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Leituras

On Janeiro 17, 2025porJoão Azevedo

O poder da palavra escrita.

Olá,

Na nossa casa, defendemos que um dos maiores super poderes que podemos alcançar são os livros. Mais concretamente, o manancial de conhecimento que neles encontramos. Até o imaginário coletivo e popular dos super heróis defende o mesmo: o Peter Parker quer ser um cientista, o Dr. Estranho é um médico excecional, o Hulk é um cientista na vanguarda do estudo dos raios Gama. Conhecimento é poder.

O pensamento crítico constrói-se através da dúvida permanente e do estudo constante. Não conheço outra maneira de evoluir intelectualmente que não passe pela leitura e reflexão sobre o que é lido. Os livros, portanto, trazem consigo a capacidade de dar a conhecer novos mundos, formas de pensar e maneiras de ver a realidade objetiva. Como pais, a leitura foi sempre muito incentivada nos nossos filhos. Há livros espalhados pela nossa casa, leio em frente dos meus filhos, conversamos sobre a sua importância. Compramos os livros que eles gostam e os que nós achamos que eles vão gostar. E depois é preciso tempo. Para lhes lermos as histórias, todas as noites. Para criar rituais onde a pausa para escutar a leitura a voz alta pode acontecer, livremente. Para germinar a semente que, esperamos nós, brote em ávidos leitores.

Este texto acontece por causa de uma pergunta da Raquel, sobre ter já uma estante com livros, e respetiva conta de Goodreads, para a sua filha no ventre. Num mundo onde tudo nos formata para a passividade, o seguidismo e a superficialidade, não consigo conceber nada de mais importante que contrariar todas estas tendências através da leitura. E ler é um hábito que se cria, que se fomenta. Não podemos comprar livros e esperar pela idade de leitura, fazendo figas para que pegue. Enquanto pais, responsáveis ou cuidadores, temos que fomentar. Lá está, precisamos de alocar tempo para que isto aconteça. Tempo para, inicialmente, lhes lermos histórias. Depois, tempo para que eles as possam ler por eles mesmos, quando a capacidade de leitura e concentração assim o permitirem. Não achei nada fora a ideia da Raquel. Muito pelo contrário: acho importante que assim seja. Mais: devia ser norma. Claro que estou consciente do enorme privilégio que temos no nosso lar por sermos capazes de adquirir livros e construir coleções interessantes e estimulantes. Mas, também, desde cedo, que vamos a bibliotecas requisitar livros. Escolher novas histórias, devolver as já lidas. Este serviço público precioso quebra a barreira classista que separa os leitores dos livros. Mas é preciso tempo e gestão familiar para isto acontecer. O enorme poder dos livros, por enquanto, ainda é acessível a todos, com maior ou menor dificuldade.

brown wooden book shelf

Quando estabelecemos as nossas intenções, seja sobre o que for, precisamos também de refletir como podemos agir sobre elas. Aquelas que idealizamos para os nossos filhos, passam muito por nós. Talvez seja mesmo a lição mais importante que aprendi com a paternidade: eles são o exemplo que nós modelamos. A máxima do “faz o que eu te digo e não o que eu faço” não funciona, de todo, com crianças, principalmente nos anos formativos. Eles comem como nós, comportam-se como nós, falam como nós, lêem como nós. Somos o ponto de referência para todos os hábitos. Por isso, as nossas intenções e desejos para os nossos filhos começam, primeiramente, connosco.

Somos um país bem alfabetizado, com uma taxa de literacia grande. Mas saber ler não é sinónimo de compreender. No final do passado saiu um estudo que indicava que 40% dos portugueses só é capaz de compreender textos simples e matemática básica. Isto é consequência de vários fatores: o sistema de ensino que incentiva a memorização do pensamento de outros ao invés de pensamento crítico, uma sociedade cada vez mais virada para a gratificação imediata, o consumo de conteúdos audiovisuais de curta duração e exposição em demasia a ecrãs que mina a capacidade de concentração. Daí a importância da leitura. Em grande quantidade, de obras difíceis. A Sofia fala sobre isto (está em inglês, mas vale muito a pena ler a reflexão). Não sou tão crítico quanto ela no que à qualidade de literatura consumida diz respeito, até porque acho que mais vale ler algo do que nada, but she has a point. Mas só poderemos chegar a obras desafiantes – literalmente, que nos desafiem as fronteiras das nossas crenças e conhecimento – lendo muito e tendo sentido crítico sobre o que é lido. Precisamos ler e refletir sobre o que é lido: quando lemos há uma primeira camada que se atinge, que se apreende, mas só podemos minar o filão de conhecimento com pensamento e reflexão.

Como pai, faz-me todo o sentido querer educar filósofos. Não me deixar ser derrotado pelo cansaço do quotidiano e guardar algumas forças para contrapor as perguntas dos meus filhos com novas perguntas. Estimular o raciocínio deles com conversas interessantes, como eu gosto. Desta forma pratico o igual valor – que tanto prezo – e ganho novos parceiros para deambular sobre o rés do chão do pensamento1.

Abraço-vos,

João

  • Esta semana vi a entrevista do Lex Friedman ao Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy. Mais do que o entrevistado, o entrevistador proporcionou-me várias aprendizagens de como escutar de forma empática e sem julgamento. Vale a pena escutar, com discernimento, claro.