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Poemário: "Adeus" de Eugénio de Andrade

On Fevereiro 12, 2025porJoão Azevedo

Enchi-me de coragem na semana passada e gravei um poema da Maria Teresa Horta. Achei que era o mínimo que podia fazer na semana em que a perdemos. E decidi continuar a publicar um poema por semana: por agora, às quartas. Porque acho que um pouco de poesia a meio da semana não fará mal a ninguém. Indaguei junto do chat aqui do burgo que poemas e autores faria sentido ler aqui. O desta semana foi sugerido pela Raquel do Canto da Sereia. Se quiserem, deixem por lá sugestões para próximas leituras.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro
nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um
ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes
verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um
aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
in Os Amantes sem Dinheiro

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

#weeknotes 1

De Cabeça Leve Num Mundo Pesado.

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