Skip to content
  • Início
  • Sobre Mim
  • Substack

Copyright A Balbúrdia 2026 | Theme by ThemeinProgress | Proudly powered by WordPress

A Balbúrdia
  • Início
  • Sobre Mim
  • Substack
Originais do Substack Article

Pai, o que são as eleições?

On Março 8, 2024porJoão Azevedo

Sobre conversas de política e religião.

Olá,

Há umas semanas o A perguntou-me:

Pai, o que são as eleições?

A minha abordagem foi a mais pragmática possível na altura. Expliquei que é um processo que decide quem vai zelar (clarificando, eu disse “tomar conta”) pelos nossos interesses e ajudar-nos na organização a nível nacional e internacional (”com as coisas que nos importam”). Depois, reforcei com um exemplo:

Lembraste quando na escola, para decidir qual das histórias iam ler, os meninos votavam? É o mesmo processo, mas em vez de ser com livros, é com as pessoas que vão tomar decisões.

Ignorei propositadamente o método de Hondt, a distribuição distrital do número de deputados e que o exemplo de democracia direta que ele utiliza para escolher a história que vai ouvir continua a ser apenas um ideal, em nome não se sabe bem do que. Achei que era o mais correto a fazer com uma criança de seis anos.

a person is casting a vote into a box

Nós somos um animal político, disse Aristóteles. A nossa forma de organização social no mundo ocidental assim o dita e, de forma pragmática, tudo o que fazemos é uma ação política; consciente ou inconscientemente. Como pais, fazemos do exercício político – e muita das suas componentes – práticas diárias. Cedências, compromissos, definição de limites, linhas orientadoras pautadas por crenças e valores, decisões que afetam o nosso ecossistema familiar como um todo. Mais: as nossas decisões influenciam o próprio ambiente em que a família cresce e acabam por ter um peso enorme na construção das personalidades de todos. Pais incluídos. Somos políticos em qualquer decisão e como agimos em sociedade; o que compramos, como compramos, o que desejamos, como gerimos, como partilhamos, como socializamos. Somos políticos nas conversas que escolhemos ter, ou não ter, nas posições que assumimos, ou não assumimos, somos políticos quando escolhemos com quem nos dar. Somos políticos nos conteúdos que escolhemos consumir, no que escolhemos ler. Somos, em suma, políticos nas nossas escolhas.

https://instagram.com/p/C4CMWGqCtEY/

Não sei se será transversal, mas sinto que a maior parte de nós foi, de facto, ensinado a evitar falar de certos assuntos. A política não se discute, religião também não. E na ausência de debate e conversas nascem tabus e iliteracias. Perdemos a hipótese de ensinar e aprender a conversar sobre tudo, com respeito e empatia pelo outro. Só saberemos ter conversas difíceis através da prática. Evitar este tipo de diálogo apenas perpétua um ciclo que, convenhamos, não tem sido muito benéfico. E se tudo o que fazemos é uma decisão política, se como pais somos politicamente ativos no quotidiano, como é que chegámos este declínio civilizacional onde não falamos de política por tabu, desinteresse e ignorância? E como podemos não ver que esta iliteracia política só nos prejudica? Principalmente os nossos filhos e gerações vindouras.

O A perguntou, no seguimento da conversa:

E os políticos ajudam-nos em quê?

Amargurado com o sistema e classe política, frustrado com a promiscuidade com os interesses instalados, cansado de perceber que o problema é sistémico e estrutural, respondi:

Em pouco, filho, em pouco…

Como pais, às vezes damos respostas que são insuficientes. Neste caso, foi mais grave. Foi uma resposta que induz à mesma amargura, desinteresse e frustração com o sistema que acaba por perpetuar o mesmo a que me referia alguns parágrafos ali em cima. Tabu e ignorância. A resposta, inteligente e acutilante, surgiu em forma de pergunta:

Então porque é que votamos?

Respondi qualquer coisa, não me lembro o que. Devo ter repetido um daqueles chavões clássicos sobre o dever de voto e a importância de participar em democracia. De forma adequada a uma criança. Mas fiquei desarmado com a pergunta e percebi a importância de conversar sobre política ao invés de perpetuar a desilusão com o sistema. Como pai, nunca vou querer passar a ideia de que não vale a pena lutar pela mudança. Vale sempre, independentemente da forma que essa luta assume. Mesmo que o sistema – corrompido, injusto e viciado – me tente convencer do contrário.

Vou precisar de lidar com a minha frustração com o sistema político de uma forma mais saudável. Ensinar os meus filhos que para mudar o mundo temos que nos mudar, primeiro, a nós mesmos. É engraçado perceber que tantas vezes tento modelar o meu comportamento para ser o exemplo que quero que eles sigam e é precisamente essa a atitude mais importante em democracia. Devemos dar o exemplo e ser a mudança que queremos ver no mundo. Independentemente das nossas cores políticas e afinidades, precisamos agir em conformidade com os nossos valores. Aprender a debater e conversar sobre estas questões difíceis. Aprender que mudar de opinião e de valores é, também, uma forma de crescer.

É óbvio que tenho um viés com as minhas afinidades políticas. A forma como escolhemos viver e consumir, as nossas prioridades enquanto núcleo familiar, falam mais alto. São os nossos privilégios que constroem, também, a visão que vamos tendo do mundo. Mas sei que será no debate de ideias com os meus filhos que vamos dando perspetiva e contexto ao que eles vão experienciando. Na semana passada a Dra. Becky Kennedy, aquando da sua participação do podcast do Huberman, deu uma definição de entitlement (traduzo no melhor que sei para “achar-se no direito de”). Para ela significa medo da frustração. E esta definição, em tempo de eleições e questões políticas e fraturantes, nacionais e globais, faz-me muito sentido. Porque quero dar as ferramentas a ambos os meus filhos para lidarem com a frustração no dia a dia. Se tudo o que fazemos é político, que sejam as nossas ações a dizer quem somos e no que acreditamos e que sejam as nossas reações ao que nos acontece, também, a definir-nos. As palavras valem menos que as ações. A forma como nos frustramos diz muito sobre a nossa maturidade emocional e a forma como nos relacionamos com o mundo. Aquilo a que nos achamos no direito também define o que somos: ter consciência dos vários privilégios que temos dá-nos liberdade para fazermos escolhas. É aqui que fazemos política.

Só com esta consciência, transparência e liberdade poderemos falar sobre tudo. Política e religião. Porque, desta forma, traçamos as linhas do que são influências e manipulações e escolhemos argumentar. Afastamo-nos de retóricas vazias ou pedagogias – podemos deixar isso para as classes políticas vigentes – e pensamos em conjunto ações e visões do mundo e de que forma elas estão alinhadas com os nossos valores. Por isso, vou ter mais cuidado na forma como falo da política e das eleições com os meus filhos. Quero fomentar uma liberdade que precisa ser construída no exemplo. Começa, claro, por mim.

Até para a semana,

João

Obrigado por me leres. Se gostas do que escrevo subscreve para receberes semanalmente as minhas crónicas.

P.S. Esta semana terminei o maravilhoso livro do Khalid Rashidi que tenho andado a ler nas últimas semanas. Chama-se Palestina: Uma Biografia. Cem anos de guerra e resistência.

Continuo a acreditar que não podemos ter opiniões e crenças baseadas apenas nas espumas noticiosas do quotidiano e que, se um tema nos interessa, temos que ir atrás de informação e contexto. E isso implica ouvir e perceber os vários lados da mesma história. Gosto de olhar para esta prática como a terceira perspectiva, assumindo a máxima de que “há sempre dois lados da mesma história”. Deixo-vos aqui a crítica que fiz no Goodreads:

São bons os livros que nos conseguem tocar nas vísceras. Foram vários os momentos onde senti lágrimas de dor e frustração ao ler esta biografia da Palestina. Conta-nos uma história de um povo cujo direito de existir é negado há mais de um século e relata, ponto a ponto, como é que isso aconteceu. Fala sobre a origem do projeto sionista, a ligação às diferentes potências mundiais – primeiro a britânica e, mais tarde, a americana. Está magistralmente bem escrito, como uma linguagem e explanação de ideias feita de forma clara e acessível; um feito difícil para um tema tão entrelaçado e complexo. Depois da introdução, divide-se em seis capítulos sobre cada uma das declarações de guerra feitas ao povo palestiniano, a forma como foi subjugado, traído e ignorado ao longo de cem anos. É uma obra inigualável que deve ser lida se queremos compreender o que se passa no médio oriente, de forma contextualizada e assente na historiografia mais recente.

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

#weeknotes 1

De Cabeça Leve Num Mundo Pesado.

Deixe um comentário Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Arquivo

  • Abril 2026
  • Março 2026
  • Fevereiro 2026
  • Janeiro 2026
  • Dezembro 2025
  • Novembro 2025
  • Outubro 2025
  • Setembro 2025
  • Agosto 2025
  • Julho 2025
  • Junho 2025
  • Maio 2025
  • Abril 2025
  • Março 2025
  • Fevereiro 2025
  • Janeiro 2025
  • Dezembro 2024
  • Novembro 2024
  • Outubro 2024
  • Setembro 2024
  • Agosto 2024
  • Julho 2024
  • Junho 2024
  • Maio 2024
  • Abril 2024
  • Março 2024
  • Fevereiro 2024
  • Janeiro 2024
  • Dezembro 2023
  • Novembro 2023

Calendar

Abril 2026
S T Q Q S S D
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
« Mar    

Categorias

  • Assim não
  • Crónicas
  • Da Balbúrdia
  • Diário de um código
  • Notas da Semana
  • Originais do Substack

Copyright A Balbúrdia 2026 | Theme by ThemeinProgress | Proudly powered by WordPress