Olá,
Não sei bem como pensar o ano que terminou há dias. O calendário gregoriano não é a estrutura cíclica anual mais relevante para mim: sem dúvida que o ano escolar faz-me mais sentido para balizar intenções, reflexões e arranques de novos projetos pessoais, já aqui o escrevi. Mas este ano que terminou não foi bem aquilo que estava à espera. Tinha algumas expectativas que acabaram por não se concretizar e fui surpreendido por outros acontecimentos.
Em 2025, depois de catorze anos, a empresa onde trabalho mudou-se para Marvila. Larguei as redes sociais. O meu pai teve um acidente que o incapacitou e o fez mudar-se para um centro de apoio e reabilitação física. Deu-se um boom de utilizadores no Substack e passei a ter mais de duzentas almas a receber as minhas crónicas semanalmente. Continuei a viver o sonho de escrever: publiquei todas as semanas, excepto duas sextas em que estive de férias em Agosto. Conheci pessoas interessantes, com a mesma fome de livros e histórias que eu. Afastei-me de outras, seja pela vida a acontecer ou por terem escolhido não ultrapassar o que nos divide. Conseguimos uns dias em família na nossa praia predileta e conseguimos acampar no Gerês. Li mais livros este ano do que em qualquer outro: aprendi que desistir de um livro não é sinal de fraqueza, mas sim de coragem para avançar para outro. Fiz quarenta anos na companhia de quem mais gosto e continuo com o privilégio enorme de ver os meus filhos crescerem.
Começo a aceitar que os anos se sucedem com os seus altos e baixos e têm o seu quê de cíclico. Cabe-nos tentar quebrar padrões e hábitos e tentar fazer coisas diferentes. E aceitar as coisas com elas são, sejam positivas ou menos boas. Continuo a ser fã da regra dos 80/20 que o Tim Ferriss aplica à análise que faz do ano que termina. Ele retira os 20% de melhor para agendar essas atividades para o ano vindouro. No fundo é escolher o que há de melhor num ano para o replicar no próximo. Com estas férias natalícias – que não tiro há anos as duas semanas integrais – acabei por não ter o espaço mental e o tempo que queria para as enumerar neste texto. Talvez o faça no arranque do ano.
crème de la crème
Este ano foi o ano em que li mais livros. Andei a registar o que li, vi e ouvi ao longo dos meses e contabilizei mais de três dezenas de leituras. Aprendi a ler nos intervalo da azáfama da vida: enquanto os meus filhos viam televisão ou numa estadia mais prolongada na casa de banho. Também decidi ler, sempre que possível, imediatamente a seguir a deitar os miúdos, antes de cair na tentação de me esparramar no sofá a ver um filme ou uma série – ou jogar alguma coisa na Switch do mais velho. Li em viagens, nas horas mortas do trabalho, em salas de espera, cafés. Ando sempre com um livro: nunca se sabe quando se proporciona um momento de leitura e mais vale andar prevenido.
Ter largado as redes sociais ajudou. Em vez de scrolls infinitos, lia. Em vez de ver stories de pessoas com que não privo há décadas, lia. E acabei por dar mais valor em manter relações e comunicações com quem gosto de uma forma mais ativa: mensagens, telefonemas e, claro, presencialmente. Mas este texto não será mais um a discorrer sobre os enormes benefícios de um desmame das redes sociais. Fica apenas o óbvio: menos tempo de ecrã equivale a mais tempo de leitura.
Na maior parte dos meus textos acabo a recomendar qualquer coisa. Não faço uma crítica estruturada porque, convenhamos, a crítica é trabalhosa e morosa mas eu escudo-me na minha falta de autoridade cultural. Mas gosto de recomendar as coisas que gostei, que mexeram comigo e que fizeram sentido. Hoje proponho-me a fazer uma espécie de balanço cultural do ano, com as coisas de que mais gostei de ler, ouvir e ver. O síndrome do impostor faz com que hesite em fazer estas coisas: quem é que quererá saber dos meus gostos? Mas, sharing is caring. Também gosto de espreitar as listas da Raquel Dias da Silva ou do João Lameira e retirar ideias de livros, filmes ou discos para ouvir. Por isso, aqui vai, mas só de páginas web e livros,
Blogs/Substacks
- O Canto da Sereia – Raquel Dias da Silva: É o meu farol literário nacional. Por ela vou sabendo de novos lançamentos e reedições. Vou descobrindo autores e sagas que desconhecia, seja para mim ou para os miúdos. Gosto de ler sobre livros. E aqui escreve-se sobre livros, escritores e o mundo literário no geral. É uma espécie suplemento cultural que vou espreitar quando me apetece. São estes os melhores cantos da internet: aqueles a que vamos pelo nosso próprio pé e nos é servido o menu da chef. Neste caso, a ementa nunca desilude.
- Mesa de Mistura – Davide Pinheiro: o Davide faz um trabalho incrível de reflexão sobre música e a respetiva cultura e indústria que a rodeia. E partilha-o, gratuitamente, no Substack. Críticas a discos, pensadas, correlacionadas e bem escritas é coisa rara hoje em dia. Análises sobre a indústria e as suas questiúnculas, feitas de forma sóbria e séria, são a cereja no topo do bolo. E não esquecer as entrevistas bem feitas e livres a artistas da nossa praça cuja voz, tantas vezes, é amordaçada pelos mercados, número de seguidores ou audições da faixa.
- Pluralistic – Cory Doctorow: Fazem-nos falta vozes dissidentes do pensamento comum. As novas tecnologias e as suas plataformas controlam, de forma hegemónica, as notícias e conteúdos que consumimos. E, reduzindo-nos a meros consumidores, tornam-nos presas fáceis para a manipulação de pensamento e opinião. É nos dado o que pensar e a erosão do pensamento crítico nas últimas décadas – no sistema de ensino e no tecido social – torna-nos dóceis. O Pagomes escreveu este ano que quem lê não é dócil, mas quem procura o outro lado da moeda também não. É cada vez mais importante escutar quem pensa de forma diferente e coloca em causa o status quo. O Cory faz precisamente isso. Ativista de longa data de uma internet livre e consciente, é um crítico da estrutura que os gigantes tecnológicos adoptaram e a consequente merdificação dos seus produtos. Com publicações regulares e gratuitas na sua página pessoal, vai-nos permitindo um olhar divergente sobre os rumos que as redes – e quem controla o seu tráfego – vão tomando.
Livros
- Caruncho, da Layla Martínez: Poucos livros me impressionaram tanto nos últimos anos como este. Sobre o bolor que se pode espalhar numa família e como a violência pode deixar marcas geracionais. Mais: como o trauma pode moldar sociedades inteiras, com as respectivas divisões de classe. Os de baixo continuam a limpar a merda emocional dos de cima. Escrito por uma mulher, sobre mulheres, sobre o caruncho que se infiltra nas casas. Para mim, o melhor livro lido de 2025.
- O Jardim do Ogre, da Leila Slimani: A intimidade da mente humana fascina-me, desde sempre. Depois de ter levado com o murro no estômago em 2024 ao ler a Canção Doce, adquiri este exemplar na feira do livro do Porto. Passadas poucas semanas, li-o. Quase de rajada. Entrei num mundo de compulsão sexual feminina, visceral. Explícito, livre de erotismo e amarrado à realidade crua do desejo humano incontrolável. O privilégio de classe de poder alimentar, o choque social, a dilaceração humana, o tecido familiar que evidencia a sua fragilidade. A aparência. E, novamente, o trauma geracional. As palavras e ideias que nos ficam enquanto crescemos. Poucos livros retratam tão bem um recanto obscuro da psique humana. Os nossos desequilíbrios que teimamos em esconder, com medo da opinião dos outros.
- Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, do Tiago Rodrigues: não consegui ver a peça quando estreou. Depois, nas novas datas, eu e a Sofia chegámos a ter bilhete mas a pandemia ditou que não estivesse escrito nas estrelas assistir. Nas reposições que têm havido, acabamos sempre por não conseguir bilhete. Resignado, e por querer tanto conhecer a obra, comprei o livro. A peça é um tratado de dramaturgia, sendo que eu pouco ou nada percebo de teatro. Mas digo que é um tratado porque mudou a minha forma de olhar o teatro, o seu poder, a sua sedução. E é um autêntico retrato presciente do nosso Portugal, da nossa Europa e do mundo. A escrita, as personagens e o enredo são poderosos e encerram com um discurso enorme, que tinha tudo para falhar. Mas não falha. Pelo contrário, esmaga-nos com a sua acuidade. Arte é muito isto: a constante crítica do nosso tecido social, espelhando a fel que o habita.
Bom 2026,
João
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