Sou um ser de hábitos e encontro enorme conforto na rotina. Mas, de tempos a tempos, por força das circunstâncias e da impermanência de que o mundo é feito, vejo-me forçado a mudar. Novas rotinas, outros horários. Depois da resistência inicial, a paternidade permitiu-me alguma flexibilidade. Era mais complicado, antes. No ano em que dei o grito do Ipiranga e saí de casa do meu pai, meses depois, ele teve um princípio de enfarte do miocárdio. Nunca percebi bem esta nomenclatura, nem a sua validade médica mas, em boa verdade, foi precisamente o que aconteceu. Uma dor no peito, uma ameaça, que não passou disso, apesar do par de noites em observação na cardiologia do Santa Maria. A doença tem esse condão: reformula as prioridades e relembra-nos da efemeridade da vida e o quão frágil é. Põe em xeque a certeza com que vivemos os nossos dias. Reformula a prática das relações que temos – quebra-lhes a rotina.
Desde então, ligava-lhe todos os dias de manhã. Se não atendia, repetia o telefonema. Ou aguardava, dependia dos dias, da minha insegurança e medo e pessimismo. Ficava aflito quando a resposta tardava, e congeminava os piores cenários: um corpo estendido no chão da sala, ou deitado na cama num sono do qual não se volta a acordar. A velhice tem disto. Há um definhar que se acentua e um receio que se instala nas pessoas ao redor. A minha tia também começou a ligar diariamente, também de manhã. Ambos lhe chamavam prova de vida, os dois irmãos marretas, septuagenários, que tinham nessa confirmação matinal a sua linguagem de amor.
Sempre achei piada à expressão, apesar de sentir que uma prova de vida ter que ser mais que estar vivo. Viver é mais do que isso mas conheci pessoas que se contentaram com a repetição de inspirar e expirar o ar que as rodeia. Por isso tenho tanto medo quando penso na minha velhice; de me esquecer da dádiva que é poder viver e ter usufruto dos pequenos detalhes que enriquecem os nossos dias. Medo de me esquecer de contemplar e de testemunhar o sublime. De me deixar amargurar e perder a tesão pela vida e ser terraplanado por um mundo duro e, demasiadas vezes, cruel.

Há uns meses cruzei-me com um familiar com quem sempre tive uma grande afinidade. Já não o via há uma porrada de anos, afastados sabe-se lá porquê. Bom, até sei: esse meu primo, aos poucos, foi abdicando da joix de vivre. Inconveniente, como foi sempre seu apanágio, no velório do meu pai apontou para o caixão e disse:
Eu só estou à espera disto.
Há vidas que são engolidas pelo tempo, pela rotina e pela bagagem geracional que carregamos, seja de forma consciente ou não. Existe uma solidão tão profunda que se consegue enraizar dentro de nós e tomar as rédeas da nossa vida. A rotina devora-nos, digere-nos e sentimos que, no fim desse trato gástrico, não somos mais que excrementos num mundo demasiado grande. Ficamos reféns de hábitos e padrões pouco saudáveis e vamos enterrando a nossa essência e substituindo-a por uma qualquer alienação. Somos sequestrados pela avalanche de eventos que sucedem em catadupa e pela aleatoriedade genética e social. Encarar a morte como um destino pelo qual se anseia quando estamos enfadados pela vida é o pináculo desta experiência, suponho.
É precisamente isto que me assusta. O saber que a prova de vida não é um telefonema diário que ateste que ainda respiramos, sabemos quem somos e somos sustentados por uma batida cardíaca. A prova de vida é encontrar sentido e propósito na nossa existência e deixarmos-nos suster nele. A conceção desse significado vai mudando, ganhamos outras prioridades. Mas viver é ir tendo a noção de que, mesmo mudando, e acolhendo essas mudanças, a vida tem um sentido, nem que seja a sua fruição, seja qual for a maneira que encontramos para o fazer. Pontualmente, também encaro o abismo que habita em nós. Desço às profundezas onde a luz aparenta ter-se extinguido e onde sobeja, somente, angústia. Consigo empatizar com o lugar do qual o primo fala e compadeço-me com esse sofrimento, demasiado familiar. Tenho conseguido escalar essas profundezas e volto a pisar terra firme, onde o sol brilha e há esperança nos dias que se avizinham. Espero conseguir fazê-lo sempre e não ficar à espera de um caixão, amorfo e apático. Essa é a prova de vida que interessa.
Abraço-vos,
João
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