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Crónicas . Da Balbúrdia Article

As Crianças e o Fim.

On Abril 3, 2026porJoão Azevedo

Olá,

O que é a morte para uma criança? É um exercício curioso ver a relação das crianças com a morte, nas várias maturações intelectuais que vão passando. O meu filho mais novo, com quase três anos, não compreende o conceito, nem a ausência. É normal que assim seja no seu pequeno cérebro de menino. Os elos emocionais estão assentes nas figuras cuidadoras que suprem as suas necessidades. Às pessoas que escolhem estar presentes na vida dele e o tratam com amor e carinho. O conceito de uma partida definitiva é de difícil compreensão. Que bom que assim seja: a imaturidade torna-se numa bênção e minimiza-se o sofrimento. Infelizmente, às custas de uma vã memória. Nestas idades, quem morre vive nas fotografias connosco ao colo, nas histórias de família que se contarão à mesa. Eu vivi o meu avô paterno desta maneira, por exemplo. Não me lembro muito bem dele, mas tenho as memórias dos relatos, das histórias. A imagem vívida de uma fotografia. O meu filho mais novo terá uma experiência semelhante com o seu avô paterno, suponho.

Para as crianças mais velhas, a história é diferente. Há a perceção do que se está a passar. A ausência e a falta são reais, bem como os sentimentos consequentes: a saudade, a tristeza, a incompreensão. Quando era novo, fui escudado da morte: os funerais e os rituais, esses, só os conheci já adolescente. Socialmente, a morte é incómoda. Escondemos a morte, deixamo-la confinada a espaços específicos, evitamos pensar nessa impermanência. Não queremos, portanto, ser confrontados com a enorme fragilidade de que somos feitos. Mas esse término é parte integrante da existência humana. É das poucas certezas que temos. É o fim daquilo que conhecemos e, sem certezas do que haverá depois, temêmo-lo. Esse receio faz-nos higienizar todo o processo e deixá-lo nas margens. E essa marginalização mina a capacidade de gerirmos emocionalmente as pessoas que perdemos. Suponho, então, que aceitar a naturalidade da morte, e integrá-la de uma forma mais ativa no nosso quotidiano, seja uma ferramenta poderosa para o futuros lutos que teremos de fazer.

Lá em casa, a doença e a morte são conversas adaptadas às respectivas idades, não são um tabu. A ida a funerais não é um exclusivo dos adultos. Regresso à ideia do igual-valor e perceber as crianças como nossos pares. O mais velho já pode escolher se quer ir ou não, se for logisticamente possível. Esta é uma das formas que nós temos de praticar esse igual valor com os nossos filhos. De não os infantilizarmos e encararmos como seres capazes do seu próprio processo de gestão e regulação emocional, com o suporte, orientação e acolhimento da nossa parte. Ser pai, a meu ver, é muito isto: assumir as nossas vulnerabilidades e orientar o melhor possível os nossos filhos a lidarem com as suas. Sempre numa perspectiva de acolhimento e colo emocional, claro. Talvez assim, não escondendo essa parte tão traumática da existência humana, consigamos dotar os nossos filhos de melhores ferramentas para processar a morte.

Photo by K. Mitch Hodge on Unsplash

Todavia, é desconfortável ver quem amamos em sofrimento. Saber que uma morte – ou a perspetiva dela – afeta sobremaneira quem amamos. A tal higienização da mortalidade humana, o constante varrer para debaixo do tapete, tornam-se apelativos. O instinto paternal impele-nos a escudar e proteger. Não queremos ver um semblante cabisbaixo, ou uma tristeza aguda; queremos proteger, acolher, abrigar. É preciso, pois, coragem para nos permitirmos sentir; mais coragem ainda para dar espaço a quem amamos para sentir o que sente, por mais doloroso que seja. Amar, parece-me, é também viver essa coragem.

Gosto mesmo da ideia do luto ser amor que ficou por expressar. As crianças fazem-no, talvez, da maneira mais genuína possível. Nestas alturas vemos que a presença das pessoas foi importante, por mais difícil e condicionada que tenha sido. Estar presente, sob a forma que for, é o que cria o laço humano. O que fica na memória é o tempo partilhado; recordamos olhares, conversas, sorrisos e expressões. E também rituais, maneirismos e hábitos dessas pessoas que ficam tatuadas em nós. Por isso, diria, haja tanto amor que fica preso dentro do nosso peito. E daí, passe o cliché, a importância de aproveitarmos enquanto podemos.

Abraço,

João


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Tags: 2026, amor, Ausência, coragem, crianças, Crónicas, família, Higienização da morte, luto, morte

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