Olá,
Parte do ano visto o chapéu de professor num CTeSP. Antes de ser convidado para lecionar neste curso, nem sabia o que era esta categoria do ensino superior. É um curso técnico superior profissional, o primeiro na hierarquia, antes da licenciatura. Permite obter 120 ECTS e, a partir daí, ingressar no mercado de trabalho ou continuar os estudos numa licenciatura.
As minhas turmas são, maioritariamente, formadas por jovens com mais de 18 anos que, depois de não conseguirem ingressar nas licenciaturas ou CTeSP que queriam, encontraram nesta alternativa o seu percurso. Também há quem escolha esta formação como parte de uma intenção genuína, de um plano para se tornar profissional na área do audiovisual. Não estão no ensino obrigatório: escolheram vir para este curso. Nada os obriga a cursar esta área em específico. Tem uma forte componente técnica e prática que requer empenho e brio em cada disciplina. Um curso que almeja preparar pessoas para o mercado de trabalho vive deste tipo de pedagogia.
Tenho ficado com a terrível sensação de que algo vai muito mal no reino da educação e da formação das nossas crianças e jovens. Que, enquanto sociedade, falhámos redondamente. Que não soubemos adaptar a transmissão de conhecimento do mundo de uma forma que estas novas gerações possam compreender. E que, pior, lhes fomos roubando as ferramentas essenciais para que haja, de facto, uma compreensão do mundo que as rodeia. Mais: relegámos o pensamento crítico para as elites sociais, onde o privilégio, regra geral, concentra as capacidades de interpretação e as melhores práticas pedagógicas. O Estado Social de há trinta anos, que garantia uma maior equidade no acesso à educação, tem sido estropiado. Há menos qualidade no sistema de ensino, nas suas estruturas e na sua mão de obra, consequência do investimento público cada vez menor nesta área. A modernização custa dinheiro; a gestão e atualização de currículos custa dinheiro. É preciso manutenção nas escolas, formação contínua de professores, grupos de trabalho que acompanhem a velocidade da evolução tecnológica e as suas consequências nos métodos pedagógicos. Tudo isto precisa de investimento, parece óbvio. Mas a democracia liberal que temos sustentado com os nossos impostos privilegia outros setores, tem outras prioridades. Adiar a modernização do ensino e das suas infraestruturas é roubar aos futuros adultos deste país um conjunto de valências fundamentais. Temos estropiado a classe dos professores de recursos humanos, de qualidade de vida e de uma remuneração digna pelo seu trabalho. Claro que precisamos de desenvolver mecanismos de fiscalização do trabalho que realizam e avaliar quem, de facto, tem condições para assumir a responsabilidade de ensinar. Mas, se continuarmos a desfalcar o sistema público de ensino de recursos humanos, materiais e financeiros, vamos continuar a condenar futuras gerações a um subdesenvolvimento civilizacional.

As famílias, em casa, são tanto parte do problema como da solução. “Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem”, diz-nos a Bíblia. A ignorância não pode ser desculpa para tudo mas parece ser. “Perdoai-lhes, Senhor, porque eles sabem o que fazem”, escreveu Sophia. Estar perante um declínio acentuado nas aprendizagens das nossas crianças e jovens e nada fazer é mais do que negligência. É sermos cúmplices desse processo de retrocesso. Generalizou-se uma desresponsabilização que se misturou com fatalismo: “O meu filho está sempre agarrado aos ecrãs.” Ou “O meu filho detesta ler, prefere ver os filmes como eu.” Ou “Ele só joga na consola, não quer saber de mais nada.” Já ouvi inúmeras variações destas frases, como se estivéssemos perante inevitabilidades. Não são. Isto acontece porque há permissão dos pais. Conivência. É permitido às crianças crescer com ecrãs à frente. São-lhes permitidas horas de televisão, de tablets, de smartphones, de consolas. O uso abusivo das tecnologias mina a capacidade de concentração, o desenvolvimento intelectual e o pensamento crítico. E rouba tempo a outras atividades, sejam elas físicas, lúdicas ou intelectuais. A somar a isto, vem o exemplo: os pais constantemente agarrados às redes sociais, a ver stories, reels, posts. Em casa, incapazes de estar verdadeiramente com as crianças, criam este exemplo. Depois, não leem: lê-se pouco neste país à beira-mar plantado, já sabemos. Mas depois ouço pais queixarem-se dos filhos não pegarem em livros. Ora, se os pais também não, se não há livros em casa, se não há contacto com esse hábito, como hão de as crianças querer ler? Ou gostar de ler? Se são constantemente estimuladas por ecrãs num consumo passivo — no caso de séries e filmes — ou ativo — como nas consolas e apps — como pode um simples livro competir? Os responsáveis por estas tecnologias que sequestram a atenção e a concentração e as transformam num mercado são rígidos no tempo de ecrã dos seus filhos. Por alguma razão: conhecem bem o veneno que vendem. Mas dá trabalho e é desconfortável lidar com estas questões no dia-a-dia. Num mundo onde a precariedade define a maioria dos trabalhadores, o tempo para este cultivo pessoal e melhoria do ambiente familiar é um privilégio. E mesmo quem tem esse privilégio, de poder tentar fazer as coisas de outra forma, prefere o conforto do status quo. É mais fácil lidar com crianças anestesiadas por ecrãs. É mais fácil não ter de estar presente. Para deixar as coisas degradarem-se só é preciso não fazer nada. Qualquer melhoria dá trabalho.
Conversei sobre isto há pouco tempo num almoço. Concluímos, uma vez mais, que é preciso educação, educação, educação. O próprio sistema de ensino não está a conseguir modernizar-se nas pedagogias e métodos — continuamos o método de “banca” de que falava Paulo Freire. Depositamos conhecimento nas nossas crianças com uma fórmula única que recusa ver as diferenças entre cada aluno e o seu processo de aprendizagem. Continua-se a formar jovens debitando matérias, fomentando uma aprendizagem passiva, sem questionamento, que visa exportar bons operários e cidadãos — daqueles que não possuem ferramentas para questionar o estrume onde estão enterrados. É um sistema que serve um propósito nesta loucura liberal a que chamamos democracia e que ainda não conseguiu acompanhar o avanço tecnológico nem o mundo moldado por essa evolução. Torna-se um privilégio de poucos ter acesso a uma educação que contemple estas questões — o ensino público, de todos, é esvaziado enquanto as escolas privadas conseguem otimizar os seus alunos endinheirados.
Temos todos culpa no cartório. A passividade social é constantemente reforçada por uma cultura menos acessível e por um acesso fácil a conteúdos que não implicam esforço intelectual. Quem pensa de forma diferente é ostracizado e diferenciado: já tive estagiários que me chamaram intelectual porque li alguns capítulos de um livro numa hora de almoço ou porque utilizei uma palavra que eles não conheciam. Sim, estamos neste nível. O pensamento único, o molde dos ciclos noticiosos e, consequentemente, da opinião pública, o esvaziamento do espaço cultural, a simplificação — estupidificação? — dos conteúdos reforçam a fragilidade dos alunos, das famílias e da própria sociedade. Olho para os meus alunos com algum desalento. Há momentos em que acho que o meu filho de oito anos tem mais ferramentas críticas e lógicas do que eles. Sinto-os infantilizados e incapazes de lidar com o mundo real aos dezoito anos. E o pior é a total falta de noção da prisão em que vivem. Da caverna de Platão que os mantém felizes e contentes a pensar que os reflexos impermanentes são o tecido que compõe a sua realidade. Nunca vão sequer saber que há luz fora dessa gruta, e muitos nunca vão tentar trilhar esse caminho. Pergunto-me o que posso fazer. O que podemos fazer.
Na Pedagogia do Oprimido, Freire não arrisca soluções. No almoço onde estive, nas conversas que vou tendo, há ideias vagas, soluções sustentadas em opiniões. Escusamo-nos sempre, dizendo que não somos políticos. Mas talvez aí resida o problema. A classe política forma-se dentro de si mesma. Falta, diria eu, um componente do mundo real, das classes que não pertencem à elite, no processo de criação legislativa. Somos todos animais políticos, no final das contas. Este estado das coisas reforça a minha convicção de que é preciso construir bases sociais para conseguir ação e consequente mudança coletiva. Associações de cidadãos, de pais. Ações de formação, de divulgação. Cultura mais acessível. E a resposta, acredito, está cada vez mais assente na ação social com o apoio municipal local1, mas talvez tenhamos de deixar esta conversa para outra altura.
No Substack, o Pagomes está a tentar criar um clube de leitura feminista, fomentando o acesso a outros lugares de fala que não o dele. O Luís Leite – O que Faz Falta tenta mudar o mundo, uma conversa de cada vez, um livro de cada vez. Precisamos destas comunidades e espaços de partilha para que possamos democratizar o debate e o pensamento crítico. Para sermos exemplo para as gerações vindouras. Sinto que nos falta, a todos, uma intervenção mais laboriosa nas comunidades que estão à nossa volta. Contra mim falo: pouco ou nada faço para além de escrever e conversar. Sei que é preciso fazer mais e tenho planos de ser mais participativo nas comunidades em que a minha família se insere. Agora resta-me alinhar as minhas intenções com a minha ação. Se puderem, deixem nos comentários exemplos do vosso contributo nas vossas comunidades locais. Pode ser que me inspirem, e outros, a fazer o mesmo.
Abraço-vos,
João
- Acabei há umas semanas um livro maravilhoso daqueles que desconstruiu alguns dos mitos que tinha sobre pessoas comunistas e os seus dogmas. Continuo a estar de pé atrás em relação ao marxismo-leninismo: substituir a autoridade da burguesia pela do estado é substituir uma classe dominante por outra. O meu problema é sempre com a opressão e exploração do homem pelo homem. Não obstante, o jornalista Pedro Tadeu, jornalista burguês nas suas palavras, respondeu ao repto do Carlos Vaz Marques da Zigurate para explicar porque era comunista. E assim nasceu o “Porque Sou Comunista”, um livro pequeno de fácil leitura que elenca as mais de vinte razões pelas quais o Pedro se considera comunista. Há ali muita da cassete que conheci de perto com o pai, claro. Mas muitos dos pontos do autor assentam na premissa de uma luta por um mundo mais justo e melhor, com críticas concretas e materiais ao estado do mundo, em particular Portugal, nos dias de hoje. Um livro necessário, portanto, nos dias que correm. Relembra-nos da luta de classes e, mesmo diferente da sua concepção inicial, o quão válida ainda é. E o quão precisamos de por em andamento mecanismos de questionamento dos interesses que regem — ou tentam reger — o nosso país.
- Cheguei ao fim do “Breath of The Wild” da saga de videojogos da lenda de Zelda. Foi sem dúvida um dos melhores e mais bem construídos que já joguei. A história continua comovente e cativante e vamos desbravando cada vez mais detalhes à medida que vamos progredindo no jogo. É um autêntico tratado de jogabilidade e não admira que tenha sido jogo do ano em 2017. Há muito tempo que não ficava tão grudado numa coisa. Para os fãs do género, recomendo, e muito.
Podcast “Enterrados no Jardim” com António Brito Guterres
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