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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Talvez devêssemos todos ser mais Superhomem.

On Julho 25, 2025porJoão Azevedo

Olá,

Sou um fã confesso de filmes de super heróis. Li muita banda desenhada em miúdo e acompanhei os universos da Marvel e da DC. Acho que das BD’s que mais li terá sido “A Morte do Super Homem”. Ainda hoje guardo na memória a edição portuguesa, com a capa negra e o símbolo do Kal-El a escorrer sangue. Li e reli o combate com o Apocalipse inúmeras vezes. Com muita pena, não sei o que é feito desse número. Já o andei a namorar no OLX, hei-de o voltar a ler. Porém, divago. Gosto de ver os grandes filmes da Marvel e da DC no cinema quando posso. Não vejo tantos quanto queria: é um dos preços a pagar pela paternidade e pago-o com todo gosto. Todavia, de vez em quando lá se alinham os astros e consigo ir sentar-me numa sala Atmos a apreciar os novos lançamentos. Desta vez não estava à espera do enorme impacto que o novo filme do Super-Homem teria em mim. Acho que o James Gunn se tornou no meu realizador preferido de filmes de super-heróis.

Escrevi uma mensagem, ainda no cinema, a um grupo de amigos: incentivei o visionamento já que é um filme corajoso do ponto de vista político e estético. Porque questiona dados adquiridos como a legitimidade das nossas ações, a importância do contexto e da percepção delas. Levanta questões sobre o porquê de agirmos da forma que agimos e o quão a nossa cegueira ideológica nos pode toldar o pensamento, principalmente quando julgamos estar a agir perante um imperativo moral. Faz-nos perceber que a moral e a ética são conceitos impermanentes, com significados mutáveis consoante a cultura, a época e a maturidade civilizacional. Tudo isto sob um capa – pun intended – estética muito mais perto do que é uma banda desenhada. Há, claro, os traços de humor que a que Gunn nos habituou no universo dos Guardiões da Galáxia, mas com uma nova roupagem. Na minha opinião, na dose certa para este universo do Super-Homem. Há humor e salvamentos de esquilos e crianças que nos recordam da verdadeira essência deste personagem único – a bondade ingénua e a vida como valor absoluto. Os códigos éticos e morais tão marcados – e aproveitados, nos últimos anos, como bandeiras do que significa ser-se Americano. Há um grande foco na personalidade dele, da Louis e, regra geral, de todos os personagens. As lutas são secundárias – não deixando de ser, mais para o fim, espetaculares. Mas o filme parece nunca esquecer que o Super-Homem é também a chamada de atenção para a bússola moral do mundo: o que prezamos como importante e que linhas vermelhas traçamos enquanto humanidade, por mais complexas que sejam as situações.

“People were going to die.”

Há uma coragem enorme neste filme, lançado nos cinemas numa altura que me surpreendeu. Num 2025 que me parece ensandecido e olvidado dos valores mais básicos e humanos, no filme há um país militarmente superior que invade outro, mais fraco. O pretexto é depor um governo despótico. Mas o Super-Homem defendeu esse país e impediu uma invasão. Ignorando a aliança dos EUA com o país invasor e a animosidade com o país invadido, não submetendo as suas ações a escrutínios políticos, recorda-nos da importância de agir perante uma injustiça. “If you can, then you must”, disseram-me recentemente. É inegável o paralelismo com a ocupação sionista na Palestina, ou com a invasão Russa da Ucrânia. Perante a iminência de uma atrocidade, precisamos agir e estar do lado certo da história: o das minorias, o dos inocentes. O lado que protege a vida, no imediato. Não sei até que ponto há uma intenção deste filme em focar-se nesta temática ou se é o meu viés à procura de um norte moral na ficção, tal é a ausência dela na realidade. Contudo, há a ressalva, clara, de que ainda há algo que deve ser preservado: a vida. Agir em prol dos outros, a proteção dos mais indefesos e a gratidão por quem defende a nossa integridade são valores estruturais do que é ser-se humano.

Este Super-Homem não é perfeito. Aliás, como ele próprio assume perto do final do filme, são precisamente as imperfeições, inseguranças, erros e questionamentos que o tornam o humano. Que o ligam a nós. Porque perante a incerteza do que somos, de como agimos, devemos tentar fazer o nosso melhor sem pisar ninguém pelo caminho. Reconhecer o nosso erro e a nossa soberba não é fácil: temos demasiado medo de ser julgados e fomos condicionados para nunca mostrar essa vulnerabilidade. E não devemos ter medo de ter conversas difíceis, mesmo que saibamos que elas nos vão colocar em causa crenças ou aspetos do ego a que estamos demasiado agarrados. Nessa confrontação connosco e com os outros, nesse assumir que trilhamos todos um caminho sinuoso sem lhe conhecermos o destino, é que podemos encontrar o que nos torna humanos.

Imagem de Warner Bros.

Um último pormenor que sobressaiu neste filme é um Lex Luthor que assume que é a sua natureza que o faz agir como age. Que se entende, de forma maquiavélica, como a solução para o problema que tem entre mãos: o combate contra uma entidade que se atravessou no seu caminho para o poder totalitário. Que projeta uma imagem de preocupação para o mundo que o rodeia, quando apenas os seus próprios interesses lhe são caros. Que não olha a meios para atingir os seus fins, na sombra, longe do escrutínio público. São tantas as semelhanças com homens sedentos de poder, de perceção, de reconhecimento do nosso mundo. Dá que pensar. Muitas vezes hesito em julgar as pessoas como sendo boas ou más: acho que cometemos boas e más ações e nenhuma delas nos define, realmente. Noutras alturas, acho que tem que haver uma essência maligna – talvez um egoísmo exacerbado – que cria o tipo de homens execráveis que, infelizmente, vão tomando conta do mundo. Seja nos filmes ou no mundo real. Também pode ser que o poder corrompa, que haja ali qualquer coisa que mexe visceralmente com a nossa humanidade e a ideia de deter poder sobre o outro seja algo venenoso. Que nos consome. Mas olhar para o Lex, totalmente ciente de quem é, do porquê de ser como é, e claramente alinhado com os seus valores e intenções, por mais dementes que sejam, foi para mim uma lição de humanidade. Há uma maldade patológica no ser humano que não pode ser ignorada nem deixada à solta. Mesmo com os milénios de civilização que levamos às costas, não sinto que tenhamos ferramentas para lidar com este problema.

Uns dias depois de ver o filme, encontrei-me com um amigo cuja opinião foi totalmente contrária à minha. Detestou o filme, achou-o demasiado in your face nalguns dos pontos que eu mais gostei. Classificou-o, e cito, “de zero a um milhão, zero”. Efetivamente, os gostos não se discutem. Fiquei incrédulo, tal a disparidade das nossas opiniões. Em casa acabei por refletir que esta discordância é parte integrante do processo cultural. Que as coisas que nos tocam, podem não tocar a outros. Talvez tenha sido influenciado pelo meu estado de espírito, desiludido com o mundo e tenha ficado galvanizado com esta centelha de esperança num mundo mais crítico. Ou, como referi no texto, a minha ligação emocional com o personagem e o sentir que finalmente temos um Super-Homem fiel aos comics, puxou-me para o lado de quem adorou o filme. Não obstante, é um filme que defendo pela forma como me impactou, pela frescura temática que senti e por, no mundo de hoje, colocar em questão algumas práticas sociais que acho que devem ser mais escrutinadas. No mínimo, pensadas.

A arte ainda tem este poder: o de deixar a pensar. O de criar paralelismos entre a ficção e a realidade e fomentar o sentido crítico das pessoas. Deixá-las com aquela inquietação que até pode nunca vir a ser nomeada. Podemos gostar, ou não, mas um filme consegue ultrapassar a sua duração e viver em conversas, debates, análises, sonhos, ideias. Neste filme em concreto, voltamos a ver uma parte da humanidade que tem estado escondida: o respeito, empatia e apoio mútuo são a receita para prosperarmos enquanto civilização e a visão míope do poder será sempre contraproducente. Mais, relembra-nos de traçar a fronteira entre a nossa ambição e a nossa humanidade. É uma linha ténue que vemos transposta diariamente nas notícias que nos chegam do mundo, nos comportamentos dos concidadãos e do mundo. Talvez devêssemos todos ser mais Super-Homem e menos Lex Luthor – o mundo bem que precisa.

Abraço-vos,

João


A desumanização permeou demasiadas camadas da nossa sociedade. Vemo-la de forma nítida nas questões da imigração, na intolerância religiosa e étnica. Encontramo-la no dia-a-dia, mais dissimulada, no trânsito, numa conversa casual dentro um TVDE, nas alarvidades que se ouvem nos cafés, reuniões de condomínio. Desumanizar torna-se, pois, numa prática social cada vez mais difundida e normalizada. Este vírus que nos faz esquecer que os outros também sentem prolifera num dos piores sítios que os humanos construíram: as prisões. O texto de opinião da Margarida David Cardoso no Fumaça sobre as condições dos reclusos, bem como as consequências destas greves dos guardas prisionais é perturbador. Pela crueza dos factos e iluminar as sombras de certos patamares sociais que tão confortavelmente gostamos de ignorar. A ler, para pensar, como sempre.

Apesar do tom claramente doutrinador, e com um viés assumido com alguma veleidade, o último documentário da Petra Costa na Netflix é revelador. “Apocalipse nos Trópicos” aborda a evolução das igrejas evangélicas e a sua infiltração nos orgãos de poder brasileiros. Um desígnio que, em última análise, pretende a criação de uma teocracia cristã. O fanatismo religioso continua a ser um maravilhoso opiáceo para embrutecer as populações e privá-las de um verdadeiro sentido crítico. Fornece a receita simplista de ver o mundo de forma maniqueísta e remete as soluções necessárias para uma entidade superior, inatingível, inacessível.


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Tags: 2025, amor, bondade, crescer, Crónicas, empatia, indignação, intolerância, mentira, superhomem, Superman

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