Olá,
Ocasionalmente sinto nas vísceras algo que não sei definir com precisão. Será inveja? Consultei a infopédia:
nome feminino
- desejo de possuir algo que outra pessoa possui ou de usufruir de uma situação semelhante à de outrem (geralmente acompanhado de animosidade face a quem detém o objeto de cobiça e de vontade de que esse outrem o não tivesse)
- aquilo que inspira esse sentimento; objeto de cobiça
- desgosto ou ressentimento causado pelo bem de outrem
- RELIGIÃO um dos sete pecados capitais, segundo a doutrina católica
Eu conheço perfeitamente esta sensação, a chamada dor de cotovelo e, sim, também a sinto. É parecido, mas não é bem isso que estou a tentar descrever. Permitam-me explicar: é o “desejo de possuir algo que outra possui ou de usufruir de uma situação semelhante à de outrem” mas sem a animosidade nem “vontade de que esse outrem o não tivesse”. A palavra que mais se adequa, parece-me, é a cobiça. Confirmemos:
nome feminino
desejo veemente de conseguir alguma coisa; ambição; avidez
Está mais perto. É a mistura destes dois conceitos, tornando a amálgama de palavras e significados na salutar prática de transformação e evolução de signos e ideias. Fujamos à semiologia mais dura e simplifiquemos: é o desejo de possuir algo que outro tem, partindo da ambição de conseguir o mesmo. Não sinto animosidade, quero apenas esforçar-me para conseguir o mesmo. Muitas vezes isto traduz-se na força motriz que me leva a fazer algo ao mesmo tempo que celebro o trabalho e o sucesso de outrem. É mais salutar, quero acreditar.
Perdoem-me esta introdução, estimados leitores, que começa a parecer a justificação para algo. E talvez o seja, mas lá chegaremos. A ambição não é uma tarte onde cada fatia retirada implica menos quantidade para os outros. A ambição é uma força onde, relembro a lei de lavoisier, nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma. Perdoem-me o momento metafísico a roçar o estilo de coach motivacional, mas queria deixar claro que há uma diferença entre invejar e cobiçar.
Há umas semanas, senti um enorme orgulho alheio pela camarada de escrita Cátia Madeira. Sendo honesto, já era subscritor e fã dos escritos da senhora, mas, vá, acompanhem-me. Admiro, profundamente, a honestidade e a transparência radicais. Acho que a humanidade tem muito a ganhar com deixar as coisas em pratos limpos e chamar os bois pelos nomes. A Cátia escreve há muito tempo e, a certa altura, decidiu compilar os seus escritos num livro de contos. Foi aqui que comecei a sentir o primeiro formigueiro da cobiça, a vontade de também escrever um livro de contos, ou de poesia, ou um guião para o pequeno ou grande ecrã. Gabo-lhe a coragem e a honestidade: assumiu que tentou a edição clássica e que recebeu estas variantes de respostas que aqui replico:
- Nada
- O plano editorial da editora estava fechado
- Não se enquadrava no tipo de livros que editavam
- Leu, gostou de umas coisas e menos de outras, mas, com toda a frontalidade, não ia publicar
Eu, que até costumo ser um otimista inveterado, teria deitado a toalha ao chão. Culparia o mercantilismo que orbita na indústria(🤮). Ou a falta de coragem editorial de dar oportunidades a novos talentos. Eventualmente, aceitaria a negação como prova inequívoca do impostor que sou e que, claro, não fazia sentido algum publicar nenhuma das baboseiras que escrevo. Nada como uma boa autodepreciação para arrematar o final da aventura do proto-escritor. Mas a Cátia decidiu mandar enfiar estas respostas onde Judas perdeu as botas e avançou para uma edição de autor(a). O formigueiro intensificou e passou a habitar as vísceras: tive pena de não ter esta coragem. A autora pediu a quem estivesse interessado numa cópia para manifestar o seu interesse e mandou imprimir a primeira edição. Tratou da paginação, da capa, das questiúnculas todas que me ultrapassam, e chegou a bom porto com o seu Máquina de Escrever. Isto de subverter a lógica do capitalismo tem as suas benesses porque a edição estava com um preço bem mais acessível que os novos lançamentos que habitualmente encontramos nos escaparates das livrarias. Perde-se a gigantesca máquina de marketing e distribuição, mas ganha-se a proximidade com quem realmente interessa: os leitores. No processo, reduzem-se os custos com os intermediários e conseguem-se preços mais acessíveis. Tendo manifestado o meu interesse numa edição, paguei, dei a minha morada e passados uns dias chegou lá a casa um embrulho em papel pardo com duas cordinhas de cores diferentes a finalizar o embrulho. Eu que andava num bloqueio de leitura e arrastar-me com alguns livros em mãos, olhei para o exemplar e pensei: onde é que eu me fui meter?

Nos últimos meses andei sem grande vontade de ler. As causas são muitas, não interessam para o caso, mas confesso aqui que demorei quase sessenta dias a terminar um livro do Saramago que, espantem-se, estava a gostar. Mas eu também sou como as estações e há invernias nas minhas leituras e na capacidade que tenho de processar o que leio. Bom, avante. No dia em que recebi o livro da Cátia tinha acabado a empreitada do Evangelho Segundo Jesus Cristo e pensei que não sabia se me apetecia ler contos de uma autora que sigo no Substack e que, estatisticamente, podia ser uma valente merda. Voltei a sentir nas vísceras a ambição: gostava também de ter uma edição de autor, bem como a coragem para a escrever e publicar, nem que seja em edição de autor. Mas também senti a síndrome do impostor a bater forte no peito, a imiscuir-se nas minhas inseguranças e a dizer-me que, estatisticamente, também eu tenho uma enorme probabilidade de ser uma merda. E eu nunca publiquei ñada em papel. Com os miúdos a dormir e o silêncio assente em casa, resolvi folhear o livro. É o meu ritual com livros novos, leio sempre umas páginas, acho que é para perceber se a minha aquisição foi um bom investimento ou um erro de cálculo. Fiquei agarrado. Era precisamente o que eu precisava de ler e não sabia. Li metade numa assentada, a rir-me às gargalhadas com lambadas inesperadas, com relações humanas entretecidas em complicação, escritas de forma simples. Simples, mas não simplista. As frases encadeiam-se numa familiaridade de expressões e particularidades sem pretensiosismos. Não é um feito fácil. Boas histórias, curtas, bem escritas, sem pôr de lado a densidade da humanidade, nem a leveza de uma literatura bem conseguida. Caso a verborreia não esteja clara: adorei o livro. Terminei-o no dia seguinte, não chegou às quarenta e oito horas. Tive empatia com os personagens, lembrei-me do meu papel como pai, da complexidade das relações humanas. Mas o que mais gostei em todo o livro foi ser lembrado que podemos encontrar humor em todos os cantos da nossa vida, é somente uma questão de perspetiva. Os contos, quando bem escritos, têm o poder de cristalizar em poucas páginas a experiência humana. Com o livro lido na íntegra, fui assaltado por um enorme sentimento de satisfação. A internet é o que fazemos dela, e a Cátia distribuiu um livro através do enorme poder da desta rede informática. Mas fiquei a olhar para o livro, a cobiçar um dia ter o mesmíssimo objeto na mãos, mas ver lá escrito o meu nome. Não sei se e quando acontecerá. Mas ter lido este livro contribuiu, certamente, para que um dia aconteça. Portanto, não fico apenas grato pela maravilhosa experiência de leitura, mas também pela cobiça saudável que fica instalada no meu peito depois de o ter lido. E um bom livro é, também, isto: uma força motriz para algo na nossa vida.
Abraço-vos,
João
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