Olá,
Estou a escrever estas linhas e a sentir pressão para terminar esta crónica. Não quero que hoje seja o primeiro dia em que não publico. É bom saber que ainda não falhei uma semana de publicação em quase dois anos. Releio esta frase com orgulho. Alguma angústia à mistura, também. Quando esta crónica sair, estarei quase a regressar de férias com a família. Deixei-a agendada, para nem sequer levar o computador comigo. Quero, de facto, descansar, ler e usufruir de tempo com a minha família.
Sei que umas férias com crianças nunca são, verdadeiramente, férias. Já aqui escrevi sobre isso: são um momento diferente onde criamos memórias únicas com os nossos filhos. Porque o ambiente é diferente. Quebra-se a rotina. Abre-se um espaço novo onde podemos ser família. Bem preciso. Este ano tem sido duro, com demasiadas desgraças para gerir. Onde cuidar de outros foi sepultando o pouco tempo que tenho para cuidar de mim. Senti-me distante de tudo. Acho que me fará bem voltar a ser pai, companheiro, amigo a tempo inteiro.
Fisicamente, tenho-me ressentido muito. Há um cansaço permanente – quase existencial – que teima em ir embora. A falta de exercício e a compulsão por comida doce não ajudam. Tenho existido sem refletir sobre mim. Tenho-me enterrado na rotina do trabalho, dos livros, da escrita, das séries e os dias vão passando. Estou desalinhado com as minhas intenções. Sei o porquê mas tem-me custado muito realinhar. Li há pouco tempo a seguinte frase cujo autor não me recordo e vou parafrasear:
Não é difícil identificar um problema connosco. O difícil é agir para mudar.
É interessante a maneira como o ser humano se consegue acomodar com um desconforto, ou uma noção de que algo não está bem, e não fazer absolutamente nada para mudar. As adições são um bom exemplo, se bem que há particularidades nos vícios que os distinguem, por exemplo, do sedentarismo crónico. Sabemos que o exercício faz bem, que cria bem-estar a curto, médio e longo prazo. Mas procrastinamos esse desconforto até ser imperativo fazê-lo. Ou tarde demais.
Podemos, além disso, estar completamente alheios ao dito problema. A mente humana consegue pegar nesses tais desconfortos e torná-los hábitos, o costume, o de sempre. Nestas alturas é pior porque o primeiro passo é sempre reconhecer que há um problema. Há uma pressa em existirmos, parecida com a minha de escrever este texto, que faz com que estejamos sempre a olhar para o que aí vem, o futuro, o que queremos. É de onde vem a epidemia da ansiedade crónica que permeia a nossa civilização. Essa falsa noção de que temos de produzir para sermos alguém. De que há metas e objetivos que nos vão definir ou valorizar.
Quero aproveitar estes dias para pensar sobre o que eu preciso. Tem-me feito falta esse espaço. O espaço e tempos diferentes que se criam com as férias talvez ajudem. Espero.
Abraço-vos,
João
Esta semana a única recomendação é o descanso. E idas à Feira do Livro.
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