para outros 15 dias, se necessário. Posso usufruir do meu direito a ler, sem os custos associados – e isto é relevante num país onde os livros rondam os 15/20 euros a unidade. Ler é um privilégio, sim, principalmente quando percebemos que é através da leitura que nos engrandecemos nos ombros de gigantes.

“Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido.” Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro

POESIA

Gosto de pensar que há poesia em tudo. Lembro-me de ser miúdo, estar algures na escola primária, e ficar muito entusiasmado com os primeiros poemas que li. Tenho a ideia – ou a construção mental – de que eram quadras e fascinaram-me por duas razões. A primeira, era por que eram curtas e muito adequadas ao meu défice de atenção e imaturidade escolar. A segunda, é porque senti que seria algo que eu conseguiria – até quereria – fazer. Desde então, os versos sempre provocaram algo nas minhas vísceras e fiquei fã de construções frásicas em rima, ou com falta dela, onde a emoção é jogada com o poder do ritmo e cadência das palavras. Encontrei poesia nas letras das músicas que fui ouvindo, desde Paulo Gonzo, aos Cranberries, das Spice Girls aos Nirvana. Mais tarde, no rap, encontrei um exercício fantástico de ritmar poemas, fonemas, aliterações e, ainda hoje, admiro a capacidade literária do género. Sorrio enternecido quando vejo o meu filho mais velho fã das letras do coletivo Mão Verde, essa super banda que teimamos em reduzir ao universo infantil. As letras e o flow da Capicua são experiência partilhada da infância e uma forma de olhar a maternidade e a paternidade. Encontrei poesia em ideias e formas de pensar, onde a adversidade das circunstâncias não foi suficiente para afogar o altruísmo e humanidade que certas formas de existir contêm dentro de si. Há, também, muita poesia nos pequenos gestos e detalhes, não fossem estes ingredientes essenciais cada verso. Tenho visto menos poesia na rua, ou pelo menos sinto que as pessoas escrevem cada vez mais apenas para si mesmas. É importante ter poesia partilhada, em cada esquina, para que nos possamos apoiar nas quadras uns dos outros. Há muita gente desamparada e que, no fundo, precisava apenas de um poema. Já não escrevinho versos há demasiado tempo, mea culpa. Neste caso, talvez me façam mais falta a mim do que aos outros ou então estou só a ser tão, ou mais, egoísta do que andam por aí. Somos todos escritores, disse o nosso Nobel. Mas uns escrevem, outros não. Seguramente, aplicar-se-á esta linha de pensamento aos poetas e poetisas.

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COZINHAR

Cresci numa casa com péssimos hábitos alimentares, mas com um privilégio de ter dois progenitores com as suas especialidades culinárias e que teimavam em confecionar iguarias. Caril de Frango à moda de Goa, Feijoada à transmontana, Ovos Verdes, Lombo de Porco recheado. Tarte de Maçã, Ilha Flutuante, Bolinhas de Rice Crispies. Desenvolvi um enorme gosto por comer, gosto de vários sabores confecionados de forma simples. Azeitonas bem temperadas, um arroz de robalo e limão, ameijoas à Bulhão Pato. Um simples pão torrado com um fio de azeite de qualidade. Para além de bom garfo, herdei alguns dos dotes culinários dos meus pais e, assumo, também gosto de cozinhar. Não é sempre, atenção. Muitas vezes sinto-me sufocado com a exigência da rotina familiar e, desde que fui pai, deixei de ter aqueles dias em que não me apetece fazer nada e comia apenas cereais. Mas, regra geral, gosto de cozinhar, de receber pessoas à mesa e sentir que lhes nutro o palato e outros sentidos. Gosto de ter bons vinhos ou cervejas artesanais para emparelhar, entradas saborosas e petiscos que ficam na memória e convidam conversas longas. Cozinhar reflete muitas vezes a vida em si. Uma vez mais, poesia em todo o lado. Em certos momentos, preciso de estar sozinho. Há alguns rituais culinários que carecem de solidão, de reflexão, concentração. Precisamos de foco para conseguir polvilhar cada prato com a exatidão que a nossa intuição pede. Tal como a vida, suponho. Também é um momento meditativo, onde posso ouvir música enquanto se trata da mise-en-scene que vai permitir a operação culinária. Noutros momentos, preciso de companhia. Boa conversa a partilhar um copo de vinho e o corte das cebolas, alhos, pimentos e outros vegetais. E há privilégios nestas alturas: os ajudantes têm acesso privilegiado a fatias de queijo, azeitonas ou patés enquanto estão a ser empratados ou colocados em taças para os restantes convivas. É o preço a cobrar pela cooperação, diria. Nunca gostei de trabalho não remunerado e todo o esforço deve ser justamente recompensado.

CONVERSAS

Cresci a ouvir que era muito conversador. Dos meus pais, que pagaram o preço de não me terem dado irmãos com idades perto da minha. Dos professores, que pagaram o mesmo preço, coitados, porque era na escola onde podia tagarelar à vontade com os meus pares. Mas sempre gostei de conversar. Há qualquer coisa na partilha humana que nos enriquece. Concordo com o Harari quando ele argumenta que é a nossa capacidade de contar histórias – e acreditarmos nelas – que sustentou a evolução da nossa espécie. Aprendi muito com conversas – e vejo o mesmo a acontecer com o meu filho mais velho. Na partilha das nossas experiências e visões do mundo, encontramos um espaço delicado onde podemos crescer enquanto pessoas. Com quem nos damos influencia muito o nosso comportamento e a nossa aprendizagem. Conversar é a ferramenta mais poderosa de influência. É positiva quando serve os interesses de todos os intervenientes de forma honesta e transparente. Mas pode ser negativa quando é utilizada para manipular e, dessa forma, servir apenas os interesses de uma só parte. E se isto é feito sem a pessoa manipulada ter consciência do que se está a passar, pior. Gosto do prazer de conversar abertamente, sem filtros, poder dizer o que quero e penso sem grandes receios de ser julgado e com a abertura de voltar atrás em qualquer momento, sobre qualquer posição. Gosto menos de conversas difíceis. Onde é preciso ter cautela com o que se diz para que a nossa mensagem passe de forma clara. Ou onde precisamos de estar alertas com pessoas que nos tentam manipular, ou distorcer factos e serem seletivas naquilo que ouvem. É interessante ver este viés em ação. Os ingleses chamam-lhe cherry picking. Basicamente é quando selecionamos pedaços de informação partilhados connosco que, fora de contexto, servem o nosso propósito e narrativa. Revela, acima de tudo, a incapacidade de alguém em conseguir pesar todos os factos e assumir as múltiplas dimensões de uma conversa. Há ainda uma categoria de conversas difíceis que me custa muito. Quando sabemos que a nossa verdade, ou interpretação da realidade, ou o que sentimos, vai magoar alguém. Sim, eu sei que somos apenas responsáveis pelos nossos próprios sentimentos e emoções mas ser humano é também termos a capacidade de empatizar com o outro nestas situações. Não gosto de magoar pessoas. As conversas permitem-me aprender, todos os dias. Há pessoas com quem é um deleite conversar, onde se pode aprender. Senão estivermos no topo do monte da estupidez Dunning-Kruger, podemos aprender tanto com os outros. E dessa forma crescer, com outras visões, conceitos, aprendizagens e formas de estar no mundo. Tenho a sorte de namorar com alguém com quem adoro conversar. Os filhos, a vida e a rotina complicaram a coisa e deixam pouco espaço e tempo para podermos dar à língua. Mas ainda há um conforto enorme em poder conversar sobre tudo com alguém. É um privilégio que quero utilizar muito nestas próximas semanas.

Abraço-vos,

João

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

#weeknotes 1

De Cabeça Leve Num Mundo Pesado.

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