Olá,
Galvanizado pelo texto da Rita Dantas – brilhante, conciso e claro – e desiludido com uma conversa que tive com um camarada no trabalho, resolvi escrever sobre estas eleições. Não me sinto tão capaz de fazer uma análise com a qualidade do Ricardo Cabral Fernandes por isso vou fazer o que faço sempre: escrever com honestidade e coração.
Na primeira volta, votarei na Catarina Martins.
Sou uma pessoa muito crítica das estruturas capitalistas vigentes, defensor acérrimo da classe trabalhadora e um crente – pouco me importa se ingénuo ou não – num ideal humanista de existência em cooperação. Não me vou alongar nos porquês, mas não me revejo em nenhum partido à direita do PS inclusivé. Nestas eleições, só equacionei votar no António Filipe, na Catarina Martins e no Jorge Pinto. O meu deslumbramento com o LIVRE começou o seu declínio com as decisões internas do partido em não apoiar nenhum candidato e escolher um próprio: já tínhamos a candidatura da Catarina e do António, pelo que um novo nome iria fragmentar uma esquerda já por si estilhaçada. Este factor, aliado à falta de arcabouço institucional, eliminou o Jorge Pinto da minha shortlist. Sobraram-me o candidato apoiado pelo PCP e a apoiada pelo Bloco de Esquerda. São muito idênticos no essencial e, principalmente, no conjunto de características que tornam num garante institucional do respeito democrático e constitucional. Ambos defendem a constituição e tentariam, por todos os meios institucionais e legais ao seu alcance, impedir devaneios radicais da direita destrambelhada no parlamento. Acabei por escolher votar na Catarina porque, neste momento em específico, a ideia de ter uma mulher, humanista e progressista, como presidente me parece mais essencial que nunca. Para que a sociedade portuguesa, cada vez mais conservadora e profundamente patriarcal, tenha um contra-peso à maioria de homens brancos com mais de cinquenta anos que debatem e decidem os destinos do nosso país.

Porque nunca votaria António José Seguro na primeira volta.
Porque ele não me representa. Aliás, representa as premissas e instituições políticas e ideológicas que proliferam em maioria no parlamento há décadas. É uma das sanguessugas da democracia portuguesa, emaranhado nas teias de interesses, favores e poderes. E está longe, muito longe, de acolher as aspirações e necessidades do povo português. Não o pode fazer, em boa verdade: está refém de lógicas financeiras que redundam em estratégias políticas. Esta semana conversei com um colega que costuma estar no mesmo campo político que o meu. Fiquei admirado porque anunciou que ia votar no Seguro porque não quer correr o risco de não o ter na segunda volta. No seu entendimento, o candidato apoiado pelo PS terá um papel diferente do Cotrim ou do Marques Mendes. E esta premissa sustenta a intenção de voto dele; é também nesta premissa que começa a minha discordância e, para ilustrar o porquê, muno-me de uma citação do texto da Rita:
É com estas duas pessoas que estamos a contar para impedir a viragem à direita? Nalgum momento eles nos deram indícios reais de que vão travar a perda de direitos, a decadência programada do SNS, a deriva xenófoba? Não.
Aliás, mal posso esperar pela “promulgação rigorosa” da lei da nacionalidade, pela “promulgação preocupada” do pacote laboral e pela “promulgação cautelosa” da nova lei de bases da Saúde.
Vai ser um fartote.
É precisamente por saber que as promulgações de Seguro, Cotrim ou Mendes serão iguais, com adjectivações diferentes, que sou incapaz de compreender eleitores da esquerda contestatária e socialista que votam no António José. É o mesmo argumentário que uso para explicar que, do Partido Socialista para a direita, é tudo farinha do mesmo saco, estruturalmente falando. E votar com medo dos resultados políticos ao invés da convicção é subverter o poder do voto e reforçar as deficiências da democracia representativa. Foi o medo que nos manteve amordaçados quarenta e oito anos.
Segunda volta: e agora?
Sabendo que nenhum dos candidatos que julgo terem o melhor perfil para a presidência terá grandes hipóteses de passar à segunda volta, torna-se tudo mais fácil. Entre um pedaço de merda e o Ventura, a merda terá sempre o meu voto. Votarei em qualquer coisa, menos no candidato que anda a bramir que nos fazem falta Salazares. Dizia o meu colega que tem medo do Cotrim, do Almirante e do Marques Mendes. Volto à linha de raciocínio de há pouco: é irrelevante. Serão todos “um fartote” muito semelhante, muito parecido e alinhado nas suas convicções. No essencial, permitirão todos o mesmo aos governos e terão as mesmas linhas orientadoras. Oxalá esteja errado. Até lá, tudo menos o facho.
Abraço-vos,
João
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