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Criar

On Dezembro 13, 2024porJoão Azevedo

Às vezes, é preciso fazer de forma diferente.

Olá,

Não que seja novidade para mim, nem tão pouco para muitos do que me leem, mas tenho uma necessidade imensa de criar. De construir pedaços de algo, de ver algo iniciar e tê-lo como meu. Há a óbvia buscar por reconhecimento e validação bem como uma profunda necessidade de expressão criativa. Sobre o que penso e sinto. Desde criança que o faço. Com a minha inépcia para o desenho, procurei fazer jornais na escola primária, escrever poemas, moldar figuras abstratas em barro, cantar, construir músicas. Também procurei na dramaturgia o fingimento criativo que me permitia ser quem quisesse, fosse nas brincadeiras ou no centro da minha imaginação.

Vejo o meu filho mais velho também a procurar as suas formas de expressão, muito focado no desenho. Gosta de criar narrativas e personagens e dar-lhes vida ao colocá-las num papel. Acho importante permitir-lhe esse espaço e incentivar esse processo. Nas últimas semanas ele afirma, convictamente, que quer ir para a faculdade de Belas-Artes. Quer ser artista. O meu coração de pai aperta-se perante a perspetiva de uma vida precária numa sociedade onde a arte é vista como algo acessório. Mas alegra-se ao sentir a genuinidade do seu desejo: quer desenhar e criar como meio de subsistência e não consigo imaginar nada de mais interessante.

Há uns meses fizemos uma alteração nas rotinas cá de casa que se revelou muito benéfica, para todos. O mais velho tinha direito a ver televisão antes do jantar, depois de terminado os afazeres. Notámos que ele assim que terminava os trabalhos de casa, ficava impaciente e a cirandar até chegar a hora de poder ver televisão. Brincava pouco, falava pouco, imaginava ainda menos. Depois via televisão e aquele tempo de final de dia não queria falar, nem interagir, e ficava frustrado com as interrupções. Resolvemos alterar o momento televisivo para depois do jantar. Tudo mudou. Passou a brincar mais, a ter iniciativa para criar projetos dele, conversa mais connosco. O tempo de qualidade em família melhorou substancialmente. Noto uma grande evolução na sua imaginação e criatividade.

water dropping on light bulb

Para podermos criar é preciso tempo e espaço. Permitir-nos o aborrecimento para, nessa estagnação, encontrar a faísca da criatividade. Mas precisamos de nutrir a mente, também. O Tim Armstrong dos Rancid disse muitas vezes: no input, no output. Nesse espaço e tempo em que nos encontramos com a criatividade, recorremos aos nossos arquivos sensoriais e de memória e, através deles, criamos. Como pais e cuidadores, temos como prioridade fomentar o interesse pela cultura aos nossos filhos, seja pelos livros, arte, exposições, filmes, locais. Daí acharmos que é importante fazer coisas diferentes nas férias e praticar o igual-valor com eles no que a cultura diz respeito: não os subestimar ou julgar incapazes de apreender o mesmo que os adultos. Estas exposições têm o seu impacto e são, à sua maneira, formativas.

Eu preciso de criar e uso muito a minha experiência de vida e o mundo que me rodeia como inspiração. Este cantinho de escrita digital nasceu da minha necessidade de expressar os meus pensamentos e sentimentos na jornada da parentalidade. A minha vida é indissociável da paternidade e, mais de um ano depois, faz-me muito sentido escrever sobre isto.

Escreve para os teus filhos te lerem.

Tenho isto escrito na página inicial numa das aplicações onde faço a gestão dos conteúdos que crio. É um mantra que me lembra qual o propósito deste Substack: escrever para que um dia os meus filhos me leiam, se quiserem. Também é o meu pretexto semanal para dar azo à criatividade; e funciona como um processo de reflexão e autoanálise porque, enquanto escrevo, compreendo o que penso e sinto de uma forma mais clara. Escrevo por muitas razões. E gosto da ideia de, no futuro, deixar este legado aos meus filhos. Para que eles sintam que podem criar o que quiserem, em liberdade.

Abraço-vos,

João

Para continuares a ler

Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

#weeknotes 1

De Cabeça Leve Num Mundo Pesado.

No comments

  • João Madureira - Nutricionista Dezembro 13, 2024 at 11:32 am - Responder

    Olá João, fica aqui uma sugestão de concertos clássicos gratuitos este fim de semana:

    https://rr.sapo.pt/noticia/vida/2024/12/06/concertos-gratuitos-trazem-um-natal-austriaco-a-lisboa/404754/

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