Numa das minhas últimas sessões de terapia enquanto descrevia a exaustão que andava a sentir, a todos os níveis, descrevi que me custava ler e que à noite apenas me sentia capaz de ver episódios de uma série leve e cómica. Ter que lidar com tarefas mentais e organizacionais era um suplício e os meus níveis de concentração andavam (andam…) pelas ruas da amargura. O meu terapeuta disse-me que tinha o copo cheio. A metáfora visual fez-me todo o sentido.
Eu vivo as coisas muito intensamente. As minhas relações, interesses, desafios profissionais. Em certas alturas, a intensidade está em alta rotação em todas as vertentes da minha vida e acabo por puxar demais do meu sistema. Demasiada carga mental. Isto misturado com as noites mal dormidas consequentes de ter uma criança pequena em casa, mais as insónias e despertares de ansiedade são a receita perfeita para o desastre. E, claro, nas últimas semanas atingi um limite. O copo encheu e transbordou.
A intensidade com que vivo as coisas faz-me precisar de calma e de parar. Sou um tipo de pessoa que precisa muito do seu espaço, do seu tempo e de existir sozinho. Exercer uma profissão criativa colaborativa, dois filhos e uma rotina bem preenchida pelas responsabilidades profissionais e familiares não me permite muito tempo para a solitude. Eventualmente, começo a somatizar e o meu corpo diz-me que tenho que parar. Fico com o sistema imunitário debilitado e acabo por ficar bastante doente. Foi o que aconteceu no arranque desta semana: alergias, constipação, febre e uma sensação de cansaço que rivaliza com a descrição dos doente de fibromialgia. Não parei voluntariamente e, então, fui forçado a parar.
É importante parar. Para recarregar baterias. Para ganhar um novo fôlego. É uma forma de auto cuidado tão importante quanto negligenciada. Precisamos cuidar de nós para estarmos aptos a cuidar dos outros e das nossas responsabilidades. Claro que também é necessário aprender a dizer não, a delegar, a impor limites. Mas mais importante que tudo isso, é saber quando parar.
Quando esta crónica vos chegar à caixa de correio eletrónica, faltarão 2 dias para o Natal. Quero aproveitar este época festiva para parar um pouco e estar com quem mais amo, de forma tranquila. Respirar um pouco. Parar.
Não tenho qualquer afinidade com o Cristianismo. Celebro o Natal como ocasião para recolhimento em família e gratidão imensa pelas bênçãos que tenho. Uma família única e diversa que mesmo andado às turras de vez em quando nunca nos deixamos de amar. À minha maneira, celebro o amor como melhor sei: numa mesa grande cheia de pessoas, conversas, risos e gargalhadas. É isto que levamos da vida, ouvi o Diogo Faro dizer n’A Beleza das Pequenas Coisas. E acho que culturalmente, devemos todos aproveitar esta época para refletir nalguns dos ideias Cristãos do Amor, Empatia, Partilha, Aceitação e Abnegação que encontramos nos evangelhos. Devemos exercitar por o nosso Ego em linha de espera para que possamos escutar a essência do que somos e estamos a fazer. E não cair na tentação, mesmo que de forma inconsciente, de sermos mesquinhos com requintes de malvadez uns com os outros. Gosto de pensar que não é esse o nosso modo padrão. Mas sei que é preciso sermos lembrados disso diariamente. Falo por mim, claro.
Também levamos da vida a poesia. Ela a mim vai-me salvando quando mais preciso e vai-me deixando pasmado pela força que tem. Hoje deixo-vos um que me parece apropriado para a quadra que se avizinha.
Da verdade do amor
Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito
pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados
não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor
José Tolentino Mendonça. em “Baldios” ed. Assírio & Alvim
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