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Pensar a adolescência.

On Maio 16, 2025porJoão Azevedo

As múltiplas dimensões da nova aldeia que educa as nossas crianças.

Aviso à navegação: este texto vai discorrer sobre sexualidade, masculinidade e violência física, sexual e psicológica. Sobre bullying, irresponsabilidade, parentalidade, amor e ódio. Estão presentes também spoilers da série da Netflix Adolescence na história. Se estás confortável com tudo isto, podes continuar a ler. Caso contrário, vemo-nos na próxima crónica.

Olá,

Vi, no mesmo dia, os quatro episódios da minissérie Adolescence, uma produção da Netflix que o Stephen Graham que produziu, escreveu e atuou. Estava relutante: não pela qualidade, mas porque fui avisado por connaisseurs que era pesado, principalmente para quem tem filhos. Tenho tendência a fugir do desconforto. Foram múltiplos os relatos da crueza, do confronto duro com a realidade. Comentei com a Sofia que não estaria propriamente na melhor altura para digerir algo assim; às vezes, é preciso não nos expor a gatilhos. A cultura deve fazer pensar, não sofrer, penso. Fiz o mesmo com a série em podcast Desassossego, feita pelo Fumaça. Parei no primeiro episódio porque achei que na altura não reunia as ferramentas emocionais para lidar com a investigação jornalística sobre saúde mental. Foi uma óptima decisão adiar a escuta. Mas será que o sofrimento alheio nos pode ensinar alguma coisa? Talvez. Mas cada coisa tem o seu tempo e crescer permite-nos discernir qual o tempo de cada coisa.

Terminei o quarto e último episódio em lágrimas. Solucei perante o sofrimento atroz de um pai que, mesmo não querendo, se culpa pelo comportamento do filho. Foi um murro no estômago como já não levava há algum tempo. E nada do que cada um dos quatro episódios retrata é novidade para mim; pelo contrário, são temáticas sobre as quais já aqui escrevi e pensei muito, mas a história confronta-nos com as consequências de um problema bem real e próximo. Não vou fazer uma crítica à série enquanto objeto audiovisual, não é isso que me trouxe a este texto. Nisto estou alinhado com o Diogo Faro que, na sua estreia nesta plataforma, escreveu sobre a série e analisa as várias temáticas interseccionais que compõem a narrativa. Partilhamos algumas das preocupações socioculturais que o mundo da série releva. Não me arrependo de ter visto a série: se calhar, até estava a precisar. Vou aglomerar vários temas sobre o arco narrativo de cada um dos episódios para refletirmos. Juntos. Porque sinto que preciso de refletir com outras pessoas, pais e não pais, sobre o mundo que estamos a criar e, mais importante, como podemos minimizar o impacto nas futuras gerações. Precisamos resistir. Comecemos por ler e escrever, então.

Inocência / Ignorância

Vivemos presos em rotinas. Nelas acabamos por ignorar muitos detalhes que nos rodeiam. Ainda para mais de outras gerações, mais novas. São outros códigos, signos, comportamentos. Cresceram noutro mundo e agora parecem-nos de difícil leitura ou, muitas vezes, incompreensíveis. Na torrente sucessiva de eventos que compõem o nosso dia acabamos por ficar absorvidos na roda do rato. Fazemos, fazemos, fazemos. Produzimos, cuidamos e procuramos refúgio em picos de dopamina. Quase todos, adultos, conhecemos aquele cansaço existencial que nos assola ao final do dia, onde até uma simples série pode ser um fardo para o nosso cérebro. Por defeito, queremos ocupar a nossa mente com estímulos. O sistema onde vivemos, este primeiro mundo, o Ocidente, foi criado assim por defeito: para capitalizar esta nossa necessidade ou ânsia. Desta forma torna-nos melhores consumidores, menos críticos, mais apáticos e sem força anímica para procurar uma mudança. É-nos dado o limiar de conforto para que continuemos sentados no sofá, na secretária, no balcão.

Na série, acabamos por perceber que a culpa é inegável. As filmagens CCTV mostram Jamie a apunhalar sete vezes a Katie, no que a mim me pareceu um acesso de raiva, descontrolado, vindo de um miúdo aparentemente calmo. É abjeto que ele tenha feito isto mas fica a pergunta: o que o terá levado a agir assim? O choque do pai é também revelador: ele não concebia a possibilidade do seu filho fazer uma coisa destas. Quando os detetives e o solicitador os deixam sozinhos, Jamie procura confortar o pai que chora convulsivamente. O pai enxuta-o, repugnado. Envergonhado. Só depois de uns minutos é que abraça o filho. O detetive, mesmo com imagens que atestam os eventos, não consegue conceber o motivo. Está preso nessa dúvida, inquietante. Oscilamos: entre a inocência do rapaz que se urinou quando a polícia entrou pela casa dentro e chorou baba e e ranho até chegar à esquadra da polícia. A ignorância do porquê, do como, da soma das partes que terá levado a este desfecho. A perplexidade velada, escondida atrás da normalidade esperada. As rotinas fazem-nos isto: repetimos os dias, fazemos as nossas tarefas e vamos ficando míopes para os detalhes, as nuances, os pormenores que moldam o mundo à nossa volta. Que mudam as pessoas que nos rodeiam: os nossos filhos, pais, amigos, companheiros, conhecidos. Não reparamos nas pequenas pistas. Isoladas, pouco revelam. É preciso somar, observar, atentar. É preciso presença. Consciência. Sentido crítico. A batalha é desigual nos dias que correm.

Educação / Sociedade

A escola é composta por vários atores: alunos, professores, pais. Em Portugal, é suportada por várias estruturas: ministérios, IPSS, estado. É o mais nítido reflexo da comunidade onde se insere. As pedagogias vigentes estão obsoletas. Ainda tentam servir o propósito inicial: criar cidadãos que saibam obedecer e que tenham ferramentas intelectuais para poder aprender uma profissão. Fomentamos a obediência cega, a aprendizagem através da memorização (sem espaço para o pensamento livre, crítico e o diálogo enriquecedor) e perpetuamos os padrões e valores sociais dos pais, professores e espaço escolar comunitário. É a receita para o desastre: criamos desigualdades entre alunos e a sua capacidade e ritmo de aprendizagem. Ostracizamos a tipologia de criança que tem dificuldade em enquadrar-se nesta fórmula. Não respeitamos a carreira docente deixando os professores em condições precárias e há décadas a lutar por melhores condições salariais e de trabalho. Os encarregados de educação não participam, desresponsabilizam-se. Não há tempo para participarem e integrarem o processo escolar. Em casa, não há tempo para acompanhar o percurso escolar a nível prático e com suporte emocional. O número de horas de trabalho, de deslocação para o emprego, de logística domiciliária e familiar não facilita. Se somarmos a tudo a alienação provocada pelos ecrãs, a falta de leitura e conversas com espírito crítico então temos que assumir que falhámos em todas as frentes. Que precisamos repensar o que queremos das nossas sociedades e, acima de tudo, o que queremos fazer, de forma ativa, para atingir essa mudança.

Não conheço a realidade das escolas britânicas, mas pareceu-me parecida com a nossa: salas de aula cheias de alunos desinteressados, recreios cheios de bullying, violência e misoginia. As crianças formam-se com a cultura vigente: com a objetificação constante da mulher no discurso publicitário, nas piadas fáceis dos pais, familiares e amigos, na falta de representatividade das mulheres em cargos administrativos, de chefia ou opinativos. No incentivo da competitividade, da agressão, da ausência de emoções nos homens. Abramos jornais, vejamos telejornais, consumamos redes sociais e vemos que os fazedores de opinião mais populares – e mais popularizados – são homens. Isto não é acaso, é produto de uma organização patriarcal. Isto transborda para as escolas, através da reprodução dos exemplos que as crianças vêm. Pela socialização, desde tenra idade, ao binómio mulher-cuidadora-frágil e homem-corajoso-previdente. A precarização do ensino, perpetuação de padrões de uma masculinidade pouco saudável. A constante objetificação das mulheres nos media, nas séries, nos filmes, nos reels, nas stories e em todo o lado, cava mais fundo este fosso. Precisamos de agir nas nossas casas, mas também intervir ativamente nas escolas. Denunciar comportamentos menos adequados, fomentar hábitos saudáveis, consciencializar para os perigos da exposição precoce e prolongada aos ecrãs. É um processo multidisciplinar fazer desta sociedade uma versão melhor e mais respeitosa. Vai dar trabalho a todos.

Imaturidade / Literacia Emocional

A adolescência é um turbilhão de emoções e hormonas que acontece simultâneamente num momento onde somos mais permeáveis. É aqui que cimentamos as fundações de quem vamos ser em adultos, onde adoptamos as nossas referências e começamos a pensar em quem seremos. Experimentamos vários papéis; alguns conseguem saber parcialmente quem são. Outros transformar-se-ão em adultos sem puto de ideia do que andam aqui a fazer. Destes últimos, nos quais me incluo, uns vão conseguir ir descobrindo isso na idade adulta. Outros permanecerão seres disfuncionais. É esta a importância dos anos formativos (até aos 7 anos) e dos que lhes seguem até à idade adulta. O que nutrimos física, emocional, social, cultural e psicologicamente às crianças é a argamassa que as vai definir. Não há como contornar este facto. Como pais ou cuidadores, se atalharmos nalgum destes processos haverão consequências. Se para a nossa paz de espírito à refeição enfiamos desde tenra idade a cabeça das crianças em ecrãs, há uma consequência. Se as expomos ao algoritmo e carrossel dopamínico dos vídeos das redes sociais, há consequências. Se fomentamos uma alimentação desequilibrada e pouco saudável, há consequências. Se lhes permitimos navegar sem supervisão na internet, sem noção do que estão a ver ou a consumir, há consequências. Se lhes permitimos hábitos e rotinas de higiene de sono desreguladas, há consequências. Se os deixarmos consumir conteúdos inapropriados, há consequências. É esta a parte difícil da parentalidade: é lutar contra o facilitismo e o laxismo e ter o trabalho de fazer diferente e melhor do que a sociedade nos oferece ou impõe. Tempo.

A psicóloga no terceiro episódio tenta ler a linguagem corporal e soma à sua avaliação a conversa de quase uma hora que tem com Jamie. Recebemo-lo inicialmente quase como uma criança, igual a tantas outras. Há uma infantilidade inocente nos gestos, nos trejeitos, nos sorrisos. Mas são intercaladas por esgares que escondem algo. Olhos que viram coisas que não conseguem desver. A conversa avança e há uma tentativa conversacional para criar uma ligação, empatia. Não é a primeira vez que se encontram. Há pontos de aproximação. Mas as perguntas começam a focar-se na percepção de Jamie sobre si mesmo e sobre as mulheres. Primeiro como ele vê a mãe, a irmã. As dinâmicas. Como vê o pai, as dinâmicas dele com a mulher e a filha. Como Jamie vê e interpreta tudo isso. Começa a gerar-se um desconforto no corpo de Jamie. Há um incómodo com as perguntas. A desconfiança instala-se. Depois, lentamente, a hostilidade. Quando é emocionalmente encurralado, mostra os dentes. Misóginos. Comenta que ela o quer manipular, dando a entender que é prática comum nas mulheres. Todas iguais. Grita, assusta-a, e gosta dessa sensação de poder, de dominação. Mais tarde, volta a gritar: a psicóloga faz um gesto ao segurança que os vigia que não é preciso ele entrar e Jamie irrita-se ainda mais, chama-a de Rainha que com um gesto comanda os homens. Volta a mostrar os dentes. Não é uma reação inteligível, está longe do córtex pré-frontal. É algo animalesco que lhe foi incutido: um desprezo com as mulheres e uma noção de direito a oprimir, a ameaçar, a exercer poder sobre. O monstro já não se esconde. Depois das explosões, pede desculpa, reconhece que não devia ter agido assim. Mistura-se a criança e o monstro. O sorriso e o rosnar.

“The old world is dying, and the new world struggles to be born: now is the time of monsters.” ― Antonio Gramsci

Responsabilidade / Consequência

Comecei por escrever neste cantinho digital com grande enfoque na parentalidade porque acho, e já aqui escrevi centenas de vezes, que devemos ser o exemplo que queremos moldar para os nossos filhos. Principalmente nos anos iniciais, formativos. A fórmula é simples: devemos fazer as coisas da forma que gostaríamos que os nossos filhos fizessem. Refletimos sobre as nossas intenções e tentamos agir com conformidade. Quando o meu primeiro filho nasceu, senti que já não havia uma aldeia para o criar. Que o isolamento diário dos núcleos familiares faziam com que, na prática, apenas os progenitores arcassem com todas as responsabilidades e logísticas. Estava enganado. A aldeia continua a existir. Já não é composta por avós, tios, primos e vizinhos. A aldeia agora são os conteúdos televisivos, as redes sociais, os agrupamentos escolares, os amigos na escola e fora dela. As nossas intenções são constantemente minadas pela estrutura pedagógica muitas vezes obsoleta. Pelos professores desmotivados que já não querem saber – salvo honrosas excepções. Pelos colegas cujos pais vivem numa espécie de inconsciência coletiva induzida, apáticos e ignorantes dos conteúdos e influências nos seus filhos. É estrutural: organizamos a sociedade desta forma, o nosso consentimento e percepção é manufaturado pelas narrativas vigentes, controladas por uma minoria de interesses, grupos, pessoas. A decadência tem sido gradual: fomos perdendo noção das pequenas coisas, cedendo a nossa atenção a rotinas impostas, abdicando de valores e direitos em detrimento de conforto mais imediato.

Vemos tudo isto que elenquei no último episódio da série. Somos confrontados com a alienação dos pais perante os seus filhos. E sentimento de que podiam ter feito mais. O pai repete várias vezes: “I should have done better”. Devia ter feito melhor. Pois devia. Pois devíamos. Pois devemos. Porque há um trabalho de intenção e presença que os nossos filhos precisam que seja feito da nossa parte; pelo exemplo, claro, nunca pelas palavras. E as escolas precisam de se reformar e repensar a forma como ensinam e integram a diversidade dos alunos. E como sociedade temos que repensar a nossa relação com os ecrãs, com as redes, e com os conteúdos que consumimos. Precisamos pensar de forma crítica para fomentar o mesmo mecanismo nos filhos. Nos seus colegas e pais. Nos professores. Não podemos deixar a roda dentada continuar a girar se o resultado final está a pôr em perigo os nossos filhos e, em última análise, a nossa cultura e tecido social. A responsabilidade é de todos, assim como as consequências.

Finalizo com outra coisa que me deixou desconfortável na série. Há, em várias alturas, uma certa responsabilidade velada da rapariga assassinada. Porque ela é que praticou bullying, e gozou com o rapaz, e o acusou de ser um incel inepto e inapto socialmente. É para mim a grande falha da série: a necessidade de reforçar a narrativa com causalidade específica. Ajuda a ação fílmica a desenrolar-se. Mas que neste caso volta a colocar o ônus no sítio errado: nas mulheres. Como se a culpa de ter sido morta fosse da vítima. Não. A culpa é do rapaz e dos múltiplos fatores que contribuíram para que isto acontecesse. Os seus amigos que frequentavam a mesma manoesfera e que facultaram a arma do crime e evitaram falar do que se passou. Os alunos da escola, selvaticamente misóginos, violentos sem respeitar os limites dos seus pares e professores. Os professores que não têm ferramentas pedagógicas e emocionais para lidar com os jovens de hoje em turmas sobrelotadas. Os próprios jovens que são o reflexo dos seus pais, alienados, repetem os padrões de machismo tóxico, estrutural e reduzem as mulheres a meros objectos. E depois vêem nas redes conteúdos que reafirmam estas crenças, que reforçam a mensagem, em idades onde as mentes são permeáveis. O tempo de agir é agora.

Abraço-vos,

João


  • Há livros que nos enfrentam. Cujas particularidades nos deixam boquiabertos, fascinados com o que é possível com a literatura. Caruncho, da Layla Martinez, é um desses livros. Uma belíssima recomendação que me fizeram na Flâneur, no Porto e que sei de fonte segura que é também uma preferência de outras leitoras aqui do burgo. Certo, ? O livro fala sobre o negrume que o patriarcado instala onde toca, de rancores que trespassam gerações e sempre com um elemento de terror que funciona como cenário, como textura do que se passa na história. Fala sobre ódio, sobre classes, sobre diferenças. Sem nunca nomear personagens. Está escrito de uma forma que achei muito original, com alguns elementos do realismo mágico sul-americano, mas com uma personalidade muito própria. Das coisas mais originais que li nos últimos tempos e sem dúvida os dos preferidos do ano


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13 comments

  • Raquel Dias da Silva Maio 16, 2025 at 10:50 am - Responder

    Gostei muito desta reflexão. Ainda não vi a série Adolescence, mas quero muito ver (mesmo sabendo spoilers), que na verdade já imaginava quando percebi do que se tratava. Deixa-me muito nervosa pensar que a minha filha vai crescer e que eu posso educá-la para não fazer bullying a ninguém e para ser bondosa e que mesmo assim pode haver algum maluco que lhe queira fazer mal 😢

    • João Azevedo Maio 16, 2025 at 7:31 pm - Responder

      Também fico ansioso a pensar no futuro dos meus dois filhos. Que mundo vão eles encontrar. Mas também tenho fé que cá por casa lhes daremos as melhores bases para enfrentar o mundo. O resto não se controla. Alea jacta est!

  • João Madureira - Nutricionista Maio 16, 2025 at 5:00 pm - Responder

    Excelente texto, muito alinhado com o que penso, com o budismo.

    Não vi a série e não planeio especialmente ver, mas também não digo que não. Na realidade os únicos objetos culturais que consumo neste momento são música clássica, livros de qualidade, e conversas interessantes.

    Não é bem como digo: também consumo Facebook. E aí vejo algo que é um pouco bizarro. Eu vejo claramente que muita gente tem padrões disfuncionais, mesmo os mais alinhados com a minha visão de compaixão e sabedoria. Até vejo isso nas conversas com o meu pai, que admiro imenso. Eu também devo parecer disfuncional, pelo menos pareço-me assim a mim próprio.

    Sinto, que como dizes, a luta é muito desigual. Forças titânicas estão erguidas contra o bom senso natural das pessoas. As crianças vão para a escola para perderem o seu bom senso e para lhes incutirmos, muitas vezes de forma forçada e completamente desinteressante, o que achamos que é o bom senso, que não é mais que as nossas neuroses coletivas.

    Para mim a prática budista é algo que me dá muita força mental. Amor próprio e amor aos outros, amor à verdade, à calma, e à sabedoria.

    • João Madureira - Nutricionista Maio 16, 2025 at 5:12 pm - Responder

      E talvez seja mesmo assim que as pessoas deviam ser: estranhas umas para as outras, mundos paralelos ricos em significados que nos atordoam de tão diversos.

      Mas não deixa de ser também evidente que a nossa sociedade é responsável por criar deturpações nefastas nas nossas mentes.

    • João Azevedo Maio 16, 2025 at 7:30 pm - Responder

      Sem dúvida que somos o produto da sociedade. Para o bem e para o mal. Mas também podemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Um abraço!

  • carolina novo Maio 20, 2025 at 10:53 am - Responder

    Este texto está excelente, excelente, João. Eu ainda não vi a série, por isso sinto que não tenho muito a acrescentar nesse sentido, mas a tua reflexão ultrapassa largamente o produto audiovisual e é extremamente relevante para olhar para tudo aquilo que é hoje a sociedade e, sobretudo, os cantos escuros da sociedade que — tal como tu dizes, por desconhecimento, cansaço, por estarmos em piloto automático, por estarmos alienados — nos escapam ao olhar e à crítica.

    Tocaste em pontos muitíssimo importantes, e fizeste-o de forma incrível, por isso não tenho nada a acrescentar, mas uma das coisas de que me lembrei enquanto lia (e que tu mencionas, embora com outras palavras), é como tudo isto tudo se relaciona com a desumanização e instrumentalização da vítima/das mulheres. Há uns tempos investiguei e escrevi um artigo sobre o fascínio cultural e o mito criado em torno do corpo feminino morto, que vemos explorado de todos os ângulos possíveis nas séries de true crime. Eu confesso-me parte do problema — também eu as vejo, e também eu me interesso, talvez desmedidamente, em saber como tudo aquilo aconteceu. Mas o que na altura tentei fazer foi, entre outras coisas, perceber não só como se cometem aqueles atos de violência extrema — e, mais do que isso, de formas totalmente automatizadas e despersonalizadas, como se fosse somente mais um gesto do quotidiano — e como, depois, consumimos essas imagens muitas vezes quase da mesma forma. E claro que há imensos argumentos e teorias para isto, mas há uma autora que usa um termo que acho interessante, e que ajuda a justificar o porquê da normalização desta violência contra certos corpos (e não contra outros): é o “discourse of disposability”. Ela advoga que, com a globalização e o poder avassalador do capitalismo, a mulher, agora integrada no mercado de trabalho e com publicamente mais direitos, é no entanto relegada para o fundo, para o espaço de “descartabilidade” e substituição; ainda que colocada, na teoria, no mesmo lugar dos homens, continua a ser encarada como aquela que se poderá sacrificar, se necessário. Há também quem use o termo “necropornografia”; nestas narrativas que expõem, violenta e cruamente, mais do que qualquer outro, o corpo feminino morto, há claramente sintomas sobre questões muito maiores sobre a sociedade, como também sinto que a ‘Adolescence’ mostra.

    Tudo isto é sintoma/resultado/produto de tantas outras dinâmicas e padrões do mundo em que estamos. Por outro lado, há quem também relacione tudo isto — a violência, particularmente na adolescência, o desprezo misógino, o consumo aparentemente normalizado destas imagens (mesmo por quem comete os crimes, que depois, como bem dizes, é uma criança outra vez, quase como se não tivesse noção do que aconteceu) é resultado de uma tendência de dissociação da realidade. Há uma autora que explica que, com tudo a que nós (e os miúdos) somos expostos, tudo aquilo pelo qual somos moldados, a rodinha do hamster em que estamos todos, todos os dias, sem prestar suficiente atenção, favoreceram uma cultura de “falsa-repressão”. Isto é, como passámos a ver (quase) tudo através de um ecrã, criou-se uma certa onda de “desejo e ansiedade” em relação à violência. Ela é consumida através dos meios digitais, mas é como se não houvesse ligação com a que acontece na vida real. Há uma dessintonização e alienação que ‘nos’ levam a acreditar, de forma totalmente sub/inconsciente, que aquilo que se vê não se ancora numa violência real. Quando tanta gente fala sobre como os miúdos confundem realidade com ficção e são extremamente violentos uns com os outros quase como se não “entendessem o que estão a fazer”, sinto que isto é algo importante a mencionar. Hoje em dia quase tudo no nosso mundo tem uma ‘substituição estética’ no mundo virtual — acedemos à substituição irrealista de tudo aquilo que se passa, a sério, cá fora. E com isso bem, claro, a dessensibilização e normalização da violência. Já nada nos choca, nada surpreende, nada é suficientemente cruel.

    Bem, se calhar este comentário foi num caminho completamente aleatório que não tem nada a ver com o que tu, tão bem, expuseste. Espero não ter sido de mais, mas pus-me a pensar e acabei por me lembrar destas coisas. Parabéns pelo teu texto, João. Nem consigo imaginar como deve ser tenebroso ter filhos e ter medo de tudo isto que não conseguimos controlar. No entanto, tenho a certeza que estão, pelo menos dentro de casa, a fazer o melhor trabalho possível, e isso já conta muito. Um abraço!

    • João Azevedo Maio 20, 2025 at 1:44 pm - Responder

      Obrigado, Carolina. Em primeiro lugar, recomendo-te ver a série. São quatro episódios que valem bem a pena, apesar da dureza do tema. Depois, quero agradecer esta tua mini dissertação (sempre bem-vinda, gosto de boas exposições de ideias). Estas referências do “discourse of disposability” fizeram-me todo o sentido. Quando a ligaste ao culto/fascínio do corpo morto da mulher ainda me fez mais sentido. Porque é um reforço social e cultural do verdadeiro papel da mulher nesta sociedade patriarcal: é um objeto cuja utilidade se resume, demasiadas vezes, ao prazer/olhar/fantasia masculino. Findo esse prazo de validade – porque o há, sejamos honestos – essa “disposability” aumenta exponencialmente. É muito interessante refletir nas causas, que num sistema como o nosso acabam por invariavelmente dar ao mesmo: manutenção do privilégio de classe, género, raça. E não acho que tenhas ido viajar na maionese nesta tua observação. Pelo contrário, acho mesmo, mesmo, que se liga muito bem com a temática e problemática da série, e sobre o que eu escrevi. Infelizmente, sinto que este discurso se fica pelas nossas bolhas e é muito difícil de ter com pessoas com outras sensibilidades ou sentidos críticos.

      • carolina novo Maio 22, 2025 at 8:54 am - Responder

        Vou ver sem dúvida, João! Fiquei ainda mais interessada em ver depois de te ler; confesso que quando a série saiu e toda a gente a comentava um pouco ao desbarato, decidi adiar um pouco. Mas agora que a poeira acalmou e começo a ler reflexões super interessantes como a tua, fico muito curiosa em ver. Ainda bem que não te chateei muito com esta mini-dissertação e que algo do que disse foi útil! Claro na ‘Adolescência’ haverá muitas outras coisas a considerar, nomeadamente sobre a fase da vida que é, as suas particularidades, etc. Isso deve dar pano para mangas também. Mas acho que no fundo sim, tudo isto, esta desconexão com a violência real e o fascínio e/ou alienação pela transmitida, acho que vêm de muitas dessas causas e que desempenham o seu papel em tragédias como esta.

  • carolina novo Maio 20, 2025 at 10:55 am - Responder

    PS: Sim!! Leiam o ‘Caruncho’. O João tem razão em tudo o que diz sobre ele, e eu, se puder, meto um exemplar nas mãos de toda a gente para que todos experienciem a viagem que é lê-lo. Livro incrível, quem me dera poder lê-lo pela primeira vez. Obrigada por mencionares 🥰

    • João Azevedo Maio 20, 2025 at 1:46 pm - Responder

      Eu entretanto estou a ler um outro livro, do Francisco Mota Saraiva, cuja escrita também me está a impressionar muito. É diferente, muito única (pelo menos para mim) e o que inicialmente me começou a parecer uma valente estucha, está-me a agarrar como não pensei ser possível.

      • carolina novo Maio 22, 2025 at 8:55 am - Responder

        Ah, que incrível!! Qual é o título? Agora fiquei curiosa ☺️

        • João Azevedo Maio 22, 2025 at 11:49 am - Responder

          Morramos ao Menos no Porto, do Francisco Mota Saraiva. Entretanto terminei e ainda o estou a digerir. Mas gostei. É muito fora da caixa.

          • carolina novo Maio 24, 2025 at 10:11 pm -

            Pelo nome já estou curiosa! E pela tua descrição, também. Vou apontar, obrigada!

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