Ou a terrível sensação de perder alguém de quem gostamos .
Olá,
Já aqui escrevi sobre os meus mortos, sobre o luto que fazemos quando as pessoas partem e sobre o amor que fica por expressar. A morte é uma merda, mas é parte integrante do que é viver. Mas não se faz somente o luto dos mortos; também nos enlutamos pelos vivos que vamos perdendo ao longo do percurso, seja por acasos da vida ou por sermos umas bestas quadradas, ou por acharmos que esses vivos mais valiam estarem mortos – figuradamente, claro.
Perdi alguns vivos pelo caminho. Pessoas de quem gostei – e até me apaixonei – a quem deixou de fazer sentido telefonar, mandar uma mensagem e combinar um café ou um cinema. Estou a ser defensivo, é óbvio. A expressão “deixar de fazer sentido” mascara algumas verdades inconvenientes: que me afastei por serem bons amigos e uma bússola que alertava para os perigos das besteiras que fazia quando queria mesmo fazê-las. Que me afastei porque serem maus amigos que me empurravam para abismos existenciais e nunca gostei muito de alturas. Mas também fui perdendo alguns vivos porque fui egoísta e egocêntrico, incapaz de acolher o sofrimento dos outros quando precisaram. Porque fui mau amigo. Porque me deixou de fazer sentido perpetuar padrões que me faziam mal. Porque foram viver longe demais e certas amizades dependem de linhas temporais e distâncias. Se o momento não é o certo e a distância aumenta, pode-se perder mais um vivo.
Gostava de ter ficado com alguns destes vivos. Já dei por mim a enviar SMS a alguém de quem tinha saudades e ainda hoje sinto um certo remorso por não ter sido o amigo que devia ter sido. Por isso, perdi esse vivo e a resposta à minha mensagem foi somente um ponto final educado, disfarçado com alguma esperança: de num futuro incerto nos voltamos a falar, a cruzar, se o destino assim quiser. Até agora, não quis. Acho que podemos voltar a encontrar os nossos vivos, senão não tinha enviado a mensagem. O problema é que cristalizamos na memória esses vivos: quem eram e como eram quando ainda faziam parte da nossa vida. Depois de os perdermos eles continuam toda uma vida e têm novas experiências que os mudam. Para melhor, ou pior – muitas vezes nunca saberemos. Das poucas vezes em que, inesperadamente, nos cruzamos com um dos vivos que perdemos retomamos a partir dessa cristalização: quem nós éramos, quem eles eram. Mas nós mudámos, e eles também. E temos que voltar a começar tudo de novo. Quando não há este embaraço é porque, no fundo, nunca perdemos esse vivo e retomamos precisamente no último momento em que ficámos; fico com a ideia que a conversa se desenrola a partir da última palavra proferida, mas isto ainda estará por provar.
Sinto saudades de alguns destes vivos. Às vezes, fazem-me até falta; a memória deles de há cinco, dez, vinte anos. Espero que não tenham mudado muito e que aqueles pequenos detalhes dos quais sinto tanta falta ainda lá estejam. Que a vida não lhes tenha roubado os pormenores que os tornavam, aos meus olhos, interessantes. Pergunto-me: se nunca os tivesse perdido, como seria a nossa amizade hoje em dia? Tê-los-ia perdido numa outra altura? De que forma o fluxo temporal contínuo da nossa amizade mudaria o rumo da nossa existência? É fácil demais perder vivos.
Há vivos que, acredito piamente, me mudariam para melhor. Bom, pelo menos a imagem que eu tenho deles há uma porrada de anos atrás. Que iriam gostar dos meus filhos. Que faríamos almoços animados com conversas interessantes que descambavam em lanches ajantarados e águas das pedras para ajudar a digerir a gula. Ia gostar das suas namoradas e namorados. E eles da Sofia. Talvez por tudo isto também se faça o luto dos vivos, porque também fica um amor por expressar. Sinto que até custa um bocado mais porque com os mortos não há nada a fazer. Os vivos estão vivos, à distância de um engolir de ego, de um pedido de desculpas ou de um reconhecimento de um erro.
Há aqui uma moral da história: o mais seguro é ter atenção aos vivos, por forma a não os perder. Se gostamos deles e nos fazem bem há que cuidar e nutrir essa relação. As relações precisam dessa jardinagem, desse cuidado, correndo o risco de se esfumar e perder. E perder vivos, daqueles bons, é uma chatice.
Abraço-vos,
João
Li o mais recente livro do Miguel Esteves Cardoso, Como Escrever. Adorei-o, do princípio ao fim, repleto de lugares-comuns cheios de humor, sobre escrever, sobre processos, sobre a importância da palavra escrita. Gosto dos livros que me fazem rir no silêncio da leitura. Voltei a ser lembrado que podemos ser divertidos a falar de coisas sérias, sem perder a seriedade e utilizando algum humor como apontamento estilístico que pode reforçar ideias. Só tive pena de, sendo da biblioteca aqui do burgo, não ter podido seguir um dos conselhos iniciais: anotá-lo nas amplas margens. Teria ficado cheio de rabiscos, como eu gosto. E ainda para mais, tornar-me-ia num leitor-escritor enquanto o fazia. Mas o Miguel explica isso bem melhor do que eu.
Este ano vou tentar ver todos os nomeados para melhor filme do Óscares. Comecei pelo Conclave, do Edward Berger. Das obras anteriores, só tinha visto ainda o All Quiet on the Western Front. Já esperava uma cinematografia acima da média, mas a realização, neste Conclave, está belíssima. A escolha dos planos, o tempo, o ritmo, as performances. Fui surpreendido por um thriller intenso e brilhante, dentro das portas do Vaticano. Sugiro pouca pesquisa sobre a história do filme para não verem estragado nenhum dos plot twists, mas gostei muito da narrativa e do seu encadeamento.
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Li esse mesmo livro não há muito tempo. O seu propósito funcionou lindamente comigo e foi depois de o ler que vim até aqui. Adorei a forma propositada com que ele se repete, usa os tais lugares comuns e torna o livro simplista, como quem diz, “Estão a ver como vocês conseguem fazer melhor que isto” 🤭.
O MEC tem sido uma redescoberta: sempre embirrei com a escrita do homem, mas crónica a crónica ele tem-me conquistado. Já li alguns livros sobre escrita e o dele acaba por, de forma despretensiosa, ilustrar que para escrever basta escrever. O resto logo se vê.
Sobre as relações de amizade …. vivas ou mortas, recomendo uma carta a cada uma delas. Mesmo que não seja possível ou desejável enviar ao destinatário. Tenho escrito muitas cartas para aqueles que estão do outro lado da margem e só pelo facto de estás a escrever isto aqui já me estou a emocionar… Aqueles cujos caminhos deixei de cruzar, também já lhes escrevi … eles podem não saber mas já lhes perdoei/ desculpei/ já os libertei desta tendência demasiado humana de nos apegarmos ao para sempre.
A ideia da carta não é nada mal pensada. Fiquei com vontade de experimentar e logo decidir se guardo a carta nas profundezas do meu ser ou se a partilho com a pessoa visada, se ainda por cá andar.. E acaba por ser um exercício de escrita muito interessante. Obrigado pela dica
Que post bonito. Subscrevo muitas palavras, obviamente 🙂
Obrigado, Diana.