Sobre a perpetuação de mitos geracionais, brincar à chuva e liberdade.
Olá,
“Vais sair só com isso vestido?! Agasalha-te!”. Ouvi muitas vezes esta frase. Aprendi a temer o frio como um grande vilão que nos tornava doentes. Mesmo quando não sentia frio, mesmo quando não estava desconfortável. “Cuidado com a corrente de ar, olha que te constipas.” – e lá me mudava de posição para me abrigar desse flagelo que é o ar em circulação, dentro de casa. É o mesmo ar que circula com mais força nas ruas, onde também andei, mas aí os avisos não se faziam ouvir, vá-se lá saber porquê. Ouvi isto das pessoas adultas e responsáveis por mim. Diziam-no com a melhor das intenções, sempre com o meu bem estar em conta. E sempre senti que me estava a ser negada a minha própria perceção da realidade. “Lá estás tu com os pés descalços, depois constipas-te…” – e eu com os pés sobre o soalho, confortável, ia buscar umas meias ou uns chinelos. Sinto que não faz sentido negar ou contrariar o que alguém sente. Principalmente se do seu conforto se trata. Esta negação do que a pessoa sente não contribuirá, certamente, para o seu autoconhecimento.
Lá em casa, roubámos uma ideia ao Todas as Coisas Maravilhosas – monólogo escrito pelo Duncan Macmillan e interpretado magistralmente pelo Ivo Canelas no últimos anos aqui no burgo. Fizemos uma lista das coisas que consideramos maravilhosas. Estava a escrever o parágrafo anterior e lembrei-me que tenho que acrescentar uma que me tem escapado: passear à chuva. Desde que me lembro, adoro sentir a intempérie a bater-me no rosto, a escorrer-me pelas lentes dos óculos e, devagarinho, a ensopar-me as calças que não são impermeáveis. Se juntarmos a esta sensação estar rodeado pela Natureza – árvores, plantas, pedras e montes – então tenho ouro sobre azul.
Nestas últimas semanas temos tido muita chuva. Dias cinzentos, alguns alertas meteorológicos e tudo alagado. Consequentemente, passamos mais tempo resguardados em casa, as escolas não permitem o recreio e acabamos por ter menos exposição solar. E tenho notado muita diferença nos humores dos nossos filhos. E no meu.
O A. – como não tem estado tanto tempo no exterior – está mais irrequieto e com energia e tensão acumuladas. Mais irritadiço, menos tolerante e notoriamente a precisar de espairecer, correr e brincar num espaço amplo. Ele também tem estado com maior dificuldade em adormecer, demorando mais, estando mais mexido até finalmente assentar no sono, e a Sofia também colocou a hipótese de estar relacionado com a menor exposição à luz do sol e ao ar livre. Concordo, claro.

Esta menor exposição ao livre por causa da chuva é novidade lá em casa. Porque tivemos o privilégio de ter tido acesso a um projeto educacional diferente. Por exemplo, em dias de chuva as crianças vestiam roupas adequadas e impermeáveis, galochas e iam brincar para a chuva. Quando regressavam, despiam as camadas impermeáveis e se tivessem roupa molhada, trocavam para roupa seca. Havia exceções durante intensas intempéries, mas o brincar ao ar livre era incentivado diariamente. Mas estamos a falar de um projeto escolar com 5 educadores e cuidadores (com horários complementares e rotativos) para cerca de 20 crianças. Um oásis nas paisagens educativas em Portugal, apenas conseguido com esforço coletivo dos pais, muito amor à camisola dos responsáveis pedagógicos e uma mensalidade proibitiva para a esmagadora maioria dos Portugueses. Privilégio, lá está. Na escola atual, pública, e na esmagadora maioria das escolas, isto é impensável. Primeiro, estamos a falar de uma logística de vestir, despir e talvez trocar a roupa de 25 crianças por sala com uma Educadora e uma Auxiliar. É difícil, mas não impossível. Segundo, há ainda um preconceito ignorante – incutido pela perpetuação da sabedoria popular – que o frio e a chuva constipam. E resguardamos as crianças confinadas a salas, onde a probabilidade de transmissão de vírus aumenta exponencialmente. Isto não faz sentido e precisa de uma grande desconstrução, social, pedagógica e familiar. “Bem-vindo à realidade”, disse-me um amigo.
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As crianças precisam de liberdade de movimento e de brincadeira. Todos sabemos que é importante para o seu desenvolvimento cognitivo e motor e, hoje em dia, é ainda mais importante dada a sedentariedade e longos tempos de ecrã. A inatividade e confinamento durante os dias de chuva, ou de frio, ou de calor, não contribuem para um saudável desenvolvimento. São poucos os encarregados de educação que colocam em causa estas práticas e muitos que as defendem. O pior é que enquanto mantemos crianças em salas, criamos ambientes perfeitos para a proliferação de vírus; é pior a emenda que o soneto. Bem sei que há limitações nos recursos humanos das escolas, mas acho que esta é uma questão de mentalidade. De que não há “mau tempo” mas sim há falta de roupa adequada. Sim, há um preço logístico a pagar para se adequar a roupa de múltiplas crianças em sala para poderem brincar à chuva. Mas há um retorno enormíssimo na felicidade que é deixar as crianças ser crianças: chapinharem na água, ficarem molhadas e sentirem o clima diretamente na pele.
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Perpetuamos mitos. Repetimos o que ouvimos das pessoas responsáveis pela nossa educação. Depois, tomamos como certo, sem questionar. Neste processo, perpetuamos aprendizagens importantes, verdadeiras e úteis. Mas também continuamos ciclos ignorantes e criamos medos e receios infundados. “Não podes beber água a seguir a beber leite.” – disse-me uma vez o meu querido Tio Raul. Eu devia ter no máximo 8 anos e estas palavras acompanharam-me para o resto da vida. Ainda hoje em dia há uma espécie de náusea por sugestão só de pensar em beber água a seguir a beber leite – e eu já não bebo leite há mais de uma década. Não há qualquer fundamento científico para isto: provavelmente esta máxima foi proferida porque o meu Tio a ouviu de algum dos pais ou porque alguém lhe contou que assim era ou terá passado por uma indigestão quando bebeu estas duas bebidas naquela ordem. Da mesma forma, dizemos às nossas crianças para terem cuidado com o frio – como se de algo mau se tratasse – ou com a chuva – como se fosse necessário proteção. Precisamos repensar muitas das coisas que dizemos em piloto automático. Elas reforçam formas de ver o mundo que podem ser limitadoras e, em muitos casos, falsas. Continuamos ciclos de escassez, de ignorância, de medo e limitação quando repetimos coisas que são fruto de condicionamentos do passado. Claro que há práticas, dizeres e ensinamentos cuja ancestralidade lhes dá uma sabedoria inquestionável. Mas é preciso refletir e discernir. E ter cuidado com o que dizemos – e exemplificamos – às crianças, mesmo com a melhor das intenções. Só assim podemos construir futuros sem estarmos ancorados a passados que não nos fazem bem.
E se em vez de resignação, optássemos por reivindicação? Enviar e-mails aos responsáveis das escolas e seus agrupamentos, conversar com as professoras e educadoras. Esclarecer dúvidas aos nossos amigos e família, mostrar-lhes a ciência por detrás de novas formas de olhar o mundo. Contra mim falo, que gosto de apontar o dedo às falhas e poucas vezes faço algo para mudar. Mas acho importante difundir informação correta porque, em última análise, ela é libertadora. Das nossas crianças, para que que brinquem mais, tenham maior exposição aos elementos, tenham acesso a alimentação mais saudável, menores quantidades de açúcar no dia-a-dia. Mais importante que resguardá-las do frio ou da chuva, precisamos de resguardá-las da inconsciência dos pais, cuidadores e educadoras para que possam crescer e se desenvolver da melhor forma.
Até para a semana,
João
P.S. Esta semana foi-me recomendado um disco lançado em Setembro de 2023 que me passou totalmente ao lado. Falo de Riça, um músico do Norte de Portugal que fez no seu primeiro longa duração uma fusão muito interessante entre rap e sonoridades tradicionais de Portugal. Desde a mitologia, à vivência no subúrbio-que-já-quase-é-campo, adorei o Diabos m’Elevem e tenho-o ouvido repetidas vezes nos últimos dias. Tudo graças ao fino gosto do Rui Portulez que nem hesitou quando me deu a dica desta iguaria sonora.
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