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Crenças Crónicas

On Outubro 18, 2024porJoão Azevedo

O violento poder de contar histórias.

Olá,

Há algo perturbador na forma como a humanidade se organizou nos últimos séculos. Criámos narrativas que se tornaram crenças que se tornaram dogmas. Deixámos de questionar a moral, ética e sanidade da forma como agimos enquanto espécie. Nisso, as crianças conseguem ser grandes mestres e filósofas, que nos instam a reflexões inusitadas, fantasiosas mas muitas vezes necessárias.

Comecei há uns meses a devolver as perguntas mirabolantes do meu filho mais velho com mais perguntas. Em vez de ser eu a imaginar como seria uma cidade feita de doces e cair na tentação de lhe explicar o quão terrível isso podia ser para a saúde, pergunto-lhe a ele o que ele acha. Puxo pela sua imaginação e tento, nem sempre com sucesso, que ele chegue a algumas conclusões sozinho. Rodeia-nos um conjunto de regras escritas, e também por escrever, que condicionam comportamentos. Essas regras, aliadas a crenças profundas e enraizadas, podem ser tão benéficas como maléficas. Algumas das histórias que escolhemos acreditar – consciente ou inconscientemente – conseguem roubar-nos a empatia e a capacidade de compreendermos os outros. Na Alemanha Nazi, fomos capazes de teorizar e aplicar a melhor maneira de eliminar elementos indesejados pela ideologia dominante. Falo de seres humanos que foram desumanizados para poderem ser olhados como diferentes de nós, passíveis de ser eliminados, como fazemos com insetos que nos incomodam. É interessante que estas ideologias recorram muitas vezes a analogias com animais considerados pouco salubres para reforçar o ódio, asco e desconforto para com certas pessoas. Atualmente, assistimos ao mesmo em Gaza. Não deixa de ser irónico que as vítimas do Holocausto sejam quem perpetua este tipo de ódio e horror no dias de hoje. Nestas alturas, falta-nos pensamento crítico. Como podemos permitir certos comportamentos sem os questionar, sem os por em causa?

man holding Himalayan lamp

À medida que fui crescendo, fui percebendo o enorme poder das crenças na nossa civilização. Desde as estruturas civilizacionais, às religiosas, testemunhei o enorme poder da narrativa partilhada por milhares de pessoas. Mas este fenómeno também acontece à escala individual: quando, por exemplo, as nossas crenças são moldadas por visões distorcidas de factos ou de acontecimentos e se reforçam ideologicamente, num ciclo vicioso. Repetimos mentalmente as nossas interpretações da realidade e tornamo-las na nossa verdade. É este o perigo na falta de empatia: quando deixamos de conseguir colocar-nos na pele dos outros, dificilmente podemos considerar outras perspetivas que não a nossa. Talvez por tudo isto tenha em tão grande consideração a dúvida e o questionamento constantes. Porque só encontramos ignorância nas certezas e nos dogmas, e dificilmente poderemos crescer como seres humanos sem fazer constantemente perguntas e colocar em causa a ordem vigente do que nos rodeia. As nossas crenças têm, também, a força proporcional à nossa capacidade de as questionar.

Qui Bono?

Tenho-me tornado cada vez mais cético e acabo sempre por perguntar quem beneficia com cada crença, visão ou interpretação do mundo em que vivemos. Muitas vezes, somos nós os beneficiários das histórias que vamos contando e, agindo nesse instinto, achamos que a nossa visão é a mais correta, ou verdadeira, ou absoluta. Numa escala maior, as causas, crenças e ideologias operam da mesma forma: são perpetuadas no tempo porque há algo ou alguém que retira benefício disso, sejam formas de governo, de organização religiosa, produção industrial, etc. Talvez só possamos ter um entendimento profundo sobre cada narrativa que se cruza no nosso caminho ou mente quando ficamos abertos ao seu contraditório, sem julgamento. Nesta imparcialidade – muitas vezes utópica, bem sei – estará a virtude. É a tal existência livre de julgamentos, com uma mente aberta, plena de aceitação das coisas como elas são, de que o Budismo nos fala. Onde não há proveito algum a não ser o privilégio de estar no momento presente; aqui, neste espaço, podemos encontrar ferramentas para que as múltiplas histórias que gostamos de contar e ouvir coexistam. Até lá, sinto que estamos condenados a viver com esta miopia crónica que nos faz perder de vista o valor da vida humana e aceitar a lei universal de que todos temos o direito a uma vida digna e plena.

Até para a semana,

João


PARTILHAS

  • Muito a propósito do texto desta semana, vi o Zone of Interest, um filme magistral que retrata a vivência da família de um dos comandantes de Auschwitz, onde uma vida idílica e banal acontecia paredes meias com o campo de extermínio. Um filme que faz refletir na forma como podemos cegar com crenças, ou ser moldados por elas. A forma como uma narrativa pode roubar-nos a humanidade.

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Escotismo – Nas pisadas de Baden-Powell

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