O peso do mundo pode esmagar um peito incauto. Cruzamo-nos com outras almas e aparentamos estar alinhados na engrenagem. O ranger das peças perfeitamente encaixadas numa ilusão de bem-estar esconde a fealdade, claro. Escorre um ódio muito particular das paredes que compõem o mundo que conhecemos – uma intolerância que tem vindo a insuflar, e a ser insuflada, gradualmente. São incrementos que se acumulam. Primeiro, nos pensamentos, viscerais, ignorantes, vindos de uma escuridão que nos assombra. Vão sendo validados e reforçados por afirmações com alcance e influência; damos palco a discursos desonestos e, sem surpresa, acabamos enganados. Depois, verbalizamos e reverberamos esses discursos. Na solidão escura da caverna das nossas cabeças só a luz pode iluminar a falácia e fazem-nos falta a lucerna e o candil. Na ponta da língua, viperina, balbuciamos encantamentos que reforçam o aço das correntes que nos prendem; magos de coisa nenhuma, alquimistas que falharam, resta-nos a matéria negra que fertiliza o que de pior há em nós e nos outros. Arregimentamos a primeira pessoa do plural e esses outros, oxalá fossem majestáticos, mas são cada vez mais. A nossa bolha encolhe e o mundo, numa espiral contínua, a caminho de só poder ser estudado à luz da escatalogia.
A rede feita de zeros e uns, que nos interliga, demasiado imediata, acelera a queda. Na vertigem de um abismo que não conseguimos ver, e não deixa ver quem somos, acicata o animal que ainda somos. Reféns de imperativos biológicos, sim, mas sem desculpa para o requinte de malvadez que faz a gestação nessa humanidade estilhaçada, encolhida. Bárbaros, com medo do que não compreendemos, condenamos a diferença e digitamos o que nos tem sido regurgitado. O tempo tudo fermenta e decompõe. Pedimos perdão, mesmo sabendo que alguns sabem o que fazem e outros, demasiados, fazem-no sem perceber. O desconhecimento não é desculpa nem bênção. É uma condenação em lume brando e que entrará em ebulição quando menos esperarmos. A liberdade morre aos bocados.

Eremita, numa proscrição voluntária, vejo ao longe as constantes repetições ritualísticas numa janela formatada a nove por dezasseis. As peles dos tambores, tão primitivas quanto quem os toca, embalam o mundo que segue o seu rumo. Boom. Boom. Boom. Vão sincopados com o bater do coração em repouso e alimentam a besta da indiferença. O tempo continua a empurrar tudo para a frente, com a barriga, boom, boom, boom. Voltamos a ouvir o diabo:
À barca, à barca, houlá! / Que temos gentil maré!
Navegamos, portanto, sem importar o rumo, nas mãos de barqueiros que nos querem ver afogados. Há uma gravidade no ar, particular, que dificulta a respiração. Nunca enchemos, verdadeiramente, os pulmões e ficamos aquém da satisfação de um bom bocejo. Falta-nos tanto, penso. Na ausência do que é importante somos apenas esboços do que poderíamos ser. E nesse vazio a embarcação oscila ao sabor dos ventos soprados por quem nos quer ver navegar sem farol. Quando não se vê o rumo, os mares escondem monstros famintos que aguardam somente a ocasião que os fará ladrões das almas perdidas. As sereias já não cantam para nos encantar, choram o espaço cedido a essas criaturas inomináveis.
O ódio continua a escorrer, principalmente de quem se sente perdido e vê na sua intolerância um sentimento de pertença. Nós e outros. Nós contra os outros. Os outros tão diferentes de nós. Os monstros refugiam-se dentro dos corpos intolerantes, alimentam-se do medo, dos padrões, dos traumas que atravessaram gerações. Acima de tudo, tememos perder o que temos, que a nossa vida seja de alguma forma pior por causa da existência de outros. Instinto ou condicionante genética, pouco importa: o resultado é o mesmo. E se a loucura é insistir no mesmo e esperar resultados diferentes, ensandecemos. Neutralizo este fatalismo com o meu optimismo crónico, ingénuo, quase infantil. Encontro a esperança dentro de lombadas – e tendo a crer que quanto mais antigas melhor. Talvez possamos fazer dos livros astrolábios e cartas marítimas. Que neles possamos encontrar as estrelas que indiquem e iluminem um caminho feito de empatia. Ler a empatia que nos tem fugido dos por entre os dedos, demasiado ocupados a esfregar ecrãs.
Abraço-vos,
João
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