Olá,
Quando me olho ao espelho não vejo o peso do tempo, mas sinto-lhe a urgência. Os dias tanto parecem demorar a eternidade infinita de um desconforto como escorrem pelos dedos, tal e qual a areia que agarramos no areal. As dúvidas vão surgindo: se vou conseguir, se estou a fazer bem, o que posso melhorar. Seguro-me à incerteza de não saber se essas inseguranças germinam dentro de mim, por criação espontânea, ou se foram plantadas pelo que me rodeia. Penso nas minhas intenções e tento alinhar-me por elas. Não é um percurso linear, pelo contrário. É dinâmico e sinuoso. Oscila, como os meus humores, as estações, os ciclos na natureza. Faço parte deste todo e teimo, como todos nós teimamos, em pensar-me separado. A soberba humana impele-me a ver como sujeito de um mundo que é o meu objeto. Na morte, nessa decomposição e processo bioquímico, somos levados de volta, ao nível molecular, para essa dimensão una que tudo inclui. Um lembrete útil para ter em conta a cada dia.
Mais do que reconhecimento, sei que a medida da minha grandeza estará na indiferença – que ainda não tenho, posso não vir a ter – relativamente a esse reconhecimento. Diogo Paiva, no primeiro número da segunda série da Revista Mamute.
Penso nos meus sonhos. Não os produtos oníricos que me surgem quando durmo, mas nas ambições e desejos que projetei, projeto e continuarei a projetar para mim. Inquieta-me (ainda) não saber se escrevo para me conhecer melhor, se para ser lido e ver reconhecidos os seus pensamentos e divagações. Podem ser os dois, em simultâneo. Faltar-me-á saber se consigo ser indiferente a esse reconhecimento. Sou humano e como tal gosto de saber que a minha humanidade é vista, reconhecida, tida em conta. Que é relevante. Talvez também queira ecoar na eternidade, deixar pensamento e escrita e vida para além da morte, para que a memória de quem sou não desvaneça com aqueles que me conheceram em vida. Vivemos famintos de encontrar quem nos veja.
Parece que foi noutra vida que ouvi o meu terapeuta perguntar-me como gostava de ser lembrado quando morresse. Não me recordo ao certo da ordem pela qual respondi, mas respondi que queria ser recordado como um bom pai, amigo, companheiro. Não sei se, na altura, tive a coragem de assumir que também queria ser lembrado como escritor. Demorei alguns anos a ser completamente honesto com ele. E comigo. Sinto que menti demasiadas vezes a mim próprio. Talvez por vergonha de almejar vir a ser um homem de letras, capaz de produzir textos que tivessem impactos nos outros. Pergunto-me porque tenho esse desejo? Não me bastaria escrever por escrever e o resto seria apenas resto? Talvez escrever seja a minha forma de contar histórias que contam as múltiplas formas como vejo o mundo e que quero partilhar. Lá está, ser visto. No processo, encontro-me. Percebo-me. Compreendo o que vivo de uma forma que, sem escrever, sem a lentidão que escorre das palavras, seria impossível.
Abro cadernos pretos, a esmagadora maioria incompletos, com décadas e não me reconheço nas palavras, naquele mundo, nos versos. Era outra pessoa, faltava-me viver. A erosão do tempo é um dos melhores ingredientes para um escritor. Comecei a escrever mais consistentemente já mais velho, adulto, pai. Não deixa de ser irónico que quando me falta o tempo é quando as palavras esculpidas pelos anos necessitam ser escritas. A minha caligrafia é demasiado parecida com a dos cadernos, mas sou outra pessoa. Livre do medo do que podem pensar do que escrevo; inconscientemente, sabia que o que escrevia quando era mais novo não era bom para ser partilhado. Havia técnica e ginástica frásica, gramatical, semântica. Mas um texto que valha a pena precisa de alma e acho que só descobri como a pôr em palavras mais tarde. Precisei viver, primeiro. Não há nada pior que ler algo sem alma. Sinto que preciso escrever mais, viver mais, para um dia escrever algo que seja indiferente ao medo de ser julgado.
Como o Diogo, posso não vir a ter essa indiferença. Sempre que inicio uma crónica, no programa onde digito os textos, passo sempre pela mesma frase enaltecida por um fundo amarelo: escreve para que os teus filhos te leiam. Estas crónicas são uma forma de registar o que fui pensando do mundo, da vida, da paternidade e trazem sempre presente o milagre que é ser pai. Há uma intenção nesta escolha: ver cada texto como se fosse uma conversa com os meus filhos. Uma reflexão que reflita os valores e crenças num dado momento da vida. Que lhes permita conhecer uma versão de mim em cada texto: que a dúvida me acompanha diariamente, o sentimento de insuficiência, a vontade de querer fazer melhor, a horrível sensação de não o conseguir. Aceitar as falhas como parte integrante do que somos e querer aprender todos os dias. Mais importante é voltar atrás, mudar de opinião quando confrontado com novas informações, realidades e perspetivas. Que as nossas crenças sejam fluidas, que possamos mudar. Ser fiéis àquilo que somos, dia a dia. Então, não pode existir indiferença no que escrevo porque têm leitores específicos. Os meus filhos. Que sabem que o pai escreve. E saberão, mais tarde, o que escreve. Para que escreve. Porque precisa de escrever.
Quero escrever as histórias que lhes quero contar. Que sejam narrativas, ou poemas, que traduzem a forma como vejo e sinto o mundo. Como o penso. Há uma certa urgência visceral nesta necessidade. Talvez os meus filhos sejam apenas um bom pretexto e a tal indiferença não passe de uma utopia: quero contar histórias ao mundo. E quero que sejam boas o suficiente para que perdurem além da minha memória. Estou a resvalar na megalomania, no egocentrismo e sinto vergonha de querer tanto, de querer tudo. Foi por isso que me tocou tanto a frase do Diogo. Porque também a minha medida de grandeza está umbilicalmente ligada à minha indiferença ao reconhecimento. Seja dos meus filhos, seja de quem for. Serei sempre melhor escritor quando escrevo no torpor de não querer saber o que os outros pensam. Verdadeiramente livre para existir em palavras o valor do meu peso, nem mais nem menos. Resta-me, então, escrever. O tempo logo dirá o que acontece a essa escrita.
Abraço-vos,
João
Há umas semanas escrevi aqui sobre a Revista Mamute. Entretanto, terminei-a. Faz-nos falta ter projetos literários assim, diferentes. Uma revista, numa era digital, repleta de textos de não-ficção literário. Esse género tão abrangente e diverso que se revela em cada uma dos autores que participam neste primeiro número da segunda série. Gostei mesmo muito, principalmente do Diogo Paiva que citei no texto de hoje.
Vi um filme que achei delicioso pela premissa e desenrolar da narrativa: “A Real Pain”, do Jesse Eisenberg. Está qualquer coisa. Diferente: porque acompanha dois primos que vão fazer a visita guiada à Polónia onde a avó em tempos viveu e sofreu às mãos do regime nazi. Depois estas duas personagens tão díspares acabam por nos arrancar sorrisos e angústias feitas de realidade. Tinha saudades disto num filme.
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Sem dúvida que seria melhor escrevermos sem medos nem filtros. Textos mais crus. Não temer o leitor. O tempo e o amadurecimento trazem isso, assim espero.
P. S.: A Real Pain é realmente bonito sem ser. Simples também, sem nenhuma simplicidade.
Adorei o “simples também, sem nenhuma simplicidade”. Foi o que senti com o filme. Não sei se o tempo e maturidade nos trazem isso. Talvez tragam alguma coragem para tentar escrever livres dessas amarras. O Saramago disse qualquer coisa parecida com “somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não’.
Dizes que escreves para que os teus filhos te leiam,mas para mim , escreves como se não fosse só por isso, só para isso,e no fim de contas,escreves como se as histórias que contas hoje, fossem um farol para o futuro dos teus filhos,e porque não, também um farol para todos nós.Obrigado por isso.
Obrigado pelas palavras, João. Em relação aos meus filhos, não sei se tenho a luz que gostaria de ter para lhes iluminar o caminho, mas gosto de saber que eles me podem conhecer de outra forma através da minha escrita. Um abraço