Nunca pensei querer escrever um texto depois de ler um post no Reddit. Mas aqui estamos. O título parecia um dos milhares de desabafos que tive ao longo da vida: o culto do desenrascanço é uma das maiores âncoras ao progresso em Portugal. Permitam-me transparência e honestidade radicais: se pudesse não trabalhar, não trabalhava. Não concordo que se encontre honra e salvação no trabalho e, honestamente, não penso nas minhas obrigações laborais como parte integrante de quem sou. O trabalho, portanto, não me define. Para ajudar à festa, considero-me um preguiçoso hedonista. Se puder não fazer absolutamente mais nada do que aquilo que me apetece a cada momento, estou no paraíso. Gosto do dolce fare niente, gosto do ócio, gosto de me deixar levar pelos apetites de cada momento. Contudo, sou um ser humano perfeitamente socializado e aculturado ao sistema vigente e, por isso mesmo, capaz de trabalhar e cumprir com brio nos vários empregos que fui tendo. Pão, pão, queijo, queijo.
Apesar da minha preguicite aguda, sou adepto de que se trabalhe da forma mais eficaz possível. Longe de ser um produtivista ferrenho, esta é apenas uma ferramenta que cresceu comigo para garantir que trabalho melhor e, consequentemente, menos. Assim sendo, gosto de dedicar algum tempo a pensar e a visualizar qual o caminho mais eficaz e produtivo para cada tarefa, de forma honesta e realista. Relendo esta última frase, percebo o quão ela contrasta com a realidade laboral portuguesa. Já lá irei. Sou fã de procedimentos estruturados, pensados e otimizados para cada tarefa, discutidos previamente e preparados para cada necessidade específica. Gosto da antecedência, da antecipação de cenários e de chegar às situações com um conjunto de ferramentas que me permitem lidar com eventualidades. E gosto de canais de comunicação diretos, claros e concretos: mensagens simples com tarefas e responsabilidades bem definidas. Nada disto são caprichos meus. São pilares de qualquer manual de gestão empresarial e de projetos.
Não inventei a pólvora, portanto. Mas esbarro contra paredes, há anos, no mercado de trabalho português.
Em Portugal trata-se o desenrascanço como virtude nacional.
E às vezes é.
Mas a verdade é que muitas vezes é só incompetência normalizada com boa publicidade.
Fazer tudo à última, improvisar processos, aceitar “mais ou menos”, resolver problemas que nem deviam existir.
Em vez de planeamento, organização e exigência, celebra-se quem “safou” a situação.
O problema é que um país inteiro a funcionar assim nunca sai da mediocridade.
O desenrascanço é naturalmente útil em situações de emergência. Mas quando passa a ser visto como cultura, mata a excelência e a capacidade de ir para a frente.
Esta partilha no Reddit trouxe-me à memória velhas batalhas no mercado laboral. Vamos a elas. Confundimos tempo de trabalho com produtividade – e usamos esta premissa com orgulho e como distinção social. O patronato continua a preferir a sensação de controlo, ilusória, que um putativo número de horas por dia lhe dá. E insiste na má gestão de projeto e tempo: como fazer uma direta para acumular vinte horas seguidas de trabalho depois de ter aceite um projeto com prazos irreais. Até é paradoxal, se pensarmos. Exige-se um determinado número de horas que, desde que vão além do horário regular das oito horas, parecem garantir um determinado volume de produção. Ao mesmo tempo, desperdiça-se esse tempo exigido na ausência de planificação e na constante insistência em lidar com as coisas à medida que surgem. Está-se permanentemente a resolver problemas criados pela falta de organização e preparação e a consumir tempo desnecessário. Se aliarmos tudo isto às chefias e patrões sub-qualificados, que perpetuam uma cultura empresarial obsoleta e ignorante, está o caldo entornado. Trabalham-se horas a mais, para se produzir menos e faz-se tudo em cima do joelho. Baixam-se as bitolas de qualidade, o brio esvai-se, a exploração dos trabalhadores aumenta e as cúpulas de decisão são incapazes de perceber que o problema parte da sua visão empresarial. Albarda-se o burro à vontade do patrão e quando o burro não anda quem se lixa é o mexilhão.

À parte da urticária que tudo isto me causa, dou muitas vezes por mim a pensar nas causas de tudo isto. Faço essa navegação na maionese da causalidade múltipla de um fenómeno que nunca estudei a fundo e nem sei se terei ferramentas para o fazer de forma séria. Isto é, ponho-me a congeminar umas ideias do que possam ser as origens deste laxismo e lassez-faire que tanto prejudica o mundo do trabalho no nosso país. Nem sei se é o meu provincianismo a falar e a considerar este país o estandarte do atraso civilizacional; talvez seja igual no resto do mundo, mas a ideia que tenho do que vou lendo e ouvindo é que este é um problema muito localizado neste país à beira mar plantado.
Terá sido uma existência condenada à submissão e à escassez de recursos derivada de uma concentração de recursos nas elites? Dos chefes de tribo, aos imperadores romanos, aos reis e senhores feudais que nos foram moldando? Mas tudo isto é transversal à humanidade e não específico de nosso povo. Terá sido a chegada tardia de modelos de governo mais liberais e livres de monarcas? Ou a teoria do Mark Mason da seleção artificial de que os nossos portugueses mais aventureiros foram saindo cá do burgo e ficaram os mais receosos e acomodados? Os quarenta e oito anos de fascismo que perpetuaram as mesmas elites no poder, condicionaram o acesso à educação e valorização de pilares como a família, deus e o trabalho como linhas orientadoras terão, também, a sua culpa no cartório.
Como vos assumi, sou um empírico. Parto da vulgar observação e admito que não tenho os recursos intelectuais para aprofundar estas causas. Mas ressoa muito comigo a ideia de que o problema está na ignorância e na incapacidade, muito humana, de reconhecer as nossas falhas. Sem esse reconhecimento, e a insistência em repetir os padrões que aprendemos sem os questionar, não somos capazes de identificar onde e como podemos melhorar. Apesar de uma fé cada vez menor na humanidade como um todo, ainda acredito que todos temos a capacidade de refletir e mudar quando confrontados com evidências e novas mundividências. Todos ficaríamos a ganhar se encarássemos as falhas e os erros que cometemos, não como definições estruturais de quem somos mas, sim, oportunidades de aprendizagem, crescimento e mudança. Não será, seguramente, fácil. Deixar de lado o nosso ego e percepção de quem somos para utilizar momentos e ações menos boas para abrir o caminho a mudanças comportamentais, não é coisa pouca. Vivemos demasiado agarrados à ilusão que gostamos de ter de como os outros nos percepcionam e encaramos o erro como um defeito de carácter. Esquecemos, claro, que a falha é parte integrante de se ser humano. Um líder não se quer infalível, mas sim corajoso o suficiente para assumir onde falha e aprender com o erro. Também seria importante regressar a um olhar mais humano sobre o trabalho e dar o devido reconhecimento a quem trabalha, pela qualidade do seu trabalho e empenho. Associar números de horas no local de trabalho à produtividade é uma falsidade amplamente rebatida. E, infelizmente, com consequências graves nas vidas dos trabalhadores. Como trabalhador, tenho a visão de que a produtividade se prende com eficácia na gestão e sistema de projecto (planificação, distribuição e delegação de tarefas) bem como um salutar ambiente de trabalho, onde o reconhecimento do trabalho é feito de forma regular e o esforço é compensado. Corrijam-me se estiver errado.
Há outros flagelos que se somam à cultura do desenrascanço: as reuniões intermináveis que podiam ter sido um e-mail, a falta de preparação na ordem de trabalhos que arrastam a duração das reuniões de projeto, a comunicação débil e dispersa. Tudo isto é algo que pode ser trabalhado e melhorado, se houver vontade. Acomodamo-nos demasiado a uma ilusão de conforto. Já conhecemos certos métodos e estamos confortáveis com eles: a armadilha perfeita para estagnarmos. Resta-nos chamar a atenção para estas questões nos nossos locais de trabalho e onde há a necessidade da gestão de recursos humanos. A melhoria da comunicação e dos fluxos de trabalho tem sempre margem para ser aprimorada e isto não é um atentado ao ego de ninguém. É, de facto, pelo bem comum.
Abraço-vos,
João
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