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Aceitação

On Novembro 10, 2023porJoão Azevedo

Há uma certa leveza e libertação quando aceitamos as coisas como elas são. Os dias escorrem entre uma pressa que, apesar de fabricada, nos é imposta. E reagimos como autómatos a essa imposição lidando com o que nos é posto à frente, desafio a desafio, tarefa a tarefa, obrigação a obrigação. Nisto esquecemos que as coisas são como são.

Tudo passa. Ouvi esta frase pela milésima vez no sábado passado. É um chavão, um cliché, que de tempos a tempos tem um impacto inesperado em mim. É muito semelhante a quando consigo parar de intelectualizar conceitos do estoicismo como o “memento mori” – a versão da antiguidade do todo-para-a-morte do Existencialistas – e os sinto, de facto.

Tudo passa, realmente. Aconteçam coisas boas ou menos boas, previsíveis ou inesperadas, os eventos que enfrentamos no nosso dia passam. Desconfortos físicos, emoções negativas, sentimentos e pensamentos. Até a morte passa. Ela simplesmente acontece: num momento estamos cá, noutro já não. E os consequentes sentimentos e sensações que advêm dessa nova ausência também passam, mudam e ganham novo peso. O tempo trata de lhes dar nova roupagem e nós outra perspetiva.

black stones with sun in the distance

É este conceito de impermanência e efemeridade que tanto me atrai no Budismo. Raramente me lembro de o pôr em prática, vivendo grande parte da minha vida a remoer ou a antecipar algo. Às vezes, durante alguns segundos em meditação, torna-se perfeitamente claro que nada há mais que o momento presente. Mas rapidamente volto à torrente de pensamentos e cismas, sejam simples ou complexos, repletos de carga emocional ou simples tarefas.

Há dias em que me é mais fácil ir (re)lembrando de que é preciso estar no momento: enquanto como uma pizza com o meu filho mais velho num centro comercial e deixo a lista de compras que ainda faltam de lado para estar, verdadeiramente. Só assim posso observar em consciência, conversar em consciência e perceber quem é o meu filho naquele momento. Sinto o seu entusiasmo de ir comer algo que adora, num dia diferente enquanto antecipa uma possível oferta de um brinquedo. E por alguns momentos, distraio-me e estou já a pensar que também era de bom tom comprar isto ou aquilo, e que aproveitar certas promoções faz todo o sentido.

Preciso de ser lembrado de que tudo é fugaz, de tempos a tempos. Basta-me um texto, um livro ou até um post numa rede social com uma citação que me recorde de que a vida existe apenas no agora. Noutras alturas, é a própria vida a acontecer que trata de me fazer ver tudo com uma nova perspetiva. Porque o fim das coisas e o inesperado fazem parte do nosso dia. E voltamos ao mesmo: por vezes, consigo aceitar as coisas como elas são e perceber que tudo passa. Mas também não me conformo e teimo em resistir ao que acontece. É uma espécie de compreensão sem aceitação. Percebo o que acontece, mas o simples facto de acontecer torna-se um gatilho para muitas emoções e forma-se uma brutal resistência ao que aconteceu.

Há uma calma e plenitude na aceitação que a torna apetecível. Uma espécie de conforto que me liberta das amarras do pensar e me permite ser e estar com quem verdadeiramente sou. E, paradoxalmente, permite-me pensar com distância e desapego emocional: e é nesta fresta que me permito evoluir. É este o poder libertador da aceitação: nela encontramos o espaço necessário para poder ter a distância para pensar as coisas de forma livre e incondicional.

Lamento muito não me ser nato esta forma de estar e ter de me esforçar para fomentar esta prática. Preciso de ir sendo lembrado das impermanências da existência e condição humana. Preciso de práticas de meditação para me centrar e focar no agora. Preciso de gatilhos para me enraizar nos momentos críticos do turbilhão de pensamentos e ser lembrado que o agora e com quem estou é que são importantes. Fui condicionado a viver sem pensar e a reagir às situações de forma improvisada, no momento. E apesar de ter a sua utilidade em muitos momentos, sou demasiado impulsivo.

Vou aceitando as coisas como são, com o meu tempo e o meu ritmo. Vou aprendendo com a minha cadência: às vezes lento e demorado, bem sei. Vou sentindo pequenos e grandes fins do mundo até me lembrar que tudo passa.

Obrigado por me leres! Se gostaste desta crónica, por favor partilha-a.

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