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Tive Sorte

On Junho 21, 2024porJoão Azevedo

“A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.” – Carlos Drummond de Andrade

Olá,

Na semana passada estivemos de férias, em Cabanas de Tavira. Voltámos onde fomos felizes e felizes fomos, novamente. Como já aqui escrevi, é bom tecer memórias e variar de espaço e rotina. Pudemos fazer praia, piscina e comer tão descansados quanto uma criança de um ano e pouco permite. Soube bem estar em família. Que privilégio.

Num destes dias, pude reencontrar um velho amigo que faço questão de visitar sempre que venho a esta zona. Há pessoas assim nas nossas vidas: encontramo-las, fazem parte da nossa vida e ficamos com uma necessidade de as reencontrar ao longo do tempo. Como sei que ele é picuinhas escrevo este texto sem nunca revelar o nome. Trabalhámos juntos dez anos. À época, um terço da minha existência que partilhei diariamente com ele. Foi a pessoa com quem mais tempo reparti tempo e espaço. Oito horas por dia, três mil e seiscentos e cinquenta dias. Tive sorte. Podia-me ter calhado alguém normal e aborrecido. Mas não, saiu-me na rifa um pessoa que me desafiou, fez pensar e crescer enquanto ser humano.

Aprendi a ser quem sou profissionalmente com ele. A ética de trabalho, a imposição de limites, o conhecimento técnico e a teia intrincada das relações humanas. Todos os dias pude observar e absorver as décadas de experiência que ele já levava à minha frente e admirar – admiração genuína – a fineza e calma com que se podia trabalhar de forma eficaz, correta e autêntica. Tenho conhecido muitas pessoas que gostam de assumir um papel de professor, que se acham um exemplo a seguir. Desconfio muito delas. Nós aprendemos com exemplos diários, pequenos detalhes que observamos e nos deixam marcas indeléveis. Levo comigo milhares de histórias, umas muito cómicas que de vez em quando relato aos meus atuais colegas de trabalho, outras que serviram como autênticas lições que me tornaram no profissional que sou eu. Também retive as manias e metodologias que, às vezes, tenho alguma dificuldade em desconstruir. Lembro-me de me chatear com ele, qualquer que fosse a razão, e ser desarmado por um “vais ficar amuadinha, é?”. Choquei com a autocrítica e a necessidade de resolver as coisas o quanto antes. Com ele aprendi a refletir e a enfrentar as situações, por mais difíceis que sejam. A inevitabilidade é, em si, uma aprendizagem quando começamos a trabalhar a aceitação. Dentro do trabalho e, ás vezes, até fora dele.

Mas onde realmente tive sorte foi com o ser humano que ele revelou ser. Conheci poucos deste calibre. Mostrou-me música que nunca sequer tinha equacionado que pudesse existir, com devida contextualização histórica e, a cereja no topo do bolo – ou cenoura, como gostávamos mais de dizer – com um entusiasmo desmedido. Voltei a aprender o que significava apreciar arte, a sua beleza. Como diz o maestro Martim Sousa Tavares, o belo é algo que todos concordamos que existe mas cuja definição é difícil de concretizar. É algo de inefável. Sem imposição, sempre com sugestão, ele mostrou-me a sua visão de belo. Também com livros, autores portugueses, estrangeiros. Para meu gáudio, também era fã de ficção científica e eu, ainda na liga amadora, fui apresentado ao gigante Heinlein, à Ursula, entre outros. Um Estranho numa Terra Estranha continua a ser um dos livros mais fascinantes que já li e as interpretações, ideias e debates que tivemos sobre a sociedade e personagens do livro foram incríveis.

close-up photo of two wooden mannequins sitting on bench

Uma vez, quando lhe disse que estava a ler a biografia do Luiz Pacheco, fiquei a saber que ele tinha partilhado uma casa com ele. Tempos inenarráveis, portanto. Fiquei a saber pormenores biográficos interessantíssimos, fascinantes, sempre partilhados com autenticidade, sem demagogias ou soberbas. Nunca quis ser meu professor, nem de ninguém. Tive o apoio e conselho sempre que precisei e fui confrontado com as minhas imbecilidades de forma inteligente: na maioria das vezes que lhe fiz perguntas, não obtive respostas. Recebi sempre algo melhor: ideias e novas perguntas para eu próprio chegar às minhas conclusões. E isso, em retrospetiva, é impagável. Li há uns anos um livro do Russell Brand chamado “Mentors”. Discorre sobre a importância de irmos encontrando – e procurando – mentores para as diferentes fases da nossa vida. São pessoas cuja experiência e vivência podem ser partilhadas de uma forma altruísta e cujas aprendizagens nos fazem crescer como seres humanos. E que nós encontremos nelas, de algumas forma, uma inspiração e incentivo para nos superarmos. Ao longo da minha vida, sempre evitei estas pessoas. Tive a arrogância e imaturidade de me achar a última Coca-Cola do deserto em quase tudo e padeci, em forma agravada, do complexo de Dunning-Kruger. Qualquer pequeno conhecimento que tivesse sobre algo, achava-o suficiente e grande, e nesse meu monte da estupidez ficava incapaz de perceber o quão nada sei. Achava que sabia tudo, mas nem sabia que nada sabia. A minha imaturidade de outros tempos procurou sempre pessoas que validassem e reforçassem os comportamentos que queria levar avante. Brand escreve sobre o quão transformador pode ser termos figuras de referência ao longo da nossa formação, mesmo – e às vezes sobretudo – como adultos. Não falo de personalidades sobre as quais lemos e sentimos uma identificação enorme – que também têm o seu lugar e papel, ou não fosse o Che Guevara uma das minhas referências. São pessoas concretas com as quais podemos comunicar e, principalmente, escutar e aprender com o exemplo. Não são perfeitas, cometem erros, mas em determinados campos possuem conhecimentos e experiências que, ao serem partilhadas e ensinadas, nos engrandecem. Mas, em determinados momentos e áreas da nossa vida, precisamos delas, mesmo que não o saibamos.

Tive sorte porque, em vez de um colega, ganhei um Amigo, daqueles com A maiúsculo. Ganhei, também, um mentor – apesar de só o ver através desta lente muito recentemente. Há já alguns anos que não trabalhamos juntos mas faço uma questão enorme de o ver sempre que passeio por aqueles lados. Faz-me falta. Porque quando nos sentamos e conversamos parece que o tempo não passou e que apenas estamos a retomar o fio à meada. Porque sou recebido sem uma única exigência, vejo a minha família acolhida como se fosse a dele, e com ele sinto-me em casa. Porque posso ser inequivocamente eu, sem filtros, nem máscaras e sem receios de ser julgado. Porque vou ser chamado à atenção, se for preciso. Ou valorizado pelo que sou, penso e digo. Vou ser posto em causa e vou ter que pensar e voltar a pensar em inúmeras temáticas. Dificilmente o convencerei de algo sem uma argumentação sólida – solidez, essa, muitas vezes aparente e rapidamente desmontada. Mas estou confortável na crítica, no desafio, no estímulo que só pessoas interessantes, e importantes na nossa vida, nos conseguem provocar. Alguém com quem aprendi que construímos um mundo melhor partilhando pão. Um prato. Sem questões, nem favores em troca que, passo a citar, “isto aqui não é a máfia”. Partilhar livros, canções, histórias, pedaços da vida, pensamentos, emoções.

Dói-me a distância e a ausência dele na minha rotina. São saudades, claro. Mas vejo-o feliz e com uma vida que, apesar de nunca a ter imaginado, me faz todo o sentido. E continua ao alcance de um telefonema para podermos retomar onde ficámos. Como na citação do Drummond de Andrade que serve de subtítulo a este texto, gostava que as amizades dos meus filhos se transformassem em pessoas que vão cultivando. E que seja nesse jardim, cuidado e tratado, que eles possam florescer.

Até para a semana,

João

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