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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Pater

On Junho 5, 2026porJoão Azevedo

Na vida ocorrem sincronicidades interessantes. Poucos dias depois de uma conversa sobre paternidade com um conhecido que voltei a reencontrar por interposta pessoa, deparei-me com um texto corajoso, transparente e genuíno sobre maternidade – ou a sua romantização – escrito pela maravilhosa Raquel Dias da Silva.

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Estava à espera do arranque de um concerto quando o Fábio se aproximou de mim. Conheci-o porque foi namorado da minha melhor amiga e voltei a encontrá-lo porque ele é amigo de um colega no trabalho. A certo ponto na conversa, ele pergunta pelos meus filhos e, sem pudor, pergunta-me o que acho que é ser pai. Percebi que era uma pergunta com rasteira, porque havia algo no olhar dele que me dizia que ele conhece a resposta padrão, mas que há uma certa desonestidade por parte de quem se socorre dela. O que responder está socialmente enraizado: é a melhor coisa do mundo, a vida mudou para melhor, não podemos conceber um mundo sem a existência das nossas crias. Ou qualquer uma variação destas afirmações, com maior ou menor entusiasmo.

Tal como a Raquel – e seria interessante discorrer sobre isto, mas será outro texto – também sinto a necessidade de dizer que amo os meus dois filhos, que adoro que existam neste mundo e que, sim, tornam a minha vida melhor. Mas a paternidade não é preto no branco, há gradientes de cinzentos, uma escala cheia de detalhes e nuances e pormenores. Comecei por responder ao Fábio que demorei algum tempo a aceitar a nova realidade de ser pai. Tive muita resistência em aceitar que há mudanças profundas nas nossas vidas, nas nossas rotinas e na forma de ver o mundo. Essas transformações têm origem nas escolhas que fazemos e nas intenções que trazemos para a nossa paternidade. Escolher ser e estar presente de forma consciente traz consequências na nossa vida, muda-a, exige sacrifícios e compromissos. Adoptar uma postura menos comprometida, mais en passant, acarreta outro tipo de consequências. Optar pelos serviços mínimos onde apenas se suprem as necessidades fisiológicas básicas em detrimento de um acolhimento emocional constante – e formativo – leva a vida para outros caminhos. No fundo, comecei por querer comer o bolo e ficar com ele, caindo nessa armadilha da impossibilidade.

Photo by Laura Fuhrman on Unsplash

Romantiza-se demais a paternidade e a maternidade. Há uma espécie de consenso não-verbalizado de que ser-se pai ou mãe é uma evolução natural do percurso de qualquer ser humano. A velha lenga-lenga escudada da cultura ocidental e que faz da reprodução humana um imperativo social e económico, para além de biológico. Vemos nas referências culturais apelos velados – outros nem por isso – para que tenhamos filhos, para que seja a coisa mais natural do mundo e como os integrar neste mundo demasiado rápido para os acolher com a consciência devida. Aceitam-se verdades de proveniência e qualidade dúbias: que somos talhados para isto, que há um programa que corre no fundo das nossas mentes que sabe lidar com a responsabilidade de ter filhos. Em que momento é que paramos e percebemos que caímos na esparrela socio-cultural de que sermos pais é algo inato e natural? Ou que é fácil de integrar nas nossas vidas, cuja transformação gradual acabamos por aceitar e acolher nas nossas rotinas?

Já por aqui andei, nestas ruminações. Nunca quis ser pai, achava de um profundo egoísmo trazer mais crianças a este mundo cruel e com excesso de população. Eram desculpas: não queria ser pai porque tinha plena consciência de que havia uma enorme imaturidade e egoísmo em mim que sabia que iriam fazer um péssimo pai. Mas a vida encarregou-se de me pôr à prova e, hoje, tenho dois filhos. Chorei quando ambos nasceram e, permitam-me o cliché, tornei-me uma pessoa melhor com a chegada de ambos à minha vida. Não me iludo: continuo imaturo e egoísta, e ainda tenho uma enorme resistência a ver o meu livre arbítrio ser condicionado pela responsabilidade de ser pai. Senti que surpreendi o Fábio quando fui radicalmente honesto e transparente e lhe disse que, se soubesse o que sei hoje, não teria sido pai. O conjunto de mudanças, o peso da responsabilidade e a profunda alteração na forma como se vive ainda hoje me esmagam e, confesso, não vejo como romantizar esta pressão. Talvez um dos proveitos da tal lotaria genética e social que os meus filhos herdaram tenha sido esta minha profunda convicção de que eles não me pediram para nascer mas que, tendo nascido, tenho sempre presente a intenção de ser a melhor pessoa possível com eles. Uma vez mais, esta concepção varia consoante os dias, o balanço químico e hormonal, o nível de stress crónico. Mas tento sempre fazer o melhor que consigo, consciente que falho demasiadas vezes. Brinco às plasticinas quando só me apetece chorar, ouço os relatos do dia com o entusiasmo possível de quem se sente a fitar um abismo existencial. Porque a vida acontece, indiferente à responsabilidade que tenho em mãos e à intenção de a exercer com a maior consciência possível.

Não acho que os filhos nos tornem pessoas melhores. Isso depende muito da forma como encaramos a paternidade e como a decidimos exercer. E esta melhoria não pode roçar a superioridade moral: as pessoas que são pais e mães não se tornam melhores por causa disso. Esse assinalar de virtude cego e vazio remete, novamente, para a romantização que se faz da maternidade e paternidade. Que um filho serve o propósito de alavancar a nossa evolução pessoal e nos prover de renovadas ferramentas. Não é verdade. Nem todas as pessoas deviam ser pais e mães, porque ter filhos não é um acontecimento chave que nos mude radicalmente de um momento para o outro. Existem, também, vários graus e estágios de envolvimento (e desenvolvimento) emocional que criam um gradiente nos vários tipos de paternidade e respectivos níveis de consciência. A forma como assumimos o papel de pai ou de mãe, abre-nos um leque de escolhas que vamos fazendo, consciente ou inconscientemente. Existem, também, paradoxos. Cada opção tomada ramifica num percurso único, deixando para trás realidades putativas e paralelas. Fazemo-nos pais pela coragem e amor incondicionais com que decidimos acolher os nossos filhos, pelo nosso exemplo e pela nossa capacidade de reconhecer erros e mudar com eles.

Repito: amo os meus filhos e, sabendo que não há opção de undo na paternidade, tenho feito as minhas escolhas da forma mais consciente possível. Isso não implica que ame ser pai. Posso amar os meus filhos sem ter que romantizar ou criar uma narrativa idílica da paternidade. E há tantas nuances nesta forma de amar e de lidar com este amor. Se quisesse enviar uma mensagem para um futuro onde os meus filhos escolheram ser pais, dir-lhes-ia somente isto: acolham o melhor que puderem, em verdade, com amor e consciência, e nunca se deixem consumir pela amargura do sacrifício. E nunca, mas nunca, cobrem absolutamente nada do que fizeram por eles. Só assim o amor pode ser incondicional.

Abraço-vos,

João

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Tags: 2026, consciência, Crónicas, filhos, paternidade, Responsabilidade, Romantização

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