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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Poemas Possíveis

On Abril 24, 2026porJoão Azevedo

Olá,

Percebi, há uns tempos, que vivo uma relação tóxica com a poesia. Diria, até, abusiva e violenta. O meu querido Saramago tirou-me as palavras da boca com o título do seu livro de estreia nas artes poéticas: os poemas possíveis. Passo a explicar: na minha vida, a poesia existe na medida do possível. Rasgou-me a interioridade quando a conheci, verdadeiramente, graças à Cláudia. Já tinha uma certa curiosidade, já tinha rabiscado uns poemas, já tinha até decorado a primeira estrofe d’Os Lusíadas graças ao hino da minha associação dos escoteiros. Mas nada se compara à primeira vez em que me é posto à frente um poema do Álvaro de Campos (tabacaria?) e o vejo dissecado por alguém com gosto e paixão e amor pela causa. Há um antes e depois de perceber a visceralidade que um texto pode ter e a densidade de sensações que ele nos apresenta. A maior parte delas, não sabíamos serem passíveis de se sentir.

Tal é o tamanho da poesia na minha vida que, rapidamente, fui esmagado pela enormidade de poemas, autores, leituras, estilos e panóplia de secreções poéticas que dela escorrem. Ela aparece-me, grosso modo, inesperadamente. Titubeante; e apanha-me, quase sempre desprevenido. Uma estrofe que me cativa a atenção, o pensamento e me alheia da realidade. Um voo de grande altitude num planador que nunca percebi se era meu. Depois, a descida, controlada, ao sabor dos versos e dos ventos, das correntes e das rimas. Quando aterro – se é que chego, de facto, a aterrar – parece tudo igual ao que era. Mas não é. Porque, nesse preciso momento, tenho a consciência que um novo poema, ou parte dele, habita em mim. Gosto de pensar que somos a soma dos poemas que nos vão compondo: desta maneira, quase Crística, há um poema em todos nós. Mas, divago. Confessava aqui que a poesia me assalta, sem aviso, e faz de mim o que quer, sem consentimento. O meu corpo limita-se a reagir ao impacto das palavras e, depois, fica a ruminar putativos significados e ilações. É um despejo emocional que é feito sobre mim, pelo poema. Gostava que assim não fosse. Que se cumprissem as regras da moral vigente e me fosse dada a escolha de querer, ou não, ser arrebatado por uma amálgama de palavras. Que elas pedissem permissão para me tocar, mesmo nas partes intangíveis como a alma, o coração ou o âmago daquilo que sou. A poesia argumenta que é da sua natureza ser assim. É o seu pathos e propósito e poder. Exerce-os sem pudor nem constrangimento. Aqui, perceber-se-á a toxicidade da relação que tenho com a poesia. Tem sentido único, a maior parte das vezes. Às outras, já lá iremos. Faz o que lhe apraz em desprimor dos outros, interessa-lhe somente o umbigo, figurativo e antropomorfista. Depois, desaparece. São dias, semanas e meses em que fico grudado nos versos e estrofes que me assaltam ininterruptamente. No fim, fica a sensação de vazio igual à de uma paixão arrebatadora que, subitamente, termina. Aí, deito-me onde calha, de lado, e levo os joelhos ao peito. Fixo o olhar num ponto sem relevância e sinto, na boca, uma película feita de abandono e vazio que se forma a partir da ausência dos poemas.

Photo by Aaron Burden on Unsplash

A memória que principia o sonho de ser escritor começa num poema. Foi a primeira coisa que, com orgulho, senti que tinha criado e que ultrapassava quem era. Permitam-me explanar: quando me proponho a escrever e concluo um poema ou um texto, acabo sempre com a sensação que não fui eu o autor. Dá-se uma espécie de transe, um fluxo, um pico de concentração, que espreme quem sou num determinado ponto do tempo. Vão-me saindo palavras, frases, ideias, conceitos. Quando dou por mim, estou a escrever algo que não sabia que pensava, que sentia. Fico a conhecer-me melhor. É essa sensação que me rasga a memória desse primeiro poema, dessa conquista, de algo que me sabia bem reler e cuja autoria desconfiava. Mas deixei-me ir. Pontualmente, deixo-me arrebatar por urgência nas vísceras e sou impelido, quase de forma compulsiva, a escrevinhar uns versos. Algo que traduza aquilo que borbulha dentro de quem sou e não compreendo. Noutras vezes, escrevo sobre o que nem sabia saber, ou sentir. Saiem-me versos, depois estrofes. Esta convulsão degenera em poemas. A grande maioria são pouco mais que a escatologia e imundície que habita em mim. Mas, de tempos em tempos, aparece um poema bom. E releio-o, com o espanto de uma criança que começa a descobrir novas partes de si. Esses poucos poemas que conseguem ser mais que uma regurgitação nunca deixam de surpreender. Coloquei-os por extenso com uma caneta ou digitei-os num teclado e, de alguma forma, facultei-lhes uma gestação. São a descendência daquilo que também posso ser. Gostava de dizer que lhe tomei o gosto. Longe de ser o sonho idílico onde uma musa nos inspira, escrevo poemas pontualmente. É o exorcismo que se torna imperativo quando a prosa não me basta. O cultivo do hábito da escrita nada pode perante a altivez de uma vontade que sinto como minha. Os poemas saem no tempo deles e são poucos os que valem a pena ser relidos. Sou o amante ou amigo com benefícios que a poesia usa quando lhe apetece e nem sempre acaba bem para os dois. É uma cópula egoísta que dispõe do meu tempo e corpo e cria-me a ilusão de que também será proveitosa para mim. Nunca o é, verdadeiramente, condenando-me a uma constante espera pelo regresso da alquimia que me permite construir um poema.

Invejo os poetas. Gabo-lhes esse constante delírio que os mantém profícuos na escrita, donos das suas canetas e com ganas que, a mim, parecem poços sem fundo. Parecem viver uma relação saudável com os seus poemas, livres de escreverem quando e como querem, trocando as horas de laborioso trabalho por versos e estrofes e ideias que de outra forma nunca seriam materializadas. Mas, quem quero eu enganar? Eles são somente a insistência que eu pareço ter só para a prosa, são justos merecedores de cada letra e sílaba que conseguem suar dos seus corpos. São, tanto quanto eu, vítimas desse furto que a poesia teima em fazer áquilo a que comummente chamamos de alma. A inveja é uma coisa muito feia, portanto. Essa cobiça do que aos outros pertence só porque também gostaríamos de o ter. Há umas semanas, onde trabalho, calhou-me gravar um poeta. Nem tudo são sevícias no mercado laboral. Sabia-o escritor, criativo, não lhe conhecia a poesia. Enquanto o gravava, imprimia-se em mim o transtorno de só o ter conhecido agora. Perante um poema que nos arrebata há, também, a terrível sensação de que estivemos toda a vida a perder algo. Ouvia-o a entoar as palavras desse texto na ponta da língua, bem sabidas e saboreadas. Cunhava-as com a mestria apenas possível pelo autor; que sabe, desde o início, qual a cadência necessária para cada momento. Quando terminámos, elogiei-lhe alguns poemas e falámos de poesia. Haverá coisa melhor? E este poeta não tinha o rei na barriga, pelo contrário. Tinha ainda o brilho dos olhos tímido, como quem ainda pede a aprovação de quem o lê. Decidiu ofertar-me o seu mais recente livro e autografou-mo. Fiquei contente, claro. Não é todos os dias que um poeta nos oferece um livro seu – sabemos bem a vida precária que a escrita consagra aos seus mais fiéis crentes. Quando cheguei a casa, li alguns dos poemas. Regressei ao abraço prensado que a poesia parece ter sempre reservado para mim. Nem tudo é mau, pensei. Também há partilha e generosidade na poesia que anda por aí. Nem tudo é mau, realmente. Só espero que isto não seja fruto de um qualquer síndrome de Estocolmo. São, lá está, os poemas possíveis.

Abraço-vos,

João


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Tags: 2026, Álvaro de Campos, Assalto da poesia, Crónicas, Densidade de sensações, Despejo emocional, Escrita compulsiva, Inveja dos poetas, Memória de ser escritor, Poemas como exorcismo, Poemas possíveis, Relação tóxica com a poesia, Síndrome de Estocolmo, Transe na escrita / Fluxo, Vazio e abandono, Vida precária da escrita, Visceralidade do texto

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