Olá,
Tive a sorte de crescer ao lado de salas de cinema. Morei perto do King, do Quarteto, do Londres e do Alpha. Comecei a ver filmes cedo. Primeiro, era deixado na sala de cinema pela minha mãe. Não me recordo ao certo se ela chegou a ficar comigo nas primeiras vezes. Depois, tornei-me independente: levava o dinheiro suficiente para o bilhete e pipocas. Devia ter 10 ou 11 anos quando me foi permitida esta liberdade. Para além do enorme privilégio de ter nascido numa casa com capacidade financeira para suportar as minhas idas ao cinema, também usufruí – e muito – do privilégio de viver no bairro das Estacas em Alvalade.
Cresci, portanto, como uma espécie de filho único pequeno-burguês. Sendo as minhas irmãs vinte anos mais velhas, já tinham as suas vidas, as suas filhas e, por isso, habituei-me a não ter grandes companhias para brincar fora do ambiente escolar. O cinema foi um ótimo escape. Sempre gostei de imaginar que era outra pessoa – uma espécie de dissociação como mecanismo de lidar com os aspetos menos positivos da minha vida. Mas também era fruto de uma imaginação fértil que procurava imaginar-se o Peter Parker que lia nas bandas desenhadas, ou outro super-herói que me fascinava. Um robô futurista tipo o T-800 com uma grelha ótica que lhe permitia calcular trajetórias e identificar pessoas e objetos. Ou um super-guerreiro que dominava a técnica de Kaíbe (contextualizando, foi um senhor roxo que ensinou o Son Goku a lutar melhor). A sensação com que saía dos filmes era como que uma vontade incontrolável de me transformar numa das personagens mais cativantes da narrativa que acabara de ver. Imaginava-me a ter os mesmos poderes e capacidades dos personagens que tanto me fascinavam, ou ser um espião com acesso a tecnologias mirabolantes ou um sábio cujo conhecimento lhe permitia salvar o mundo. Em retrospectiva, foi uma pena não me ter cruzado desde cedo com o universo de Dungeons & Dragons, teria assentado que nem uma luva nesse João dos anos noventa.
Ainda hoje é precisamente isto que me sabe bem numa narrativa, seja num livro ou num filme:
Ser profundamente quem não somos.
A frase é do Afonso Cruz e encontrei-a no livro “O Vício dos Livros”. É precisamente isto que sinto quando fico siderado numa personagem, que posso ser quem não sou e imaginar outros mundos bem como outras formas de estar no mundo. Talvez por isso tanta gente associe a leitura ao desenvolvimento da empatia, à nossa capacidade de nos pormos na pele dos outros. E daí me seja possível entender, muitas vezes, a perspetiva do outro. Posso não concordar ou até achar hedionda a outra pessoa, mas consigo perceber a lente pela qual olha o mundo. Uma história é um olhar sobre o mundo. Sobre a humanidade, normalmente, mas também sobre qualquer coisa que a nossa imaginação consiga conjeturar. Os filmes faziam-me precisamente isto, daí que saísse da sala com vontade de lançar teias ou de ativar o meu carro voador. Hoje em dia não tanto, talvez tenha crescido demais e, tal como a Wendy do Peter Pan, comecei a esquecer-me de como ser assim. Mas nos livros, que de alguma forma conseguem formar uma ligação mais intensa comigo, as personagens cativam-me e pareço um voyeur a espreitar, entre as páginas, a intimidade dessas pessoas. Fico a conhecer pedaços de humanidade que desconhecia ou vejo-me espelhado em ações, desejos, fantasias e emoções. E navego nessas descobertas precisamente porque me permito ser profundamente quem não sou.
Às vezes invejo certos personagens. Queria ter a coragem deles, ou a maturidade emocional, ou um super-poder qualquer que me dava imenso jeito. As histórias deles, com as suas dificuldades, acabam por dar-me um vislumbre do que podia ser. Como se a vida deles fossem dimensões alternativas em que posso entrar caso mude certos aspetos da minha vida. A literatura tem mesmo este poder: de nos mudar, depois de nos fazer pensar sobre algo que, muitas vezes, nunca equacionámos ou sabíamos ser possível. Isto acaba por ligar, em parte, com aquela falta de me sentir inteiro de que escrevi na semana passada. Talvez seja também essa procura que me faz gostar tanto de narrativas, seja num filme, num videojogo ou num livro. Gosto de histórias, acho que aprendo com qualquer uma, mesmo que seja o que não fazer. Mas, regra geral, caem-me histórias no colo que me inspiram como ser humano, como artista. Porque me deixam ser quem não sou de uma forma que a realidade concreta não permite.
Talvez seja este o meu mecanismo para lidar com o mundo. A minha incapacidade crónica de compreender a fealdade faz-me procurar tentar ser outras pessoas, nem que seja por momentos. Enquanto folheio páginas ou estou absorto diante de uma tela, numa sala escura ou em casa, sou outra pessoa. Talvez os leitores sejam seres mais sensíveis por isto mesmo: conhecem muitas histórias, já vestiram muitas peles, já riram e choraram por outros como se fossem eles mesmos. Um dos processos que encontrei para integrar a escuridão que às vezes cerra fileiras no meu peito é precisamente imaginar-me uma personagem e conceber mentalmente uma outra realidade. Permite-me ter algum espaço para respirar e, às vezes, até me conquista uns dias de luz. As histórias, e a leitura em particular, salvaram-me a vida muitas vezes. E foi a consciência que faltou noutros tantos momentos.
Gosto de saber que os meus filhos também partilham deste meu gosto pelas histórias. É bom vê-los ser profundamente quem não são e, com isso, ver a sua imaginação estimulada e livre. Ser-se criança é também esta exploração imensa que tantas vezes é castrada no nosso mundo demasiado rápido e impaciente. Ainda hoje há personagens que ficaram comigo, juntamente com os seus dizeres e maneirismos. A máxima do “com grande poder vem uma grande responsabilidade” do Tio Ben no universo do Homem-Aranha, inegavelmente moldou a minha exigência para quem detém poder ou autoridade sobre alguém. A amizade altruísta e intensa do Samwise Gamgee pelo Frodo Baggins do “Senhor dos Anéis” carimbou a minha própria noção de amizade. O narrador do “Ensaio sobre a Cegueira” ensinou-me a importância de bater o pé perante vilões, por mais poderosos que aparentem ter: uma injustiça deve ser sempre combatida. No “Sidhartha” aprendi que só poderemos ser felizes com o que temos dentro de nós e que tudo é impermanente, volátil e passageiro. Os exemplos são demasiados para este texto. Espero que ambos os meus filhos encontrem estas mesmas lições enquanto se permitirem ser profundamente quem não são.
Abraço-vos,
João
- A Raquel Dias da Silva referenciou nas suas leituras de Maio um livro que me deixou com a pulga atrás da orelha: “O Vício dos Livros” do Afonso Cruz. Têm sido um problema, as suas recomendações. Deixam-me a conta bancária mais vazia, mas gosto de pensar que é por uma boa razão. Lá encontrei um exemplar na Vinted, sem a capa de papel original mas com preço em conta. Foi uma leitura rápida, em dois dias despachei a coisa. Mas foi uma experiência ler cada uma das trinta crónicas ou divagações sobre livros. Sobre autores, personagens ou o acto de ler e escrever. Há livros que nos deixam uma saudade e este é um deles. Precisará, seguramente, de ser relido. É bom vermos espelhado os nossos próprios vícios nas páginas de outros. Tenho um problema com livros, especialmente por os tratar como garrafas de vinho que podem ficar a apurar nas prateleiras até chegar a altura ideal para os repescar e ler. Mas é este sistema de acumulação que me tem permitido encontrar o que quero ler quando me apetece, seja em minha casa, na do meu pai ou na biblioteca. Com este privilégio, vou lendo o que quero, quando quero – outro privilégio. Gosto de ler sobre livros, sobre outros leitores, sobre escritores. Há qualquer coisa que me fascina em demasia na arte das letras e das palavras. Este é daqueles livros que satisfaz o desejo desse requinte em particular.
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