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Conto: Caril Goês

On Junho 12, 2026porJoão Azevedo
Photo by Raman on Unsplash

É Inverno. As ruas estão geladas, o frio corta, mil cortes que apenas encontram alívio ao sol. O comércio é o coração da Avenida. Pode-se viver uma vida inteira neste bairro e nunca precisar sair dele. As pessoas caminham nas suas pressas, conversando com quem conhecem e ignoram, imperiosamente, os restantes. Há um ritmo que se pode ouvir nestes dias: as solas dos sapatos de homens e mulheres e crianças dão uma cadência ao dia. Acompanham o movimento do sol e vão deixando de se ouvir à medida que ele se põe. Clac, clac, cloc, cloc. Cada vez mais baixo, mais espaçados. As passadeiras ficam sem gente. É assim que se ouve a noite chegar na Avenida. Caminha-se menos e a vida acontece dentro de casa.

Aníbal fechou a porta da entrada, vagaroso, carregado com sacos e o peso da sua existência. Foi direto à cozinha e, com esgares de um esforço no limite das suas possibilidades, pousou o saco no balcão. O cabelo que restava nas laterais da cabeça parecia menos branco com o pullover castanho e as calças cinzentas escuras. Por ser distraído, e pelos óculos redondos, chamavam-lhe muitas vezes Mr. Magoo. O motor do frigorífico rasgava o silêncio juntamente com as coisas a serem retiradas dos sacos. Os camarões congelados, as cebolas, os cajus, o caril de goa d’Os Quinhentos e o arroz. Todos juntos tinham memória, eram casa: Goa portuguesa, Basílica do Bom Jesus, as ruas de Panjim, chacuti, sarapatel, balchão, cheiros e sabores dos tempos de menino. Uma ambulância passou lá fora, na Avenida e a sua urgência foi-se afastando. Agora, somente o descascar das cebolas e a faca na tábua se ouviam e ecoavam pelos corredores vazios.

Noutra ponta da Avenida, pelas janelas da sala onde Manuel estava sentado, entrava o sol duro e frio da manhã. O tempo tem outro peso para quem viveu em África. Era este o mantra que usava para justificar as longas esperas enquanto a esposa se arranjava. Escolher a roupa, colocar maquilhagem, finalizar com batom e rever algumas dezenas de vezes o conteúdo da mala. Não era tarefa fácil: a mala de uma mulher contém um universo que só a ela faz sentido e diz respeito. Resignado, pegou no jornal, que acabara de dobrar a preceito, e começou a reler algumas das notícias. Pouco depois, ouviu o estalido seco do interruptor a anunciar a iminência da saída da casa de banho e os passos de Maria a ecoarem pela casa, cada vez mais altos e nítidos, até chegar junto dele. Havia um resquício de frustração no olhar de Manuel, aquele incómodo nas vísceras de quem sente que as coisas não estão a acontecer como queria. Mas amar também é isto. Sorriu a Maria enquanto voltava a dobrar o jornal e disse-lhe:

– Como sempre, estás linda. – só havia carinho nas suas palavras, parecia que nunca tinha havido lugar para a irritação mundana de há cinco minutos.

Maria carregava ainda a ansiedade de quem sabia que estava atrasada mas não podia sacrificar os seus rituais.

– As miúdas? – perguntou, um pouco irritada, enquanto vasculhava a mala. Depois elevou o tom: – Ana, Alda, é bom que já estejam prontas, não vamos chegar atrasadas ao avô por vossa causa.

– Estamos a ir! – responderam em uníssono duas vozes que pareciam distantes, vindas do canto da casa.

Com passadas leves, as duas irmãs, jovens adultas, foram ter à sala. Eram ambas morenas: Ana era alta e esguia e tinha a pele mais branca, com sardas. Alda era mais morena, muito magra e ligeiramente mais baixa. Era, também, a irmã mais nova.

– ’Bora? – inquiriu Ana – O Manuel está pronto?

– A mãe é que estava a acabar de se arranjar – irrompeu Alda –, nós estávamos no quarto à sua espera. – percebeu a impertinência quando encontrou, num ápice, o olhar reprovador da mãe e calou-se.

Maria encontrou o isqueiro e acendeu um cigarro.

Manuel levantou-se, pronto, decidido, ainda embevecido com a mulher que há um par de anos lhe dissera que sim, queria casar com ele.

– Vamos embora?

– Vamos – respondeu Maria entre o fumo que lhe saía da boca impecavelmente pintada com um vermelho que lhe assentava tão bem.

Cheirava a conforto na casa de Aníbal. Havia uma pontada de orgulho nos movimentos que fazia na cozinha: crescera num privilégio enorme, com criados, estudara Medicina na Metrópole e levara a vida toda uma vida de conforto em Moçambique, longe da cozinha. Vira tantas vezes a mãe e a empregada a fazerem o caril de camarão que sempre se sentiu capaz de o recriar com sucesso. E foi o que fez e voltou a fazer ao longo das décadas, já sem mãe, o único prato elaborado que se arriscava a fazer. As especiarias crepitavam na caçarola e os aromas das memórias abriam e enchiam a cozinha, o corredor, a sala, a casa. Juntou-lhe as cebolas e os cajus que iam ficando amarelados e minutos depois o leite de coco. Foi esta receita que conquistou o estômago, depois do coração, da sua querida Dulce. Ele gostava de pensar que tinham sido felizes: nasceu primeiro o Raúl, depois a Maria. O Cláudio nasceu por último, com um problema de má formação na cavidade abdominal, coisas da formação genética, mas Aníbal sempre acreditou no poder da medicina. Era um médico crente na sua arte. Perdeu a fé quando o filho mais novo morreu com sete anos, perante a impotência do pai, a incredulidade dos irmãos e o sofrimento atroz de Dulce. Alguém lhe dissera, na altura, que Deus nunca nos dá mais do que aquilo que possamos aguentar. Nunca se conseguiu recordar de quem lhe tinha dito esse lugar-comum; mas gostava de lhe ter perguntado, anos depois, se ainda acreditava nisso, depois do suicídio de Dulce. Toldada por uma depressão que começara no preciso dia em que o filho mais novo morreu, certo dia encheu-se de barbitúricos até parar o que lhe doía no coração. Afinal, nem todos temos arcabouço para os desígnios de Deus.

O sol ia alto a assinalar o meio do dia – intenso, grandioso, queimava ligeiramente. À sombra, rajadas gélidas receberam-nos na rua e, numa espécie de coreografia, foram puxando as golas dos casacos mais para cima e enfiando as mãos nos casacos enquanto saíam do prédio. Assim que dobraram a esquina, encontraram o calor do sol e puderam descontrair os corpos. Já na avenida, Manuel quis passar na garrafeira para comprar um bom vinho para o sogro. Ainda sentia que o tinha que impressionar, fazer com que gostasse de si. Era em vão, o esforço. Aníbal gostaria de qualquer pessoa que a sua Maria escolhesse para estar ao seu lado desde que não fosse o capitão, o primeiro marido. Afinal, Maria tinha sido educada para pensar por si mesma, tinha frequentado o ensino superior e acabava por pertencer a uma minoria de mulheres privilegiadas. O capitão preferia outra estirpe de mulher, mais submissa, mais recatada e menos pensante. Aníbal não era adepto desses gostos. Maria também não e, felizmente, acabou por pedir o divórcio.

Manuel escolheu um vinho do Douro, mais perto da sua Invicta natal. As meninas, como gostava de lhes chamar, estavam as três juntas e encasacadas em frente à montra do pronto a vestir e cochichavam. Maria debandou primeiro, com um ar sério, deixando as duas filhas a rirem baixinho.

– Estão sempre a pedinchar, estas miúdas – queixou-se Maria –, pensam que eu sou a árvore das patacas.

Manuel aprendera a limitar-se a escutar nestas alturas. As filhas não eram dele. A educação, a imposição de limites, as reprimendas, tudo isso era o papel de Maria. Manuel podia apenas ser simpático e ajudar quando lhe era pedido. De resto, calava-se e escutava, era o mecanismo de defesa que funcionava.

Ana e Alda acabaram por se juntar novamente ao casal e continuaram a caminhar pela avenida.

– Há muito tempo que avô não combinava almoçar connosco, é bom sinal – disse Ana, a querer que a última oração da frase fosse mais verdade do que desejo.

– Oh, eu até acho que o avô está a reagir bem à notícia. Talvez se esteja a fazer de forte, mas ainda ontem lhe liguei e ele parecia óptimo – Alda sempre fora a pragmática.

Maria não interveio. Havia um certo desconforto com a conversa: acendera um cigarro assim que o assunto veio à baila.

– A medicina está muito à frente. Hoje em dia um cancro não tem que ser uma sentença de morte – afirmou Manuel, sempre muito seguro, mas sem grande certeza, apenas a bondade da tentativa de animar a esposa.

Há umas semanas, Aníbal convidara-os para almoçar no restaurante chinês preferido de Maria. Contara-lhes do diagnóstico: cancro do pâncreas. Falou dos procedimentos, da evolução da medicina, das percentagens que, embora mínimas, ainda garantiam alguma esperança e qualidade de vida. Este tipo de medo fareja-se à distância quando vem de pessoas de quem amamos. Aquela estranheza inquietante que contrasta com um sorriso dócil; quando sabemos que, por trás da máscara, não está tudo bem. Maria planeia conversar com o pai depois das meninas e do Manuel terem saído. Há conversas que só se podem ter a dois e na certeza de não se ser interrompido.

Chegaram à porta e tocaram à campainha. Tocaram e voltaram a tocar. Não tinham as chaves de casa do avô Aníbal, pelo que decidiram correr para uma cabine telefonar aos bombeiros.

O caril ficou óptimo. Ficaria ainda melhor de um dia para o outro, mas Aníbal não comeria esse prato. Ia molhando o chapati – acabado de sair da frigideira – no molho e, a cada dentada, mais o passado lhe invadia a alma. Pousou o olhar na estante onde estavam as fotografias, ao lado da cómoda com a televisão desligada. Viu a sua Dulce, a sua Mariazinha e o Raul, o irmão mais velho demasiado parecido com ele. Sentiu pena por não ter guardado uma fotografia de Cláudio. Sucumbiram todas à loucura de dor de Dulce que insistiu em destruir tudo o que a pudesse fazer lembrar do filho que perdeu. Há dores que nos fazem fazer coisas ilógicas. Limpou o molho que teimosamente se agarrava ao prato com o último pedaço do pão. Ainda a mastigar esse final da refeição levou o copo à boca e bebeu o último golo de vinho que por lá andava. Levantou-se; o peso da existência, à noite, parece que pesa mais a partir de certa idade. Retirou tudo da mesa e levou para a cozinha: deixou somente o copo de vinho e a garrafa. A sala ficou vazia, guardada pelos olhares das pessoas nas fotografias. Também lá estavam Ana e Alda bebés, depois crianças, depois adolescentes. A água na cozinha corria a par com o barulho do esquentador. Ouvia-se o chocalhar dos talheres, pratos, copos. Depois, o silêncio que se instala, em crescendo, ao se fechar uma torneira. Ainda se discerniam algumas gotas por entre os passos e movimentos de Aníbal na cozinha. Gavetas, saco de papel. Por fim, desligou a luz da cozinha.

Regressou à mesa de jantar e sentou-se. Tirou do saco de papel uma caixa de comprimidos e foi tirando-os da lamela para cima de um guardanapo. Também encheu o copo de vinho e deu um valente golo. Depois de dispor os comprimidos todos num guardanapo, afastou-o para o lado e foi buscar duas folhas de papel e um envelope. E escreveu. Era uma escrita que arrancou cuidada mas que foi sendo intercalada com goles no copo de vinho. Eram palavras a mais, precisavam de mais vinho, pelo que encheu novamente o copo, batendo o gargalo no copo, com os movimentos mais soltos e descontrolados. Voltou a franzir os olhos – parece mesmo o Magoo – e continuou a escrever. As palavras já estão mais descuidadas, atabalhoadas. Iam dar trabalho a decifrar. Quando acabou, suspirou. Colocou as duas páginas que escreveu num envelope e deixou-o na mesa, do seu lado direito, com alguma distância. Tomou os comprimidos todos de uma vez e empurrou com vários goles de vinho. Encostou a sua cabeça na mesa, sobre os braços cruzados – dormitou muitas vezes assim na escola, em Goa, até ser surpreendido por uma reguada na mesa ruidosa que ameaçava que a próxima seria no corpo. Sentiu-se cansado. Não o cansaço de um dia grande, nem o que se sente depois de um grande esforço. Foi o cansaço de existir e cheio de certeza de que queria ser ele a decidir o rumo da sua morte.

Na cozinha, embrulhado num pano, estava o resto do caril. Estaria ainda melhor caso alguém tivesse fome depois de o encontrarem amanhã.

Este conto foi revisto pela Raquel Dias da Silva e, por isso, muito lhe agradeço.

Tags: Caril, Contos, Goa

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