Olá,
Há sonhos que ficam colados à pele. Acordamos, estremunhados, ainda com resquícios dessas imagens, sensações e impressões. A sensação de desconforto, se se tratar de coisas menos boas, ou de conforto, se for algo que nos faça sentir abraçados. No último ano tenho sonhado muito e, também, tenho evitado pensar sobre o significado dos sonhos. Varro para debaixo do tapete os gritos do subconsciente que vão ecoando enquanto durmo. Tenho medo do que possa estar por detrás de cada sensação inquietante — e têm sido tantas e tão diferentes. Às vezes acordo com o peito e a nuca húmidos de ter estado no precipício de um pesadelo. Nem sempre caio dentro dele, fico na orla, perante o perigo, como se de um buraco negro se tratasse e eu ficasse somente no horizonte de eventos. Sinto medo, desconforto e inquietação. A impressão entranhada nas vísceras é de difícil descrição. Algo que não está bem ou que não bate certo. Acordo, também, confuso. Por não perceber bem o que sonhei, por não reconhecer as impressões, ou imagens, ou sensações. Volto a ter medo, desta vez do que não conheço: o que é isto que habita dentro de mim, esse negrume que nem sempre se deixa descrever?
Conheço pouco da psicologia dos sonhos. Já falei de alguns em terapia, já li sobre significados comuns, sobre arquétipos, sobre o inconsciente coletivo, mas acabo sempre por não querer aprofundar muito a coisa. A ignorância pode ser a bênção que me protege de mim próprio. Haverá inimigo maior do que aquele que vemos no reflexo de um espelho? Sonho com pessoas que não vejo há demasiado tempo, em casas e locais que são construções com peças de puzzle que fui recolhendo ao longo da vida. Divisões que nunca se tocaram e se juntam a paisagens que se parecem com um Alentejo rasgado por montanhas. Um Portugal feito de fragmentos de si mesmo, mas com neves nórdicas e arquiteturas de outros países. O mundo dos meus sonhos é feito do que fui conhecendo, vendo, lendo e imaginando. É feito disto tudo e depois triturado numa batedeira. Acabo por coar essa alquimia de realidades, imagens e memórias para dentro dos meus sonhos. Novamente a estranheza, a inquietação. Poucas vezes são coisas boas. Como se fossem avisos, prenúncios, presságios. Maus agouros.
Essa escuridão aperta-me a goela. Há corpos e desejo que se misturam com imoralidades. Nada é nítido. Embriagado pelo que sinto vou vislumbrando tristes espetáculos onde, por vezes, sou ator secundário. Ou principal, depende do dia, da fel ou da mágoa que habita esse mundo. Quem é este eu que realiza e participa nestas sequências?, pergunto-me.
Desconfio que sou pedaços desses espaços oníricos. Ponho de parte códigos morais e sociais e permito-me ser eu. Tenho passado os últimos anos a aprender essa permissão: nos sonhos, sou eu, sem restrições, sem julgamentos e sem consequências. Porque tememos as consequências de sermos quem somos? Somos máscaras de autopreservação que colidem umas com as outras todos os dias. Suavizamos fricções que tecem as nossas relações, escondendo partes de nós. Revelando somente o necessário. O aceitável. Nos sonhos deixamos cair as máscaras, são outras fricções e revelamos tudo. Fico com a ideia que tenho muito a aprender com os sonhos, e a principal lição é a coragem que me falta acordado.
Os pesadelos são arenas onde somos confrontados com os nossos medos: os medos de perda, de humilhação, de vergonha. É onde vislumbramos os monstros que nos cercam e os que habitam em nós. Combatemo-nos, gladiadores. Ave somnium, morituri te salutant. Aceitamos essa putativa morte simbólica enquanto estamos retidos no limbo da consciência. Num sonho, a liberdade de aceitar a morte permite-nos transformar o arrepio na visão mais nítida e clara de quem somos.
É preciso coragem. Vivemos a nossa saga do herói todos os dias. Acordados, suspiramos pelo que podíamos ser. Ao dormir, prendemos esses titãs que construímos na nossa mente e vivemos livres, com todos os riscos que tal odisseia carrega.
Abraço-vos, João
- Há livros que nos trespassam. Acabei recentemente “Outro País” do James Baldwin. A experiência da pele negra estadounidense dos anos 50 e 60 é avassaladora para quem, como eu, nasceu com o privilégio de ser branco. A incapacidade crónica de lidarmos com bestialidade da estrutura racista, sistémica e endémica, vigente é gritante. Por cá, esse desconforto também pode ser encontrado no facto deste autor, um portento literário do século XX, só ter sido editado em Portugal pela primeira vez em 2018. Mas o livro não é somente sobre racismo, nem género, nem sexualidade, nem identidade, nem cultura. É sobre tudo isto, sim. Mas também sobre a complexidade da vida, as múltiplas formas que uma existência pode assumir. É um livro que relembra uma humanidade que julgo termos perdido algures nas últimas décadas. Sempre que leio livros de autores americanos desta altura, invejo este tempo em que a cultura era, de facto, um possível grito do Ipiranga para a libertação humana. Onde a música e os livros tinham a reverência merecida, própria dos instrumentos de elevação humana.

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