Olá,
Vi há umas semanas o mais recente documentário do Louis Theroux sobre a manosfera. Apesar de vários momentos de repugnância e incómodo, acabei de o ver e não aprendi nada de novo. Os protagonistas são broncos que apregoam uma masculinidade ultra tóxica e misógina e que exigem um padrão moral ao qual, categoricamente, se imiscuem. Cultivam o corpo e a sua imagem, numa constante procura por validação externa, sempre a tentar aumentar o número de seguidores, de visualizações para conseguirem monetizar cursos inúteis e esquemas financeiros disfarçados de conselhos. As mulheres são meros acessórios à sua existência, apesar de serem a métrica pela qual essas anémonas constroem o seu valor próprio. Faz o que te digo e não o que eu faço, portanto.
Não vou discorrer sobre o fenómeno em si. Já escrevi sobre essa toxicidade algumas vezes por aqui e julgo não ter muito a acrescentar. A Maria das Palavras deu-nos a dose certa no seu comprimido sobre o tema. O que me interessa trazer para o debate é a questão da transversalidade do problema: a forma, lenta e gradual, com que temos sido domados e manipulados por forma a deixar que este tipo de ideias permeie as múltiplas camadas sociais. Não deixa de ser curioso que quem se preocupa com questões de direitos e de equidade tenha memória selectiva e ignore, consciente ou inconscientemente, as origens do problema. São múltiplas e interseccionam-se de várias maneiras, contribuindo para este melting pot de valores em decadência. Hoje trago, portanto, questões que me têm apoquentado nos últimos tempos, como pai, como cidadão, como amigo, como ser humano.
A série Adolescence trouxe, no ano passado, esta questão pertinente para a ribalta. Com foco nos pequenos detalhes – e são eles que compõem o gradiente complexo de causalidades – a série deixa ao critério do espectador o que poderemos equacionar como origem do problema. São os computadores utilizados por menores sem qualquer tipo de supervisão e, pior, sem noção dos potenciais perigos que estão logo atrás de um clique numa página imprópria, ou num perfil de rede social pouco recomendável. Ou os smartphones em idades precoces, permitindo-lhes o acesso à rede global – e as suas armadilhas– num dispositivo que anda no bolso. Em que momento achámos que uma porta de entrada para um mundo digital desregulado e nada adequado a menores seria uma prenda ideal para crianças de dez, onze, doze, treze anos? Sendo conhecidos os perigos da exposição precoce a pornografia, bem como o enfraquecimento da capacidade de concentração e a habituação a conteúdos curtos e de fácil digestão intelectual, como os permitimos no quotidiano? Aceitamos a constante ligação a redes sociais e o impacto na saúde mental, quer pela criação de modelos de referência inadequados ou pelo bullying constante que encontramos nestas plataformas? Que linha separa o laxismo da negligência?

Como chegámos aqui? Podemos ignorar que as últimas décadas de voyeurismo em horários nobres e outros conteúdos televisivos – que em nada estimulam o desenvolvimento de um sentido crítico ou fomentam debate de ideias – foram os precursores desta exacerbação da alienação que vivemos hoje? Que a degradação do jornalismo e da circulação de informação e as suas amarras a interesses financeiros e geopolíticos também agudizou esta democratização da ignorância e do alheamento? Exacerbamos, cultural e socialmente, a relevância do conforto; procuramos sempre a forma mais fácil e confortável de fazer as coisas. O caminho com o menor atrito possível. Consequentemente, exigimos menos, refletimos menos, conversamos menos e acabamos por ficar retidos numa espuma dos dias que não permite qualquer tipo de fundura. Lemos pouco ou quase nada, relegando esse privilégio para as elites, perpetuando ciclos de pobreza geracional e cultural. Aqui, menos com menos, não dá mais.
Permitam-me a polémica: somos cúmplices da degradação do sistema de ensino. Porque deixámos uma classe profissional ao abandono, envelhecida e cada vez mais precarizada. Secundarizamos a importância na formação social e cultural das nossas crianças e adolescentes. Primeiro, porque não somos atores participativos no processo pedagógico e olhamos a escola como um local onde se despejam crianças e se aguarda que a pedagogia vigente surta efeito. Sem uma participação ativa, não sabemos que pedagogia é essa, quais as suas linhas orientadoras e consequente qualidade de ensino. Depois, assistimos a décadas de reivindicações de melhores condições para quem trabalha no ensino serem ignoradas. Não me lembro de programas de investimento robustos no sistema público de ensino, nem de melhorias salariais que atraiam novas gerações de professores, nem formações pedagógicas contínuas para contribuir para o melhoramento da classe profissional. Agarramo-nos às excepções de maus profissionais – as histórias das desgraças correm mais rápido que as outras – e julgamos. Indignamos-nos com as greves que fazem e tanto transtorno causam aos pais e patrões, ao invés de reconhecer que são exigências que apenas visam, em última análise, melhorar o percurso escolar dos nossos filhos. Teimamos em esquecer os casos de sucesso, os professores que fazem a diferença e que mudam a vida dos seus alunos. Onde é que esta linha se esfumou e passámos a ver pessoas precárias, com colocações longe das suas casas, como inimigos e problemas, em vez de parceiros na solução? Estou a par dos abusos na função pública, claro. Das baixas médicas duvidosas e de professores que não o deviam ser. Mas que se fiscalize e avalie e exija o máximo possível destes profissionais em vez de minar a sua importância na nossa sociedade. E a quem interessa que assim seja? Quem beneficia do status quo? E porque é que as elites das escolas privadas – cujo investimento financeiro é claramente superior – continuam a ter melhores resultados, melhor integração?
O problema é estrutural. Costumo usar um anglicismo que encapsula bem esta questão: o problema existe by design. Esta permeabilidade a conteúdos da manosfera, estes valores acéfalos – e de fácil desconstrução – que proliferam nos jovens, a capacidade de concentração cada vez mais residual, a ausência na esfera pública de pensamento mais denso e complexo, a simplificação e homogeneização da política, da cultura e da existência no geral são by design. Há lucro nesta forma de organização da sociedade. Esta ignorância e apatia que são fomentadas servem propósitos e agendas e interesses. Há um esforço consciente para a perpetuação dos sistemas de opressão vigentes. O patriarcado serve-se a si mesmo, o racismo serve-se a si mesmo, a misoginia serve-se a si mesma. O privilégio de classe, género e raça é uma coisa muito concreta que tudo fará para se perpetuar no poder das esferas de decisão. Somos terraplanados diariamente, há anos, para sermos crentes naquilo que nos dizem, bons consumidores e cidadãos conformados. Manipulados, também. Há, claro, uma bolha de pessoas que partilham destas minhas crenças e valores e ideias. Mas essa bolha parece-me cada vez mais exígua, nos últimos tempos. Sinto que somos cada vez menos a resistir à norma. Vencem-nos pelo cansaço num mundo onde tudo aparenta ser fácil se, simplesmente, nos deixarmos ir. Se não pensarmos muito no assunto. Se nos imiscuirmos das responsabilidades e fecharmos os olhos às consequências. Por isso, parar para ler um livro nos dias de hoje é um ato de resistência e subversão. Reflectir com profundo sentido crítico sobre as coisas é um radicalismo. O elitismo combate-se, suponho, apropriando-nos dos hábitos das elites aos quais, ainda, conseguimos deitar a mão. Reduzir tempos de ecrã, de dependência das redes e abrir espaço para o aborrecimento e cultivo pessoal é, cada vez mais, um exercício de liberdade. Estas esferas que nos agrilhoam precisam ser questionadas e ajustadas a formas verdadeiramente livres para existirmos. A alternativa trouxe-nos até aqui – e é má demais.
Abraço-vos,
João
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