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Crónicas . Da Balbúrdia Article

O Vazio da Casa do Privilégio

On Maio 8, 2026porJoão Azevedo

As casas vazias reverberam de outra maneira e acentuam o óbvio. A chave grossa entrou na fechadura e fez com que a porta da entrada se abrisse. O som metálico, seco e imponente, igual ao longo do anos, repetiu-se novamente. A vida são estas repetições que só perante a iminência de as perdermos é que lhe damos o valor, quase esquecido. Depois, o estrondo da porta a fechar, pesado e denso e que perdurou mais que o habitual nas divisões despojadas de tudo. Pareceu-me ouvir o noticiário, como sempre, e a tosse seca de alguém. O cheiro era igual, confortável na sua familiaridade – tendemos a gostar das coisas a que estamos habituados. Uma mistura de papel velho e décadas de tabaco entranhado nas paredes, adocicado e acre. Entrei na sala, o noticiário mais alto, o cheiro de um cigarro acabado de acender, uma voz familiar, tudo a caber dentro da imaginação que negava a ausência que os olhos testemunhavam.

As casas são testemunhas silenciosas das nossas memórias. Agarram os aromas e sensações de passados às vezes demasiado distantes para serem recordados com nitidez. Têm paredes e lembram-se da falta de noção do privilégio que foi ter nascido e crescido num bairro como aquele, com a vida citadina de uma burguesia a viver na sua bolha, longe do desconforto. Lá fora, toca a campainha da escola pela enésima vez. Rasga um silêncio aparente, de trânsito leve, pontualmente o autocarro, a buzina do comboio. Centenas de crianças são soltas num recreio enorme onde as suas imaginações desabrocham em gritos e berros e conversas e jogos. São crianças diferentes, em épocas diferentes, mas a paisagem sonora parece-me igual às que ouvi vezes sem conta. As minhas irmãs foram essas crianças; mais tarde, eu também. Somos todos, então, parte das memórias, dos sons. A viagem ao passado é subitamente interrompida: parece-me ouvir passos no andar de cima. Os tacos no soalho, a sensação de alguém na salinha, ou de um movimento na cama e, outra vez, uma pedra de um isqueiro a fazer a faísca necessária para acender a chama.

Arquivo Pessoal de João Azevedo ©

Tenho pouco mais do que a idade do meu filho mais velho. Talvez nove ou dez anos. E ouço vozes lá embaixo. A memória das vozes e risos e conversas dos adultos nos jantares, tantos jantares, tantas conversas, incontáveis cigarros. Estou deitado na minha cama, no andar de cima, dos quartos e do descanso. O burburinho continua e, pontualmente, uma gargalhada irrompe e rasga a tranquilidade das conversas. Os copos tilintam, o volume das vozes parece aumentar cada vez mais. Eventualmente, adormeço. No dia seguinte, quando acordo, são poucas as provas que não imaginei tudo na noite anterior. Os cinzeiros estão limpos, mas há algumas cinzas no chão. A mesa está arrumada, mas ainda com a toalha. Na cozinha, os copos lavados em cima de um pano da loiça, a secarem. Sou um pouco mais velho, terei dez ou onze anos. Estou numa das minhas festas de anos, quase sempre em casa – aniversários em Novembro são sempre propensos a chuva e mau tempo. Sinto um pico de adrenalina porque juntei-me a mais uns quantos índios na ideia peregrina de atirar umas pedrinhas minúsculas de um quarto andar. Mais tarde, alguém bate à porta e queixa-se que as pedrinhas, minúsculas, com a força da gravidade danificaram o capot de um carro. Da mesma varanda, anos mais tarde, acendo cigarros que são fumados apressadamente, receio ser apanhado e ponho a atenção no barulho dos degraus – são dezassete, dá tempo para os últimos bafos e voltar a sentar-me à secretária a fingir que estudo. Os cigarros são meticulosamente furtados da mala da minha mãe – SG Ventil – que os Pall Mall Light do meu pai eram intragáveis. O peso da passado esmaga-me o peito. Desde que nasci, os primeiros passos, peripécias, choros, violência, amor, mimo, abraços, prazer, beijos, cigarros, drogas, livros, tempo, calma, colo.

Arquivo Pessoal de João Azevedo ©

A casa, agora vazia, alberga as memórias. Ficarão para sempre entranhadas nas paredes e soalho enquanto testemunham outras vidas, outras famílias, outras histórias. Pergunto-me se acender-se-ão cigarros às escondidas com a mesma manha, e se se atirarão pedrinhas minúsculas. Vão ouvir o mesmíssimo bruaá das crianças; há coisas que não mudam. Quando este texto for publicado, já não voltarei à casa. Os contratos foram fechados, as chaves entregues à senhoria e aumentará o peso da saudade que já carrego. Ali vivemos várias gerações que aprenderam que uma casa é onde o amor nos abraça. Uma casa é onde as imperfeições de todos tentam coexistir e onde tentamos que as nossas diferenças não nos separem. Com aquela casa, aprendi o que é o perdão. O Trevor Noah, na pele do Dr. Robby do The Pitt, fala sobre uma tradição havaiana para o luto. Quatro pilares que, de alguma maneira, tentam sustentar uma perda. São simples: eu amo-te, obrigado, eu perdoo-te e espero que me perdoes. À memória da casa, digo-lhe o mesmo. Que a amo e a tudo o que vivi dentro dela. Agradeço, pelo enorme privilégio que foi tê-la como casa, como história e passado que fez de mim quem sou. Perdoo cada uma das suas imperfeições e amarguras e espero que perdoe as minhas. Adeus. A balbúrdia, agora, tem novo lar.

Abraço-vos,

João


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Tags: 2026, Casa, Crónicas, memórias, Perdão, privilégio, Vazio

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