Olá,
Já aqui escrevi sobre aceitar a multiplicidade de papéis que me definem. Esas múltiplas personalidades, bem como o contexto e estado de espírito, definem as minhas escolhas. Sou uma amálgama de personalidades diferentes, com humores e particularidades distintos. Em adolescente, percorri muitas tribos e formas de expressão com que me identificava. Senti-me sempre no direito de ser quem queria ser a cada dia, mesmo que fosse antitético ao dia anterior. Porque estava à procura de quem era; em certa medida, ainda hoje procuro saber quem sou, quando em dias diferentes sou pessoas diferentes. Não acho que seja a um nível patológico de múltipla personalidade: no fundo, mantenho o mesmo núcleo, mas parece que o revestimento muda. Não é que seja pessoas diferentes a cada dia, mas sou partes diferentes da mesma pessoa. Às vezes sou essas mesmíssimas partes no mesmo dia. É uma tempestade constante em que vivo e que já me deu muito em que pensar.
Em certa medida, todos nós contemos essa multiplicidade dentro de nós. Mas sinto que as minhas oscilam com demasiada facilidade. Ainda não percebi se isto é uma coisa boa ou má; e não tenho a certeza que uma visão maniqueísta das coisas seja a mais útil. Pergunto-me como é que os outros percecionam este multiverso de Joões. E os meus filhos, como são afetados por tudo isto? A minha companheira? A minha família e amigos? Tento lembrar-me das múltiplas personalidades dos cuidadores com quem cresci e aprendi coisas bastante úteis. Pais, tios, irmãs, primos. Ler bem as pessoas para agir em conformidade com cada personalidade. Aceitar que todos temos os nossos humores e diferentes formas de estar na vida, em cada momento, em cada contexto. Que falta à humanidade estabilidade emocional e que é essa insuficiência que define a própria humanidade. Nestes paradoxos, que formam o tecido social, é onde nos encontramos com os outros. É onde me vou encontrando comigo. E, também paradoxalmente, onde somos alheios às nossas contradições.
Somos, portanto, galáxias. Temos sistemas de planetas e estrelas e buracos negros que habitam a nossa essência. Cosmonautas, navegamos essa infinitude que guardamos dentro de nós. É importante ter isto em mente, principalmente quando olhamos para os nossos filhos. Também eles são universos em expansão e, quanto mais novos, mais têm a descobrir sobre si mesmos Podem, tal como os adultos, apenas vislumbrar uma parcela ínfima daquilo que são ao longo da vida. Como responsáveis por eles, cabe-nos a tarefa de guiar os jovens navegadores pelo maior número de sistemas possível, com os melhores instrumentos de navegação para que possam, talvez um dia, galgar o cosmos que os compõem de forma livre e interessada.
Se habitam muito mundos em mim, habitam muitos mundos em nós. Deveríamos aceitar que as nossas razões podem ser apenas cosmogonias que estruturámos com base na interpretação da nossa experiência. E por isso, ter cuidado na forma como nos relacionamos com as crianças com quem nos cruzamos, para que lhes possamos dar fundamentos para interpretações com honestidade e verdade. O que dizemos, fazemos, mostramos e oferecemos marca, de forma indelével, quem olha para nós como referências e portos de abrigo. Contribuímos para criar multiversos em cada criança. Que se vão tornar em múltiplas formas de desempenhar papéis em diferentes contextos e momentos. Porque não existimos de forma estanque. Somos, também, o que nos rodeia em determinado ponto no tempo. A nossa multiplicidade é assim exponenciada. Poderíamos ser uma coisa, mas o sítio e a linha temporal são fatores que influenciam – e de que maneira – esta equação.
Por tudo isto, custa-me ver o egoísmo humano permitir-se conspurcar esses universos em expansão com críticas, mentiras, inverdades, violência, manipulação. Gosto – não, prefiro – acreditar que não somos opressores por natureza, apenas por condicionamento. Mas a verdade é que olho para os mundos em mim e, como carvão sujeito a pressão, transformaram-se em diamantes, cristalizados pela influência externa. Trago comigo essas pedras, nem todas preciosas, nem todas reluzentes e penso que gostava que os meus filhos carregassem, em grande maioria, as mais bonitas que pudessem existir. Que as pessoas na suas vidas quisessem usufruir de tempo com elas e cuidar delas, seja qual for o contexto, o momento e condicionamento. Porque é nesse altruísmo que, dentro dos nossos universos, encontramos o Amor. Aquele com letra grande e nos impele a querer estar com alguém porque sabemos que, no choque desses universos, nessa explosão cósmica que é a interação humana, podemos sentir o que é ser amados. Espero conseguir fazer o máximo, no melhor contexto e nas melhores alturas para proporcionar isto aos meus filhos.
Até para a semana,
João
PARTILH
Não tenho partilhado muita coisa por aqui, mas terminei a semana passada o livro do Maestro Martim Sousa Tavares, Falar Piano e Tocar Francês. Perdoando alguma altivez proto-inteletual – que às vezes pode ser pedante – foi das melhores coisas que li nos últimos tempos. Porque lança um olhar ao Humanismo da perspetiva da arte e do seu complexo papel na construção da nossa civilização. É um livro pequeno que se lê muito bem e reforçou-me a ideia da importância de expor os meus filhos a todos os tipos de cultura desde cedo. Mal não fará, e contribuirá para um portfólio mental do qual poderão extrair formas de expressar a sua criatividade.
Fiquei deliciado com este documentário sobre os últimos discos dos Dropkick Murphys. Fala sobre a colaboração deles com o arquivo de letras e canções do Woody Guthrie que culminaram em interpretações magistrais e contemporâneas da música da classe trabalhadora americana.
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