Olá,
Não me tem apetecido escrever. Aliás, esta crónica arranca sobre um vazio absoluto de ideias. Terminei, há dias, o Tecnofeudalismo do Varoufakis: quis escrever sobre ele, tirei inclusivé algumas notas, mas faltam-me ganas. Para escrever basta alocar tempo e espaço do nosso dia ao mister; mas isso é uma escrita solta, com raízes no momento. Prefiro escrever quando há uma ideia ou intenção que acaba por se traduzir numa visceralidade das palavras e termina numa coisa concreta. Não me interpretem mal: gostei do livro, achei-o elucidativo e pertinente. Gosto da ideia de que, para compreendermos de facto algo, precisamos de perder tempo a defini-lo. As palavras importam e descrevem e podem servir para atualizar a nossa visão e compreensão do mundo. Varoufakis fez uma tentativa de explicar o nosso sistema económico e financeiro actual e como as grandes empresas tecnológicas o moldaram. Mas, à medida que lia o livro, não fiquei surpreendido. Aliás, senti na leitura um certo viés de confirmação de que, de facto, o capital continua a alienar os trabalhadores e que, agora, se transformou numa outra coisa cuja dimensão nos tornou servos da sua tecnologia.

O ano vai pouco mais do que a meio e sinto-o demasiado longo. Há um cansaço existencial que teima na alma. Pouco me apeteceu ler nos últimos meses, mesmo ciente de que entre a capa e a contracapa estaria a salvação. Gosto de pensar nos livros como bóias: lembro-me sempre de Os Condenados de Shawshank – um dos meus filmes preferidos – e da cena em que o diretor Norton encontra a bíblia que escondeu o martelo de pedreiro durante duas décadas com um recado do Dufresne. A leitura é a escapatória da realidade que consegui encontrar na vida e, nessa fuga, cresço como ser humano. Por agora, estou a ler um pouco mais. Vou apanhando o ritmo, como quem regressa às corridas depois de uma lesão. Desconstruí em terapia a minha necessidade de assumir metas e compromissos demasiado rígidos para comigo. Acabam sempre com um sentimento enorme de falha e de insuficiência nada saudável. Consegui colmatar essa minha miopia com novas lentes sobre o assunto: faço o que posso e consigo a cada momento, sendo a fruição o objectivo em si. Parece simples, assim escrito. Mas não é. Nem a propósito, o Oliver Burkeman escreveu um maravilhoso texto na sua newsletter sobre a liberdade que se encontra em não estarmos, permanentemente, à espera da resolução das coisas. Que o processo já é bom e que não precisamos de quantificar metas e objetivos de forma constante. A vida não é um conjunto de métricas: a subjetividade humana não é mensurável. Esse arrastar lânguido da minha existência tem sido uma forma de me pôr à prova. De como a aceitação de que a forma e os processos que adopto são os possíveis em cada altura específica.
A minha escrita não pode depender dos ímpetos biológicos que me fazem crer que estou, nesse momento, a ser agraciado pelas musas. Nem tão pouco a leitura pode assentar na vontade de combater a dependência de dopamina dos ecrãs, das redes, do imediato. Os hábitos constróiem-se pela repetição, pela rotina: é o que os define. Não me tem apetecido escrever, mas escrevo na mesma. Não tanto quanto gostaria, bem sei, mas insisto nessa salvação, tão parecida com a da leitura.
Abraço-vos,
João
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