Olá,
Mergulhemos na essência que compõe a vida. Vamos, de cabeça, sem recear o desconhecido, sem temer o desfecho mais trágico ou deixar de saborear os acasos felizes com o melhor gosto. Atente o caríssimo leitor que não se trata de irresponsabilidade mas, sim, de aceitar o fatalismo existencialista de que somos um todo para a morte. Rodriguinhos à parte: nascemos para viver uma vida sobre a qual pouco ou nada controlamos e somos feitos da substância cumulativa das escolhas que fazemos perante o que nos acontece.
Se bem executado, um mergulho destes pode ser uma lição de humildade. Constatamos que a nossa humanidade é um projeto coletivo cuja enormidade ultrapassa a nossa compreensão, por mais que queiramos que assim não o seja. E não gostamos da sensação de que somos demasiado pequenos para conceber significados e definições. Mas, a contragosto, e livres de ilusões de grandeza, percebemos que os nossos propósitos são meras conjecturas. A nossa intuição é fruto da súmula de experiências e senso comum; quiçá, não haja um desígnio maior, um caminho grandioso ou uma sublimação que vamos aguardando que nos atinja. A epifania deixa-se eternamente adiada e nós, saturnianos, aceitamos que assim seja porque pouco ou nada podemos fazer.
Abeiramos os pés, fletimos os joelhos, cóccix a apontar o céu, espinha direita, braços esticados e laterais à cabeça. Inspiramos fundo e deixamo-nos ir, com ou sem confiança. A queda dilata o tempo. Lá em baixo, o mundo, agigantado pela nossa pequenez. Os segundos roçam-nos a pele e confundem-se com o vento enquanto sustemos a respiração, receosos. Caímos, desamparados, ficando cada vez mais perto dessa amálgama de humanidades entrecruzadas que o acaso tratou de hierarquizar, formando pirâmides de corpos onde, sabe-se lá porquê, as bases sustentam o topo. A meio da descida, percebemos os olhares vazios de quem carrega o peso dos outros nas costas. Estão o tempo todo cabisbaixos e fixam o olhar no chão: isto de carregar o próprio peso e o dos outros não é fácil e cobra caro ao corpo. Pontualmente, vemos algumas cabeças que teimam em olhar para cima. Cobiçam o esforço gradualmente menor dos corpos de cima – carregam menos. Invejam o topo, que não carrega, só é carregado, e não compreendem porque as coisas são assim. Assim o são porque sempre o foram, suspiram silenciosos.

Os livros vão-nos dando outras luzes. Ensinam-nos outras humanidades e outras formas de viver. Há uma empatia que só se aprende nas páginas que folheamos, que nos força a olhar nos olhos as vidas de outros, feitas de lágrimas e sorrisos e ilusões, tal como a nossa. Agora, interpelo quem me lê e faço a ressalva: não sou douto sabedor de coisa nenhuma, somente constato o que observo. Porém, é mesmo nas histórias que ficaram escritas que encontro conforto e amparo na minha própria queda. Vou crescendo; não nos ombros de gigantes que nunca conheci, mas em pilhas dos livros que vou lendo. São bóias no oceano tecido por tudo o que nos rodeia e em cujas águas terminam os mergulhos que vamos dando. Isto quando, perante a iminência da queda e o desconforto de ficar sem chão, temos a coragem de deixar a gravidade fazer o que lhe compete. Permitam-me uma nova incursão ao leitor: ainda tenho demasiado medo de mergulhar e, regra geral, só o faço por força das circunstâncias. Não sou apreciador do desconforto que me assombra quando a ideia de um destes mergulhos me surge. E onde os livros salvam, somente estes saltos – com ou sem fé – consolidam a experiência de se ser humano.
Na cena final do filme Marty Supreme, Timothée Chalamet consegue mostrar-nos o que pode ser uma das faces da sublimação da humanidade. Após múltiplos embates em águas pouco profundas e inversamente proporcionais à sua ambição, vemo-lo regressar de uma viagem a um país longínquo, vencedor e derrotado, munido dessa incongruência e ambiguidade que nos torna homens e mulheres. A sétima arte permitiu a cristalização do momento em que Marty mergulha na tal essência, dentro da fundura de emoções que habita em nós, e esbarra no preciso momento em que vê o filho pela primeira vez. Filho que sempre negou ser seu, filho que nunca esteve nos planos e onde o egoísmo do progenitor até sugeriu dar para adoção. Nessa queda, a que assistimos através de uma sequência de planos, percebemos a lição de humildade que a vida pode ser. Como a impermanência é mais do que parte integrante de viver, é essencial. Revi-me no descontrolo emocional que o ator consegue imprimir no personagem: também eu chorei compulsivamente perante o milagre da vida que é conhecer o nosso primogénito, ainda coberto de mecónio. Também eu mudei nesse preciso momento, assoberbado pela grandeza do momento e mergulhei nas águas de uma nova vida: a paternidade. Por maior que possa ter sido a minha resistência a uma nova forma de viver, fui salvo, de tantas maneiras, pelo meu filho. E tive o privilégio de ter sido salvo, novamente, passados cinco anos, pelo meu segundo filho. Outro mergulho, noutras águas, noutras essências, mas a mesmíssima humanidade. Nas quedas-livres que antecedem esses momentos, continuo a ver as pirâmides humanas, as vidas que são forçadas a olhar para baixo enquanto cobiçam as que estão em cima. Regresso à noção da nossa insignificância, do grão de areia num planeta deserto que somos, da nossa fragilidade. E agradeço os mergulhos que vou dando porque, por mais difíceis que se apresentem, são sempre um banho de humildade que nos faz falta.
Abraço-vos,
João
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