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Acaba aqui.

On Fevereiro 23, 2024porJoão Azevedo

Não se aceita, ponto.

Olá,

Permite-me um alerta à navegação desta semana: a crónica de hoje pode ter alguns gatilhos emocionais. Fala sobre violência doméstica e familiar, ciclos de violência e trauma geracional.

Estreou na semana passada um vídeo produzido pelo SNS que mexeu muito comigo. Alguém o partilhou numa storie do Instagram e, quando cliquei, não sabia ao que ia. Foram quatro minutos e vinte e um segundos intensos que espoletaram imensas emoções dentro de mim. O meu semblante mudou porque o que o vídeo narra atuou como gatilho da minha bagagem emocional. Porque mexe com um conjunto de valores e crenças que tento desconstruir (as que sinto que não me são úteis) e construir (as que entendo que me faltam).

A história começa com uma senhora a dar banho a um idoso. Percebemos a humilhação na cara do senhor e a ausência de empatia da senhora. Fiquei logo incomodado com a violência dos gestos, do trato. Na forma como conseguimos desumanizar quem nos rodeia e quem, em tempos, foi parte integrante do nosso núcleo. De que amámos. O senhor acaba abandonado a olhar para uma televisão, impotente, num canto de uma sala que poderia ser de qualquer um de nós. O ser empático que há em mim projeta-se no futuro e pensa “espero que os meus filhos nunca me façam isto”. Mas relembro-me que as ações não são estanques no tempo, nem podem ser compartimentadas em micro narrativas. O contexto confere outras perspetivas. Precisamos entender o todo e creio que em cada ato há uma causalidade, estejamos conscientes dela ou não. Em milissegundos, ainda antes de a narrativa prosseguir, reformulo o meu pensamento: “espero nunca fazer nada para merecer isto”.

O resto do vídeo é sobre um ciclo de violência. O mesmo idoso, quando jovem, a ignorar e a ser violento com a sua filha, a ser violento com a esposa ainda grávida, a ser violento com um médico num hospital e acaba com os exemplos de violência a que foi sujeito em criança. Há uma cicatriz que une o fio narrativo e é uma ótima metáfora para a marca indelével que a violência tem em nós. Ela acompanha-nos para o resto da vida. É uma história que fala sobre a perpetuação de ciclos de violência. Este vídeo foi feito no seguimento da campanha do Programa Nacional de Prevenção da Violência no Ciclo de Vida. Termina com uma solução simples: em algum momento, temos que decidir fazer de forma diferente daquela a que nos habituaram e como nos fez crescer e quebrar com o ciclo, com o trauma geracional, com a violência. Em vez de bater, ignorar ou gritar, escolher acolher, amar e abraçar.

love shouldn't hurt-printed on back of woman

Para mim, o vídeo foi devastador. Porque me recordou que há vários tipos de violência a acontecer no seio das famílias: física, psicológica, interpessoal, doméstica, familiar. Porque me relembrou que pertenço a uma geração onde muita dessa violência foi normalizada e tida como pedagógica. Muitas práticas abjetas eram consideradas educativas: prender a língua com mola por causa de um palavrão, deixar crianças de castigo num quarto escuro. Os exemplos são muitos. Crescer com esse condicionalismo torna-nos, na maioria das vezes, incapazes de questionar se há outras maneiras de se fazerem as coisas. Diria, até, que nos forma a crença que é normal, que é assim que as coisas se fazem. Que estas também são formas de amar. Parte-me o coração saber que existem pessoas que nunca terão a possibilidade de olhar para dentro, para a sua própria dor e dela tirar ilações, presas na ignorância e condicionalismo que, ainda hoje, tem o aval da sociedade. Porque este é um processo que requer ajuda externa e muita reflexão. E estes dois ingredientes encontram-se em processos terapêuticos a que a esmagadora maioria dos portugueses não tem acesso. E ainda há os que têm o privilégio do acesso mas sem a consciência necessária para olharem para dentro.

Cresci a ver inúmeras famílias presas a ciclos de violência. Cresci a achar que apanhar com um chinelo era normal e a consequência natural para uma ação irrefletida de uma criança. Vi estalos, palmadas. Cheguei a ver pais possessos a darem pontapés a miúdos em plena rua. Cresci a ouvir berros e descargas emocionais de adultos. Ameaças e chantagens emocionais de modo a manipular o comportamento das crianças. A afirmarem que estão quase a chegar a roupa ao pêlo (expressão transversal a tantas pessoas que conheci). “Em casa falamos”, este deslize freudiano que assume que a violência em público é condenável, mas no recato do lar não. Que estão quase a dar uma razão válida para chorar. Pessoas a culpabilizar crianças, a responsabilizar, a exigir pedidos de desculpas quando, muitas vezes, nem existiu entendimento do que de errado se fez. E comíamos calados, porque não se podia interromper os relatos dos pivôs da televisão, ou os jogos da bola, ou os comunicados de alguém de fato e gravata, como se os ciclos noticiosos não se repetissem ad nauseam. Onde não podíamos contestar, responder, questionar e agora – surpresa! – queixam-se de sermos uma geração pouco proactiva. Fomos crianças educadas na base do suborno e da recompensa para termos certos comportamentos e quando estas metodologias falhavam, o medo imperava. Questiono-me que tipo de respeito criamos e desenvolvemos por alguém com base no medo? Que tipo de ligação emocional se cria quando o medo condiciona? Penso que o medo no curto prazo é eficaz na manipulação de seres humanos, principalmente crianças, mas não é duradouro. Vemos isso nas múltiplas revoltas e insurreições contra instituições que se estabeleceram através do medo. As crianças não são diferentes e quando o período da dependência para subsistir termina, surgem os conflitos, as dissidências com os seus encarregados de educação.

https://instagram.com/p/C3ivLAMMCqo/

A violência marca. E há muitos tipos de violência. Não é só a agressão física que marca uma criança para a vida. Também há a violência psicológica. Assisti a centenas destes exemplos enquanto crescia, alguns dos meus pais e familiares, outros dos pais dos meus colegas, amigos e conhecidos. Não lhes guardo rancor, faziam o melhor que sabiam, com as ferramentas emocionais que tinham. Fico com a sensação que o problema é transversal. A violência psicológica pode deixar marcas ainda mais profundas no desenvolvimento de uma criança. Porque é um veneno cuja dose é administrada diariamente, sem causar grandes impactos no imediato e acaba por condicionar crenças e formas de olhar a vida. E, o pior, para além de normalizada, é que não é tida como violência. Acham que é uma prática pedagógica. Como quando ameaçam com castigos ou consequências constantemente e não percebem que estão a minar a auto-estima e a capacidade de uma criança se sentir suficiente só por existir. Quando criticam e dizem que são feios, porcos, mal educados porque não agiram dentro de uma expetativa e, em vez de terem acolhimento que as permita perceber o que corrigir, são desvalorizadas pelo seu comportamento. Como aqueles pais e mães que se refugiavam no trabalho e pouco mais que trinta minutos estavam com os seus filhos por dia e, porque eram pré-adolescentes ou adolescentes, se justificavam a dizer que lhes estavam a dar responsabilidade e autonomia. Esta desresponsabilização do cuidado é um forma de violência. Quando os remetem para ecrãs o tempo todo de modo a ter as crianças quietas e caladas. Vi, também, muito rancor de pais para os filhos. Por existirem e lhes roubaram a vida, por não corresponderem às expetativas, sejam elas quais forem. Vi guardarem ressentimentos durante décadas, presos a atitudes de crianças e adolescentes, incapazes de perceberem que os seus filhos cresceram, mudaram. A Mia costuma citar um ditado sueco que é qualquer coisa deste género: “Ama-me quando eu menos mereço porque é quando eu mais preciso”. O rancor consome e deixa marcas fundas na forma como, depois, essas crianças se vão relacionar consigo mesmas e com o mundo.

Os ciclos de violência na nossa sociedade têm consequências. Os filhos deixam de falar com pais, avós ou outros cuidadores. As crenças e práticas são continuadas com as descendências e poucos são capazes de ter pensamento crítico e auto-análise para fazer de outra forma. Destroem-se, de forma inconsciente, elos emocionais e afetivos. A violência continua; muitas vezes exponencial. O ciclo não quebra.

“Espero nunca fazer nada para merecer isto”. Este pensamento permite-me ser o único responsável dos meus atos e não remeter para terceiros a forma como ajo. Permite-me, também, ter a capacidade de perceber que quero fazer de forma diferente. Mas continuo a falhar. Ainda tenho comportamentos instintivos e viscerais condicionados pela forma como fui educado. Nos segundos, minutos, em que sou tomado pela amígdala e fico num estado de sequestro emocional, os meus padrões são constituídos pelos mesmos ciclos em que fui socializado – por pais, família, escola, sociedade. E não são de todo os melhores, na maioria das vezes. Preciso, sempre, ter o discernimento de tentar respirar ou afastar-me da situação de modo a deixar o córtex pré-frontal tomar conta do assunto e agir da forma que eu acho melhor: sem violência, assente em amor e empatia. A violência acaba aqui. Por escolha própria.

Esta campanha do SNS é de vital importância para a saúde mental do nosso país. Porque expõe um problema que, acho eu, é visto pela esmagadora da população como sendo “normal”. É este um dos tais “mitos do normal” que o Gabor Maté fala no seu último livro e que precisa de ser desconstruído. Precisamos parar para pensar nas nossas ações, na forma como nos comportamos com os outros e perceber se estamos alinhados com os nossos valores ou se estamos a perpetuar, inconscientemente, ciclos de violência.

Até para a semana,

João

P.S. Estive com um amigo que já não via há demasiado tempo. Nos últimos tempos tenho tentado voltar a estar com pessoas que sinto que me fizeram bem e ajudaram a construir uma versão melhor de mim mesmo. Foi um almoço maravilhoso onde a conversa fluiu, desde as nossas crias, aos nossos trabalhos mais recentes e, claro, música. Partilho convosco algumas descobertas que fiz com ele.

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