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Os meus mortos.

On Novembro 1, 2024porJoão Azevedo

Olá,

A primeira vez que ouvi falar de morte, foi quando o meu avô paterno faleceu. Eu tinha quatro anos. Não tenho memória dele a não ser algumas fotografias em que estou sentado no seu colo sorridente. O conceito de morte, então, era de alguém que já não era, já não existia. No meu cérebro de criança, era como se alguém que não conhecia não tivesse sido convidado para os eventos onde a família se juntava. A minha avó materna morreu muito antes de eu nascer e o avô pouco depois de eu nascer. A minha mãe ficava sempre emocionada quando lhe fazia perguntas sobre os seus pais. Ou sobre o tio Zoca, o poeta da família que a minha mãe adorava e com quem tinha uma relação especial. Morreu num acidente de automóvel. Esse sinto que conheço melhor, porque lhe li os livros e convivi com um poema emoldurado no quarto dos meus pais que, até hoje, perdura. Cresci, portanto, com muitos mortos que me eram lembrados com enorme saudosismo e terá sido esse um dos preços a pagar por ter sido um filho tardio e com grande fosso geracional para o resto da família. Sempre intuí que a saudade desses mortos provocava um sofrimento grande, lacrimejante, mas nunca senti essa dor. Fui crescendo com a sorte de ninguém de quem gostava – e tinha uma relação – ter morrido.

Quando tinha oito ou nove anos, os meus primos mais chegados perderam o pai num ataque cardíaco fulminante. Estávamos à espera deles no sul de França, para passarmos férias juntos e eles tardavam em chegar. Quando finalmente conseguimos telefonar a alguém, de uma cabine, a minha mãe recebeu a notícia. Lembro-me de a ver muito triste e amargurada, do silêncio da viagem de carro nos mais de 3000 quilómetros de asfalto que nos separavam de casa. Mas não senti a dor, ou a saudade, ou a amargura. A morte continuava a ser um conceito que devastava que me rodeava, mas a mim não. Empaticamente, partilhava a amargura dos que ficavam e tentava imaginar o grau de sofrimento que seria, mas em vão. Não conseguimos imaginar o inimaginável.

A minha primeira memória de um cemitério foi algures no sétimo ou oitavo ano. A mãe de uma colega – e amiga – morreu com cancro da mama. A turma foi em peso ao funeral e senti um peso no peito enorme perante o ar estarrecido da minha colega e da família. O silêncio do Alto de São João fazia jus à angústia que pairava no ar. Fiquei ali, destroçado, não pela morte em si, mas por quem ficava. Já com maior maturidade emocional percebi a dureza do que se estava a passar. As recentes recusas em poder subir lá a casa brincar, o ar cabisbaixo, a aparente normalidade. As mortes, quando anunciadas, podem ser devastadoramente silenciosas.

red rose shallow focus photography

A morte faz parte da vida, completa o seu ciclo. E criámos mitos e narrativas ao longo dos milénios para poder lidar e processar a sua natureza misteriosa. Olhando em retrospetiva, cresci num privilégio enorme de não ter sentido na pele a morte, a saudade e a ausência. Os próprios rituais fúnebres eram-me estranhos. Fui sempre muito resguardado de os presenciar. Mas há uma lição fundamental na morte: o luto. Ouvi há pouco tempo o Andrew Garfield definir o luto como amor que ficou por expressar – unexpressed love, no original. E este sentimento é parte integrante da experiência de se ser humano.

Este ano a minha mãe faria oitenta e dois anos. Já não a tenho comigo há dezassete. Tenho desconstruído muito em terapia o impacto desta morte na minha vida. Foi, sem dúvida, o pior momento da minha vida e onde descobri camadas de dor que nunca pensei serem possíveis de existir. A morte entrou de rompante na minha vida: mesmo sendo anunciada, como a maior parte dos cancros são, não deixou de ser dilacerante. Mudou radicalmente a forma como interpreto o mundo e como o vivo. E este meu amor que ficou por expressar ainda anda por cá, passados tantos anos. Tenho começado a falar dele com maior detalhe na terapia e vou pondo luz em fraturas emocionais das quais não tinha noção. A terapia é muito isto: levar à luz muitas das sombras que se escondem dentro de nós e integrar essas partes da forma mais salutar possível. Sinto-me bem quando penso que a minha mãe ficaria orgulhosa com quem me tornei. Sinto, também, uma saudade sufocante quando penso que os meus filhos nunca terão o seu colo, o seu riso, o seu amor. As ausências teimam em doer.

Acho que fiquei mais frio em relação a muitas coisas no mundo ou, simplesmente, a morte agudizou a minha imaturidade emocional. Há um desconforto enorme na ausência de alguém e acho que ainda não possuo ferramentas suficientes para lidar com esse vazio. Possivelmente, nunca as terei na totalidade. Fico com os meus mortos e com as lições que me deram, fosse em vida ou já na morte.

Até para a semana,

João


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  • Do mesmo realizador de Peaky Blinders, estreou este ano esta produção inglesa que tenho gostado muito de ver. Passada também nas Midlands, aborda várias questões pertinentes da altura (anos 70 e 80, IRA, pobreza, tribos urbanas). Com uma banda sonora de excelência, recomendo vivamente.

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