Olá,
Tenho vivido debaixo de uma pedra, ao que parece. Uma das (des)vantagens de não ter redes sociais é não saber das celeumas sociais, tão abundantes nos nossos dias. Por vezes tenho saudades de alimentar a alcoviteira que há em mim, não fosse o mexerico parte integrante de uma das teorias da evolução humana. No Sapiens, Yuval Harari defende que a coscuvilhice teve uma grande importância na estrutura social e permitiu chegar ao que conhecemos hoje como humanidade. Por isso nunca me foi difícil compreender o sucesso das redes sociais: microcosmos digitais onde podemos exacerbar o corte na casaca noutros e ir sabendo o que andam a fazer.
Um dos eventos que me passou ao lado foi este regresso do Francisco Rodrigues do Santos, vulgo Chicão, a um estado de graça. A começar no volte-face das suas posições e opiniões políticas e a acabar na improvável amizade com o Diogo Faro. Dei por por mim fascinado com este facto e fui ouvir o episódio do Não Mandas Em Mim em que os dois estão em amena cavaqueira com a Inês Lopes Gonçalves, numa conversa reveladora e onde dei por mim a concordar – e a gostar – das posições e argumentário do antigo líder do CDS. Confesso que não estava nos planos do presente ano acabar a gostar dos argumentos de alguém cujo campo político se situa nos antípodas do meu. Há quem desconfie e pense que é uma espécie de manobra de marketing e instinto de sobrevivência política. Percebo: sou muito cético e crítico da política portuguesa e do carreirismo que por lá grassa. Não obstante, gosto de ser ingénuo e ter uma réstia de esperança na capacidade do ser humano mudar. Atrai-me a ideia de alguém do campo conservador defender a prática da doutrina social da igreja e colocar a empatia e o amor ao próximo como pilares sociais – o que difere de muito do habitual Cristianismo político que tanto julga e discrimina e deseja, ardentemente, a submissão dos outros. Ouvi o Chicão assumir que mudou a sua perspetiva sobre o que é uma família, sobre a liberdade de amar. Ouvi-o discorrer sobre o poder com maiúscula e minúscula, assim como a política. Crítico do idadismo, do partidarismo e de outros males que assolam a política no geral. Mas ouvi-lo falar do problema em chegar a consensos numa era de entrincheiramento político e da polarização que ultrapassa a civilidade e impede o diálogo saudável, conquistou-me. A dada altura, deixando-me abesbílico, Chicão cita Nelson Mandela. Parafraseando: o ressentimento e o rancor são como beber veneno e depois esperar que ele mate os nossos inimigos.

Há uma diferença estrutural entre não gostar de alguém e de lhe guardar rancor. Eu nunca fui muito dado a guardar rancores pelo mal que sinto que me fazem. Rapidamente, o meu ressentimento cristaliza-se na simples antipatia pela pessoa e, até prova em contrário, no julgamento sumário das suas ações. Não me permito ficar meses – e há quem fique anos e décadas – a remoer no mal que perceciono que me fizeram. Tenho alguma dificuldade em compreender essa postura, até. Porque, como afirma Mandela, envenenar o nosso corpo e mente com um padrão de pensamento destrutivo e um desejo mórbido que quem nos injuriou, de alguma forma, pague o preço. Ao longo da vida fui testemunhando o que o ressentimento é capaz. Famílias destroçadas, sem se falarem, sem sequer conseguirem chegar a um ponto de entendimento que permita uma trégua, por exemplo. Relações, de todo o tipo, minadas por uma fel que só se torna mais ácida com o tempo. Os padrões enraízam-se, fundo, e repetem-se. As pessoas que guardam rancor vivem condenadas a repetir-se, revivendo os mesmos argumentos. Com o tempo, a repetição da narrativa consegue criar uma camada bolorenta que cria uma visão distorcida da realidade. Na ruminação, acrescentam pontos a uma história que já pouco corresponde aos factos. E uma mentira repetida vezes suficientes, ainda para mais na nossa mente, acaba por se tornar, aos nossos olhos, numa verdade. E é neste preciso momento, em que a narrativa nos serve as emoções, onde nos vitimizamos, que somos plenamente envenenados. Convencidos de que temos razão, perdemo-la juntamente com relações, saúde e bem-estar no dia-a-dia.
O rancor destrói as pessoas, por dentro. Torna-as invólucros de um mau estar que se torna compulsivo. As ações repetem-se. Dizem as mesmas coisas, da mesma forma, pelos mesmos meios. Acham que a sua postura está sustentada num suposto sentimento de justiça, de correção e de equilíbrio do mundo. É um estado de stress contínuo, a somar aos múltiplos fatores stressantes com que já vivemos nos dias de hoje. Esta libertação constante de cortisol acaba por ter consequências na nossa saúde. Regresso sempre ao Mito do Normal, do Gabor Maté: a forma como vivemos acaba por ter um impacto direto e proporcional na nossa saúde. Não só a nível epigenético, mas na forma de cada um de nós se relacionar com o que nos acontece e nos padrões que dessa relação advêm. O rancor, por exemplo, mina as relações que temos com pessoas que nada têm que ver com os problemas concretos. Ficamos hiperfocados em padrões nefastos e repetitivos e deixamos de conseguir discernir que estamos a perder tempo útil com quem amamos. Porque se deixamos que o nosso julgamento seja toldado pelo ressentimento, deixamos de conseguir perceber o que realmente é importante. Colocamos de lado aquilo que devia ser prioritário: estarmos com quem amamos, independente da forma e das circunstâncias. Recordo, com saudade, um ritual da minha família em que nos reuníamos todas as sextas-feiras. Era o ponto de encontro semanal, mesmo que nem todos pudéssemos, estava sempre marcado. O ressentimento e o rancor de alguns minaram este encontro e ritual e, consequentemente, os restantes deixaram de ter este espaço. Noutras paragens e famílias, há pessoas que deixam de ter a capacidade de diálogo e condenam relações com quem nada tinha que ver com o assunto.
O que mais me intriga com esta questão é a capacidade de se prolongar o rancor durante tempos sem fim, voltando ciclicamente aos mesmos argumentos, reforçando narrativas, sem a capacidade de parar para uma auto-reflexão. Talvez seja quando deixamos de ter a capacidade de observar de forma crítica os nossos próprios padrões que nos perdemos. Regresso a Viktor Frankl, novamente:
Entre o estímulo e a reação há um espaço.
Neste espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta.
Na nossa resposta está o nosso crescimento e a nossa liberdade.
Vivemos tempos em que esse espaço, ínfimo, que se pode descobrir entre um estímulo e a reação, é constantemente suprimido. Há uma pressa em fazer parte dos ciclos, uma pressão para que nos alimentemos de uma espuma e nunca mergulhemos na vida. Podemos fazer escolhas, portanto. E o ressentimento, mesmo que advenha de determinados condicionalismos que nos viram crescer, é uma escolha. A coragem de nos olharmos ao espelho e enfrentarmos os factos – não as visões distorcidas e deturpadas que insistimos em narrar a nós próprios – é uma escolha. O crescimento e liberdade que Frankl fala depende de uma intenção e esforços conscientes, quase sempre hercúleos. É uma escolha perpetuar padrões que conseguimos observar, tenhamos ou não consciência dos seus efeitos nefastos. A carapuça serve a muitos. A mim, que luto para fazer as melhores escolhas, questionando-me constantemente e tentando pôr-me no lugar dos outros. Nem sempre com sucesso, eu sei. Mas serve, principalmente, a quem não quer ver mais que a sua própria razão. É nesse fosso solitário que habitam, incapazes de sair. Até ganharem a tal coragem que, demasiadas vezes, chega tarde demais.
Abraço-vos,
João
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