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Crónicas . Da Balbúrdia Article

Esperar sem alcançar.

On Outubro 16, 2026porJoão Azevedo

Como todos, o meu crescimento e educação criaram condicionamentos na forma como me comporto. Aliás, o meu comportamento reflete múltiplos processos de crescimento que se foram sedimentando, criando camadas, umas mais complexas que outras. Todos temos particularidades que foram sulcadas na nossa forma de ver o mundo e de interagir com ele. Apesar de ser uma pessoa impaciente, que não aprecia esperar pelo que sente que poderia ser mais rápido, tenho vindo a descobrir uma capacidade de suportar situações desconfortáveis por grandes períodos de tempo. Este meu talento terá origens específicas na forma como fui educado, bem como na forma como fui absorvendo o mundo à minha volta. Importa reter que já passei por múltiplas situações insustentáveis que deixei arrastar para lá de um prazo que se poderia considerar saudável. 

Faço-o porque, algures na linha temporal que me acompanha, meti na cabeça que tenho de suportar o desconforto. Seja porque a alternativa é navegar no desconhecido – possivelmente mais desconfortável – ou porque acredito sempre na possibilidade da mudança, a maior maldição de um optimista crónico. Este meu mecanismo pouco saudável forçou-me a algumas aprendizagens. Deixei de insistir nas visões maniqueístas e de preto no branco e passei a ver os gradientes cinzentos da vida. À medida que essa escala de cor ganhava dimensão, a lente com que olhava para o que acontecia permitia discernir os dois pratos da balança e os seus delicados equilíbrios. A miopia da polarização dava azo à complexidade das coisas: a balança tinha mais que dois pratos, tinha múltiplos elementos em cada prato, cada um mais complexo que outro. Em todo o tipo de relações, deixei de contar somente com os canais de comunicação, com a mensagem e com a interpretação da mensagem e passei a equacionar como a mensagem é recebida, com a empatia necessária para também me colocar nos pés dos meus interlocutores.Assim, esvai-se a linearidade. Nestas descobertas de nuances e da complexa teia que é a humanidade, deixei-me cair na armadilha de me agarrar ao que há já muito que devia ter largado. Há vários níveis, claro. Se, inicialmente, me deixava estar por medo de consequências ou pelo conforto de um desconforto que ao menos é conhecido, hoje em dia misturo estes catalisadores iniciais com a minha incapacidade de processar a impermanência constante de tudo o que nos rodeia. Porque me amarro à esperança de que, na balança, se possa sempre encontrar o equilíbrio entre o que é me enriquece e provoca bem-estar e o que me deixa desconfortável. E porque assumir um limite no meu desconforto e abandonar a situação, relação ou ação traz sempre a consequência evidente de perder ambos os pratos da balança.

Parece sisífico. Tendo já ultrapassado vários pontos de ruptura, continuo com a crença, visceral, de que posso seguir em frente e que as coisas vão melhorar. De que a crença e a fé na humanidade acabam por se justificar e que os pesos na balança se vão corrigindo e voltam à homeostase necessária para prosseguir. Estou, portanto, condenado a empurrar essa crença, monte acima, apenas para a ver rebolar para o ponto de partida. Mas não estou sozinho neste caminho. Se eu me deixo prender aos meus receios e condicionalismos, há quem se deixe cegar por rancores, ou orgulho e mágoa. A dor e o ódio também são potentes agentes que nos podem prender as balanças tombadas para o lado que menos gostamos. E depois ficamos submergidos na inércia de achar que a coisa vai mudar. Que as pessoas vão mudar e fazer de outra forma. Ou que nós vamos mudar e fazer de outra forma. E ficamos agarrados a vidas que estão aquém do que almejamos e merecemos, a trabalhos que não nos preenchem, a relações que nos magoam. Deixamo-nos corroer por rancores que nos cegam, afastamo-nos de pessoas que amamos. Porque as coisas não são da forma que queremos, ou porque sentimos que não nos estamos a encontrar onde habita a virtude. Esperamos sem alcançar.

Photo by Wim van ‘t Einde on Unsplash

Pontualmente, somos sacudidos. A morte tem muito disso: coloca em perspectiva. Pode, até, tornar-se num substrato altamente inflamável que fará arder e queimar essas amarras ao que não é sustentável. Mas também pode alimentar a chama das nossas crenças cegas e fazer-nos fincar o pé em areias movediças. Morreram-me demasiadas pessoas este ano. Tem sido um confronto recorrente, doloroso, que se funde e soma a desequilíbrios que por aqui cirandavam. Sinto, de forma honesta, que o importante é tentarmos viver a vida o melhor possível e não nos deixarmos prender por desconfortos que vamos tolerando. Viver não é suposto ser uma angústia existencial: é mais que estar aquém de sermos felizes. Olho para as várias balanças, pesos e medidas que continuam profundamente entrelaçadas. E tento perceber se estou a sentar-me num desconforto, com esperança num dia melhor, ou se me estou a iludir, e a olhar para o que pesa de bom enquanto tento ignorar o que me arrasta para o fundo. Tento lembrar-me que as coisas mudam, que são impermanentes e que, apesar de perdermos coisas, ganhamos outras. 

Mas fica-me sempre uma dúvida. Algo que, na verdade, não consigo discernir. A decisão de sair desse desconforto implica largar coisas boas e abraçar o desconhecido. Porque abandonamos as âncoras e, pelo caminho, magoamos outras pessoas. Não só as que são parte integrante da estrutura da balança, mas também aquelas que se assumem como pesos e medidas nos pratos. As nossas decisões não são estanques. Onde traçamos a linha entre o nosso bem estar e o sofrimento de outros? É relativo, claro. A tal gradação de cores. Depende de demasiadas coisas para chegarmos a respostas simples. Acabamos da mesma forma que nascemos: a sós com a tomada de decisão em consciência com os nossos valores e com as intenções que temos para a forma como queremos viver a vida.  

Abraço-vos,

João

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Tags: 2026, balança, crescer, Crónicas, egoísmo, equilibrio, esperar, mudança

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